Conjunto arquitetônico do Regimento Deodoro

O Padre Visitador traçou de própria mão a primeira planta do edifício

Passados quase 130 anos da inauguração da Igreja de São Luís Gonzaga, ato solene que em 1891 finalizou a construção, em Itu/SP, dos edifícios do Colégio São Luís, o conjunto arquitetônico da Praça Duque de Caxias, hoje ocupado pelo Regimento Deodoro ainda impressiona por sua grandiosidade e, mais que um bem cultural, tornou-se parte significativa do universo urbano ituano.
O lançamento da pedra fundamental do conjunto, solenidade que deu início à primeira fase das obras, ocorrera em fevereiro de 1869. No ano anterior, em fins de abril ou princípio de maio, quando chegou a Itu o padre Alessandro José Ponza di S. Martino, Visitador e Superior da Missão Jesuíta, de pronto ele foi envolvido na discussão sobre qual seria o melhor lugar para a construção dos novos edifícios do colégio, que até então desenvolvia suas atividades nas dependências do convento franciscano, que ficava localizado na atual Praça D. Pedro I. Uma ala defendia a aceitação pelos jesuítas da doação do Colégio Ituano (antigo Seminário do padre Campos) e de seus terrenos, oferecida pelo padre José Galvão de Barros França, e outra a compra de uma chácara pertencente a Antônio Pais de Barros (1791-1876), barão de Piracicaba, situada um pouco abaixo da Rua do Patrocínio.
Os defensores da doação do padre José Galvão armaram uma bela recepção para impressionar o Visitador. Montados em garbosos cavalos e perfilados em ordem foram esperá-lo na entrada da cidade. Diz um cronista do século 19 que o padre Ponza ficou comovido com a recepção. Ele conheceu as instalações do colégio no Convento de São Francisco, a chácara do barão de Piracicaba e o Seminário do Padre Campos. Acabou escolhendo este último e “traçou de própria mão uma planta de edifício, e isto em pouco tempo, que foi logo conhecido habilíssimo nesta matéria”.

Construtores
Quando no dia 12 de junho de 1868 partiu com destino a Santa Catarina, Ponza deixou ordens para que se executasse a construção do edifício conforme sua planta. Nela, em princípio, o edifício deveria ter a fachada principal voltada para a Rua Santa Cruz (trecho hoje denominado Rua Benjamin Constant). Diz o cronista que o projeto se revelou muito caro e o orçamento para executá-lo, composto de recursos do próprio colégio, não era suficiente. Optou-se, então, por outra seção do terreno, uma área na sequência das instalações do Seminário do Padre Campos e da Igreja da Boa Morte. A planta teve que passar por alterações para ser executada nessa área. O construtor, irmão João Pacovi, e o irmão João Maria Alberani, oficial de construção, serralheiro, arquiteto, escultor, paisagista, pintor e desenhista, refizeram a planta e ficaram responsáveis pelas obras, coadjuvados pelo mestre carpinteiro Alexandre Fratali e pelo padre Wendelino Back.
Em três anos ergueu-se o edifício principal, contíguo à Igreja da Boa Morte. Essa primeira etapa ficou concluída em 1872. Pronto para receber alunos, o edifício abriu suas portas em 19 de fevereiro desse mesmo ano para o reinício das aulas. Numa segunda etapa de obras, a partir de 1879 surgiram o Salão de Honra e Teatro e os edifícios destinados ao refeitório, salas de aulas, laboratórios e dormitórios.

Torre do Relógio
No dia 8 de junho de 1886 o padre Augusto Estanislau Aureli, doutor em Filosofia e Teologia pelo Colégio Romano e superior da Missão Jesuíta no Brasil, benzeu a pedra fundamental da Igreja São Luís. O templo seria inaugurado em 1891. Dotado de uma longa nave, duas capelas laterais e capela-mor com abside, tem na forma externa semelhança com o edifício principal, concluído depois da inauguração do templo. “A fachada, bastante ritmada mistura uma estrutura compositiva de fonte jesuítica com elementos ornamentais característicos da decoração eclética francesa, alguns muito semelhantes aos ornamentos da fachada do Bom Jesus”, escreveu Maurício Maiolo Lopes em sua dissertação de mestrado sobre a arquitetura religiosa em Itu.
A construção da Torre do Relógio, entre a Igreja de São Luís Gonzaga e o edifício principal, integrou a terceira fase das obras do complexo arquitetônico do colégio. No interior, um corredor fazia a ligação entre a Igreja e o prédio principal. A torre abrigou o relógio projetado e construído pelo irmão João Maria Alberani e o grupo escultórico com São Luís ladeado de pequenos anjos, também de autoria do mestre Alberani. Acima do relógio, o campanário recebeu os dois sinos de bronze doados pelo papa Leão XIII. Entre o relógio e São Luís, em relevo, as iniciais do lema dos jesuítas: AMDG, Ad majorem Dei gloriam (Para a maior glória de Deus).

