Além do quartel

Muitos militares desenvolveram importantes obras fora do Exército

Há oficiais do Exército Brasileiro que incorporaram as fileiras do Regimento Deodoro, em Itu/SP, mas também se destacaram em outras áreas. Nelson Werneck Sodré, por exemplo, passou por Itu em 1934, quando, recém-formado, foi destacado para o 4º Regimento de Artilharia Montada (4º RAM). Nascido no Rio de Janeiro/RJ em 1911, em 1934 já escrevia como colaborador para o jornal Correio Paulistano, sediado em São Paulo. Dois anos depois, já se considerava “um profissional da imprensa”.
Em 1937 tornou-se ajudante de ordens do general José Pessoa, comandante da 9ª Região Militar, em Mato Grosso, em 1938. O Exército interveio em conflitos de terra entre proprietários e agricultores naquele Estado e foi nessa oportunidade que Sodré iniciou sua aproximação com o marxismo. Nesse período publicou o livro “História da Literatura Brasileira”, uma análise das questões literárias a partir das relações de propriedade e dos conflitos sociais. Nos anos 40, teria ingressado no Partido Comunista Brasileiro (PCB), além de seguir escrevendo na imprensa e lançando suas obras.
Participou ainda, como historiador, da fundação do Instituto de Estudos Brasileiros e lecionou no Curso de História Militar na Escola de Comando e Estado Maior até 1950, quando foi convidado a dirigir o Departamento Cultural do Clube Militar. Diante de suas posições políticas, em represália, foi transferido para o 5º Regimento de Artilharia, em Cruz Alta/RS.
Quando voltou ao Rio de Janeiro colaborou com o vespertino Última Hora e contribuiu com o jornal nacionalista O Semanário. Em 1955, iniciou como professor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, instituição desaprovada pelos militares conservadores.
Com a deposição do Presidente João Goulart (PTB) pelos militares, Werneck Sodré teve seus direitos políticos cassados por dez anos e ficou preso por dez dias em 1964. A partir de então, dedicou-se ao estudo e à produção de novos livros. Entre seus principais títulos estão “Formação Histórica do Brasil”, “Evolução social e econômica do Brasil”, “Memórias de um soldado”, “A Coluna Prestes”, “Capitalismo e a Revolução Burguesa no Brasil” e “A Farsa do Neoliberalismo”. O conceituado escritor e historiador mantinha uma residência fixa em Itu, onde visitava com frequência o Museu Republicano e os amigos da cidade. Faleceu e foi sepultado no Cemitério Municipal local em 1999.

Alinhados ao militarismo
Ao contrário de Werneck Sodré, o marechal Waldemar Levy Cardoso e o general Araken de Oliveira atuaram em postos importantes da vida pública sem, porém, romper com o Exército. O marechal Levy Cardoso, nascido no Rio de Janeiro, considerava Itu a sua segunda cidade natal, onde inclusive possuía um sítio, na rodovia Marechal Rondon, estrada que liga o município a Porto Feliz/SP. Entre os momentos da história dos quais participou estão a Revolução de 1924, a Revolução de 1930, a Intentona Comunista de 1935 e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), durante a qual comandou o 1º Grupo de Artilharia Expedicionário. Em 1964 alcançou a patente de general e, dois anos depois, passou para a reserva como marechal. Ele foi o último marechal do Brasil.
Quando se aposentou, em 1966, decidiu fixar residência em Itu, mas não conseguiu por ter assumido a presidência do Conselho Nacional do Petróleo (CNP). Dois anos depois, passou a presidente da Petrobras. Após o falecimento do então Presidente da República general Artur da Costa e Silva (Arena), solicitou sua demissão à Junta Governativa. Já morando em seu sítio, dois anos depois, foi Conselheiro da Administração da Petrobras, tendo permanecido no cargo até 1985. O marechal Levy faleceu em 2009, aos 108 anos, no Rio de Janeiro. Atualmente, o Pátio de Formatura da unidade militar de Itu leva o seu nome.
Araken de Oliveira, nascido em 1909, no Rio de Janeiro, também integrou a Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, foi promovido a major, a tenente-coronel e, ao alcançar a patente de coronel, em 1956, assumiu o comando da unidade militar de Itu até dezembro de 1957. Em 1964 foi promovido a general de brigada e entrou para a reserva em 1967, mas permaneceu no serviço público como chefe de gabinete da presidência do CNP. Em 1969 assumiu a presidência do órgão, onde permaneceu até se tornar presidente da Petrobras, de outubro de 1974 a março de 1979.

