Água doce do Brasil colonial

Uso e abastecimento de água nos três primeiros séculos do País

Na década de 1580, quando vários cronistas escreveram sobre suas impressões acerca desta terra, então recém-conquistada, o padre Fernão Cardim relatava a existência de “homens marinhos”, monstros parecidos com o ser humano que viviam nas barras dos rios doces e matavam apertando as pessoas, quebrando-lhes todos os ossos para logo após comerem olhos, narizes e pontas dos dedos de suas infelizes vítimas. Mesmo com a existência de tal perigo, o padre não deixou de relatar também que a terra era abundante de ribeiras e fontes, com águas “formosas, claras e salutíferas”.

Deixando de lado as fantasias comuns do início dos tempos modernos, ou seja, dos monstros quinhentistas, o senhor de engenho Gabriel Soares de Souza comentava em 1587 a utilidade de rios como o Amazonas e o São Francisco para a navegação de pessoas e mercadorias. Ponto crucial de interligação entre as várias regiões que formavam o Brasil, além de ponto de referência para a localização de engenhos de açúcar e moinhos de trigo, os rios também ofereciam um alimento essencial da “gente ordinária” (colonos e índios): os peixes.

Alguns desses peixes se davam aos doentes como “medicina”, devido à leveza do prato. Mas a água também tinha suas vantagens em tratamentos de doenças estomacais, já que “refrigera as entranhas, extingue a sede, enfreia e tempera o furor e orgulho da cólera (que causa diarreias, febres e cólicas) dos quais se preservará quem beber água de neve” derretida, ou, se não houvesse neve, água refrescada no sereno da noite. Essas eram as recomendações de Francisco da Fonseca Henriques, o médico de D. João V, para “conservar a vida com saúde”.

Culinária e medicina

No primeiro livro de culinária escrito em língua portuguesa, no ano de 1680, seu autor Domingos Rodrigues ensina a fazer um peixe frito na manteiga, colocado em um molho feito com gema de ovo, limão e salsa. O prato, delicioso e saudável, poderia ser feito com qualquer qualidade de peixe. A água não só oferece as carnes saborosas dos peixes para consumo, mas ela mesma era, e ainda é, componente essencial de diversas receitas, como as dos doces em calda. Doces que chegaram a ser exportados para Portugal no século 17, a exemplo da marmelada de São Paulo, que demorava até quinze dias para ficar pronta. Para tanto, tachos ao fogo eram imagem corriqueira, sendo que a água deveria ser trocada periodicamente, alternando a fervura com a água fria.

O mais importante é que a bebida usual da Colônia era a água propriamente dita, usada, segundo Jean-Baptiste Debret, para acalmar a sede que o abuso dos alimentos apimentados ou das compotas açucaradas provocava. Com o calor opressivo das terras tropicais, os viajantes, principalmente, não trocavam um copo de água cristalina pelo melhor champanhe. Para tanto, muitas vezes no “mato dentro” era colhida água das folhas das bromélias a partir da sabedoria dos índios presentes nas expedições. Sobre seus benefícios, o médico de D. João V oferece-nos, em 1701, mais um conselho: “falamos aos sãos (…) estes, pois, sempre devem beber água fria, porque, a água se bebe para cozer e distribuir o alimento, se bebe para extinguir a sede, para refrigerar o coração, para temperar o calor do estômago e das entranhas (…) Só a água fria recreia a alma e é uma das grandes consolações desta vida, quando é remédio de uma grande sede”.

Para sobreviver e trabalhar

Para viver nas paragens pouco conhecidas do Brasil colonial, os costumes indígenas foram primordiais aos colonizadores que necessitavam encontrar as tão importantes “aguadas”, bem vindas para matar a sede nas explorações do “sertão”, ou para marcar o estabelecimento dos povoados e vilas, além da construção de sítios e engenhos. Sérgio Buarque de Holanda, renomado historiador, escreveu na década de 1950 sobre as “samaritanas do sertão”, ou as fontes de água mais imprevisíveis encontradas em um meio inóspito. A extraordinária capacidade de observação da natureza por parte dos índios ensinava aos sertanistas que “o remédio pronto para a sede poderia bem estar sob uma laje, ou um rochedo, ou mesmo disfarçado por um tronco de árvore”. Eram raízes do umbuzeiro, o mandacaru ou certos cipós, que, cortados de maneira adequada e deixados na vertical por algum tempo, deixavam escorrer boa quantidade de líquido fresco, que matava a sede quando ainda estava longe a tão desejada água.

A existência da água também era um item essencial quando se buscavam locais para instalação de sítios e engenhos. Moinhos, moendas, monjolos e rodas constituíam equipamentos imprescindíveis ao trabalho no beneficiamento de grãos e fabrico do açúcar, e muitas vezes funcionavam a partir da força da água dos rios que circundavam as construções. Vale notar que eles também funcionavam a partir da força dos bois ou mesmo do homem. Mesmo assim, a água era insuperável enquanto fonte de energia para o melhor rendimento do maquinário e, por isso, uma riqueza imprescindível. Também não se pode esquecer da importância da água na extração de ouro no século 18.

