Chegada da Corte e melhorias

Rio de Janeiro foi capital imperial sem abastecimento de água e sem coleta de esgoto

Quando, em 1808, o Brasil ganhou o status de sede do império lusitano, no Rio de Janeiro/RJ, então capital, a necessidade de água era saciada nos rios, fontes naturais, poços, cisternas e bicas de chafarizes. Os enricados recebiam água em tonéis transportados nos ombros de seus escravos. Quem não tinha posses, carregava seus próprios vasilhames.

A água servida era despejada nos quintais ou nas ruas, com exceção das fezes e urina, que eram recolhidas durante a noite, guardadas em tonéis de esgoto e transportadas de manhã, nas costas de escravos, para serem despejadas no mar. No trajeto, um pouco do conteúdo dos tonéis, repleto de amônia e uréia, escorria na pele do transportador e, com o passar do tempo, deixava marcas de listras brancas sobre suas costas. Por isso, esses escravos eram conhecidos como “tigres”.

No Rio de Janeiro os “tigres” não perderam seu ganha-pão senão por volta de 1860. No entanto, a Abertura dos Portos e a vinda da Corte atraíram para a cidade legiões de negociantes, aventureiros, artistas e naturalistas. Muitos, na esperança de encontrar um pacato vilarejo colonial adormecido nas selvas tropicais, se surpreendiam com a cidade. É o caso do oficial da Marinha americana Henry Marie Brackenridge, que entrou na Baía da Guanabara em 1818 e registrou em seu diário: “Quando entramos na baía, uma cena magnífica se abriu diante de nós. Colinas e vales, escondidos entre majestosas montanhas, estão cobertos de convento, igrejas e lindos jardins, enquanto as faixas de areia junto ao mar são ocupadas por elegantes casas de campo, a maioria construída por fidalgos portugueses ou por comerciantes ingleses que ficaram ricos depois da abertura dos portos”.

No entanto, escondidas pelas majestosas montanhas estavam também as altas taxas de criminalidade, ruas mal iluminadas e sem calçamento, logradouros fedidos, falta de passeios e praças públicas, falta de coleta de lixo e esgoto, desorganização no abastecimento de água e de comida.

Disciplinando o caos

No intuito de disciplinar o caos, o príncipe regente D. João nomeou o advogado Paulo Fernandes Viana para ocupar o cargo de intendente geral da polícia, com funções equivalentes ao que seria a soma de um prefeito com um secretário de segurança pública. Os planos de reforma urbana do intendente Viana contemplavam um saneamento radical da cidade, para o qual seria necessária a construção de esgotos e redes de água tratada, o aterro de pântanos, a correção da paisagem por meio da demolição de alguns morros e o alargamento de ruas.

Ao entregar o cargo em 1821, Viana registrou no relatório final: “Aterrei imensos pântanos da cidade, com que se tornou mais sadia, e, por não haver na cidade abundância d’água para uso público, consegui conduzir água até para beber em uma légua de distância…”.

Viana também providenciou intervenções de melhoria e ampliação no Aqueduto da Carioca (Arcos da Lapa), inaugurado em 1750 e considerado a obra arquitetônica de maior porte erguida no período colonial. Inspirado no Aqueduto das Águas Livres, construído no governo de D. João V em Lisboa, o Aqueduto da Carioca levava água do rio Carioca às 16 bicas de bronze do chafariz de mármore situado nas proximidades do Convento de Santo Antônio. As obras de ampliação estenderam os encanamentos pela Rua do Cano (atual Sete de Setembro) e chegaram até o Largo do Paço (atual Praça Quinze), onde os navios vinham abastecer-se.

Comércio de água

Em 1833, uma companhia formada com capitais brasileiros e ingleses apresentou proposta de levar água encanada às residências cariocas. A proposta não vingou e a distribuição domiciliar permaneceu como privilégio de poucas casas particulares, templos religiosos e repartições públicas. A maioria da população, desprovida de água encanada, se abastecia nas fontes, cisternas poços e chafarizes ou no comércio de água, durante décadas, movimentado por senhores de “escravos de ganho”.

Em 1840, Sebastião da Costa Aguiar aperfeiçoou o primitivo comércio, montando uma frota de carroças de duas rodas puxadas por um burrico. As carroças equipadas com tonéis levavam aos consumidores a “boa água do vintém”, colhida na Chácara do Vintém, situada na Rua Aguiar, no Largo da Segunda Feira.

Aos poucos, o Rio de Janeiro foi ganhando os reservatórios da Caixa Velha da Tijuca (1850), da Quinta da Boa Vista (1867), da Ladeira do Ascurra (1868) e do Morro do Pinto (1874). Em 1876, o Governo Imperial deu início à execução do projeto do engenheiro Antonio Gabirelli, que implantava a rede de abastecimento de água encanada em domicilio, abolindo o primitivo barril carregado à cabeça e “as incômodas e imundas bicas das esquinas”.

Hidrômetros republicanos

Atendendo às demandas da cidade em crescimento alimentado pela economia cafeeira e sensível às reclamações do povo, o imperador D. Pedro II determinou a construção do “Sistema Acari ou de Linhas Pretas”, que passou a utilizar-se das águas das serras de Duque de Caxias e Nova Iguaçu.

A cobrança pelo fornecimento de água foi regulamentada pelo Decreto Imperial 8775, de 25 de novembro de 1882, com a instalação da “pena d’água”, instrumento regulado pelas dimensões de um orifício praticado no diafragma do registro de graduação, de acordo com as pressões normais de trabalho dos respectivos encanamentos.

Em 1898, em plena República e no governo do ituano Prudente de Moraes, foi iniciada a instalação de hidrômetros e regulamentada a arrecadação de tarifas de consumo de água na capital federal.

Jonas Soares de Souza



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