Trabalho humanitário
Dois militares que serviram no Quartel de Itu são lembrados como referências em respeito e auxílio ao próximo. O tenente José Gregório do Nascimento e o coronel Fiore Marcello Amantéa.
Gregório nasceu em 1898, em Remanso/BA, e iniciou a carreira como soldado em 1916. Em 1928 deu-se sua transferência para Itu, onde, além das funções militares, iniciou sua missão de auxílio material e espiritual a pessoas necessitadas no porão de sua casa, que ficava localizada na Rua Domingos Fernandes nº653. Em 20 de janeiro de 1937, fundou o Centro Espírita de Itu, com sede na Rua Santa Rita nº 144. Em 1941, comprou um terreno na antiga Rua Piray nº 70, hoje Rua Maestro José Vitório e, com sacrifício, edificou o que seria a nova sede do Centro Espírita.
Em 1951 realizou o seu maior sonho: o de construir o Albergue Noturno de Itu, com a finalidade de acolher pessoas desempregadas, a princípio vindas do Norte e Nordeste, que não tinham onde morar, além das que residiam em sítios em Itu, levavam familiares ao hospital e precisavam de um local para pernoitar. Em 2017, o Albergue realizou 3.012 atendimentos, oferecendo às pessoas alimentação, higiene e pernoite, além de atendimento médico por meio de parceria com a Secretaria Municipal de Saúde. José Gregório foi vereador em Itu por seis legislaturas, de 1948 a 1969, ininterruptamente até o seu falecimento em 1969. Maria Kiriacula Nicolau, sua cunhada, afirma que o considerava como um segundo pai. Lembra que ele “receitava homeopatia” a quem precisava de ajuda médica. Outra ação coordenada por ele era o Natal dos Pobres, com doação de alimentos, brinquedos e roupas (120 vestidos para meninas e 120 conjuntos de shorts e camisas para os meninos).
Já o coronel Fiore Marcello Amantéa, que nasceu em Taquaritinga/SP, em 1908, ingressou na carreira militar em 1926, no Rio de Janeiro. Serviu em Tupã/SP e, em 1948, foi transferido para Itu, já casado com Valéria Tabacchi Amantéa e com com três filhos: Newton, Ciro e Nelson (já falecido), tendo adotado posteriormente o filho José. Espírita, no mesmo ano fundou na cidade a Sociedade Espírita Cabaninha de Antonio de Aquino. Além da orientação espiritual, fazia caridade, promovia festas de Natal com distribuições de brinquedos e alimentos aos mais necessitados e sua esposa preparava, durante todo o ano, enxovais para mães grávidas carentes. Essa prática se ampliou com a fundação, em sua casa, de um abrigo para crianças desamparadas até que atingissem 18 anos e pudessem trabalhar.
Exímio nadador, competia pelo Exército, conquistando muitos títulos. Ele tinha o hábito de, no aniversário da cidade, promover uma campanha anti-drogas. Nadava em torno de 2h30 na Associação Atlética Ituana para provar os benefícios do esporte, e o quanto o mesmo contribui para afastar as pessoas das drogas.
O filho Ciro destaca que sem o apoio de Valéria, o trabalho do coronel não seria completo. “Ela foi fundamental para que o trabalho dele se sobressaísse. Ela foi tudo na vida dele”. Com o falecimento de Amantéa, em 1995, o trabalho foi gradativamente deixando de existir. Em sua homenagem, a Prefeitura emprestou seu nome ao Conjunto Aquático “Fiore Marcello Amantéa” e a uma rua no Bairro Alto.

Medicina e política
Nascido em 1944, em São José do Barreiro/SP, foi em Recife/PE que Carlos Cézar Moutela Costa cursou Medicina. Após tornar-se médico, prestou o concurso para o Exército e se mudou para Itu em 1977, onde constituiu família e reside até hoje.
Ingressou na unidade como 1º tenente médico e chefiou a enfermaria que atendia militares e seus dependentes. Era responsável ainda por formar soldados auxiliares de enfermagem. Anualmente, no segundo semestre, iniciava as avaliações para os jovens que ingressariam no serviço militar. Eram cem jovens por dia.
No Quartel de Itu permaneceu de 1977 a 1989, tendo entrado para a reserva em virtude de ter sido eleito vereador (1989/1992 e 1997/2000). Na política, ocupou ainda os cargos de vice-prefeito (1993/1996) e Secretário de Desenvolvimento Industrial (1995), entre outros.

Angélica Estrada

01 – Nelson Werneck Sodré se destacou como militar, escritor e historiador – Fundação Dinarco Reis

02 – Waldemar Levy Cardoso foi o último marechal brasileiro – Reprodução Tucano

03 – Araken de Oliveira ocupou a presidência da Petrobras – Reprodução Tucano

04 – Tenente José Gregório (de óculos escuros, ao fundo) em evento do Legislativo ituano – Coleção Família Nicolau

05 – Edite Zenaro de Toledo e Maria Kiriacula Nicolau (à dir.), integrantes da diretoria do Albergue Noturno, falam sobre a obra do tenente José Gregório – Angélica Estrada

06 – Fiore Marcello Amantéa e a esposa Valéria se dedicaram intensamente à população ituana – Coleção Família Amantéa

07 – Da esq. p/ a dir.: Newton, José e Ciro, filhos do casal Amantéa – Angélica Estrada

08 – Médico e militar, Moutela (à dir.) ao lado do então comandante do Quartel de Itu, coronel Rubens Edison Pinto – Coleção Carlos Cézar Moutela Costa



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