Limpeza e higiene

Apesar de existirem registros desde o século 16 sobre a “peitiçaba” usada para fazer vassouras e “árvores de sabão” cujas cascas serviam para esfregar as roupa, a ideia geral dos viajantes sobre os costumes dos habitantes do Brasil colonial era o “desleixo habitual pela limpeza”. Em suas casas, a poeira acumulada, as moscas, o mau cheiro e as roupas ensebadas eram itens sempre descritos de forma “horrorizada” pelos europeus. Nos inventários paulistas do século 17, raras eram as menções às jarras para colocar água e às bacias de prata para lavar-se, ou aos estojos de navalhas para barbear-se. Mesmo que de forma não tão frequente quanto os viajantes gostariam, os colonos usavam poços e cisternas, rios e fontes para lavar a louça, a roupa e, por vezes, eles mesmos. De qualquer forma, o ambiente interno das casas era preservado de tais atividades de limpeza, as quais eram realizadas do lado de fora. Até os banhos de rio eram preferidos às bacias e jarras, pelo menos até o início do século 19. Portanto, não é à toa que as casas tinham a tal característica da sujeira bastante comentada.

É certo que a presença da nobreza portuguesa a partir de 1808 trouxe novos utensílios de higiene pessoal, como os bidês e os urinóis, além de novos hábitos como lavar as mãos antes das refeições, o lava-pés antes de dormir e os banhos quentes terapêuticos. No entanto, apenas a modernização advinda no início do século 20 registrou uma mudança efetiva e generalizada nos hábitos de limpeza, excluídos os grupos afetados pela miséria e pelo saneamento deficiente, situação ainda atual.

Sistemas de abastecimento

Até o século 18, as pessoas, ou seus escravos, precisavam se locomover até as fontes naturais de água e aos rios mais próximos a fim de utilizá-la. A partir de então, fontes e chafarizes foram construídos, bem como aquedutos que canalizaram a água distribuindo-a pelas cidades, e que também poderiam ser subterrâneos. Encontramos fontes, chafarizes e bicas d’água setecentistas ricamente ornamentadas em lugares como Olinda/PE, Salvador/BA, João Pessoa/PB, Rio de Janeiro/RJ e Ouro Preto/MG; algumas estão preservadas até hoje. Todavia, em muitas dessas construções seculares a ação do tempo e do desrespeito humano são um alerta para a degradação do patrimônio histórico. Ações como a da Prefeitura do Rio de Janeiro, que recentemente elaborou um projeto de revitalização para as cerca de 50 construções relativas ao abastecimento de água entre os séculos 18 e 20, enchem de esperança aqueles que acreditam na importância da preservação do patrimônio histórico brasileiro.

Em Diamantina/MG, a antiga rede de água subterrânea era formada por calhas de madeira e peças de pedra-sabão, algo raro no período colonial, contudo, em 2007 uma obra de reforço e substituição da tubulação da cidade danificou parte desse sistema. Por outro lado, enche os olhos a beleza e a conservação de fontes de água como as de Ouro Preto, ou a Fonte Grande, encontrada no Morro de São Paulo, próximo a Salvador. Essas fontes traziam a água captada dos ribeiros mais próximos a partir de um sistema de canalização externo feito em pedra. Raros também eram os casos de fontes com canalização subterrânea, que capta a água de lençóis freáticos alimentados pelas chuvas, como é o caso da Fonte de Santo Antônio, localizada em João Pessoa.

Enchentes: um problema secular?

Desde pelo menos o século 17 existem registros de posturas elaboradas pelos administradores das vilas e cidades a fim de conter a destruição causada pelas águas das chuvas; assunto muito discutido atualmente. Para tanto, em Recife/PE, durante o período de dominação holandesa (entre 1630 e 1654), uma medida determinou que “todas as ruas devem ser cobertas com areia, para torná-las viáveis – as quais, em consequência das chuvas, ficam encharcadas”. Além disso, os holandeses também impuseram que “de agora em diante não se lance mais lixo às ruas” sob pena de multa em dinheiro.

No mesmo período em São Paulo, os vereadores da Câmara de várias localidades reafirmavam, a cada ano, as medidas e punições cabíveis àqueles que não mantivessem as ruas limpas e com a terra batida para evitar as erosões e as enchentes. Registros de hábitos seculares da falta de cuidado com o próprio ambiente em que se vivia.

Nesse sentido, talvez os monstros marinhos das barras dos rios doces que o padre Cardim descreveu em 1584 (segundo relatos indígenas), hoje, passados quase cinco séculos, possam ser entendidos enquanto metáfora da personificação do próprio homem. Daquele que destrói a natureza, não cuida do que é importante para si mesmo e acabará, decerto, com a sua própria raça, se importantes providências não forem tomadas para o cuidado e a preservação do elemento mais valioso do Planeta: a água.

Aqueduto da Carioca ou Arcos da Lapa

Datam do início do século 17 as primeiras discussões para captar a água do rio Carioca para a cidade do Rio de Janeiro. No ano de 1660 já estavam assentadas 600 braças (pouco mais de 1,5 km) de canos de água feitos de pedra. Mas foi apenas em 1712 que o engenheiro Manuel dos Reis Coutinho apresentou o projeto do grande aqueduto que ligaria o Morro do Desterro (atual Santa Teresa) ao Morro de Santo Antônio. A obra começava com uma grande caixa d’água feita em alvenaria próxima à nascente do rio, descia por um cano de pedra e prosseguia pelos arcos, também de alvenaria e tijolos, para depois continuar descendo até o chafariz do Largo da Carioca.

Entre 1738 e 1744 o aqueduto foi ampliado e ficou com as dimensões atuais do monumento: 42 arcos de alvenaria que sustentam o grande cano de pedra ao alto, 270 m de comprimento por 17,6 m de altura, feita por escravos e indígenas. A obra foi inaugurada em 1750. Entre 1790 e 1801 o cano foi coberto por uma laje de pedra e hoje ainda sustenta a passagem dos bondinhos de Santa Teresa.

Milena Maranho



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