Torre do observatório
Dessa terceira etapa de obras também fez parte a construção da Torre do Observatório Meteorológico, edificada em 1886. O espaço abrigava instrumentos de observação meteorológica e astronômica. Já em 1882, o padre Marcello Rocchi informava ao Provincial, na Itália, que o colégio adquirira na França um completo Gabinete de Física e mais instrumentos. Com vinte metros de altura, a torre recebeu um dos primeiros observatórios meteorológicos da Província de São Paulo. As informações ali coletadas eram enviadas por telegrama à capital. A qualidade e a exatidão dos trabalhos ganharam elogios na imprensa da época e da Estação Meteorológica da Comissão Geográfica e Geológica, que passou a recomendar às demais estações meteorológicas o exemplo do trabalho do Observatório do Colégio São Luís.
Em uma nova etapa de obras houve o alteamento da seção da porta de entrada do edifício principal, que ganhou um terceiro pavimento e a fachada em partido semelhante ao do templo. O conjunto de edifícios ficava assim apto a receber muito mais alunos. Em 1894 já eram mais de 600 matriculados. Ocorreu, porém, uma redução expressiva de alunos nos anos seguintes. Entre as causas do declínio foram elencadas as epidemias de febres de diferentes origens que se manifestaram em Itu, a abertura de novas escolas na capital e no interior, favorecidas pelo regime republicano, e as transformações socioeconômicas da época. Ao mesmo tempo, os jesuítas enfrentavam dificuldades para se manter na cidade devido à escassez de padres e mestres para atuar na instituição.

O colégio deixa Itu
Na comemoração do seu cinquentenário no ano letivo de 1917, o Colégio São Luís fechou as portas e transferiu-se para a capital. Em março de 1918 começou a funcionar como externato e internato na Avenida Paulista, no prédio de número 17, nas instalações do antigo Colégio Anglo-Brasileiro.
Adquirido pelo governo federal por decisão do Ministro da Guerra, José Caetano de Faria, sendo Presidente da República, naquela época, Wenceslau Brás, o majestoso conjunto arquitetônico de cerca de 40 mil m² foi quase que integralmente preservado. Edificado em alvenaria de tijolos, adobe e taipa de mão, com recursos levantados pela Companhia de Jesus, suas características arquitetônicas são austeras e racionais, com influências das construções religiosas dos jesuítas na Itália.
As considerações do historiador britânico John Bernard Bury, uma das principais referências no estudo da arte colonial e jesuítica brasileiras, cabem bem para o conjunto ituano: casarões, mosteiros e colégios jesuíticos são tipologias dignas de nota que foram erguidas com os traços chãos de simplicidade e regularidade de linhas e austeridade decorativa nas fachadas, com janelas de vergas reta e ocasionalmente algum portal discretamente ornamentado, buscando antes a funcionalidade do que o luxo.

Quartel
O antigo Colégio São Luís cedeu lugar a uma unidade militar do Exército Brasileiro – o Regimento Deodoro, que manteve o conjunto arquitetônico quase na íntegra. No dia 20 de janeiro de 1918, em solenidade prestigiada pela população ituana, o Pavilhão Nacional foi hasteado pela primeira vez na fachada do conjunto de edifícios agora transformado em quartel. A data é comemorada como dia do aniversário da unidade.
Lentamente, os edifícios sofreram intervenções. O lema dos jesuítas cedeu espaço às iniciais do nome da unidade militar.
A Igreja de São Luís Gonzaga foi desativada e somente seria reaberta em 1979, depois de passar por reformas. Suas instalações abrigaram a Bateria de Comando do Regimento Deodoro (BCR) e, posteriormente, a bateria Antiaérea, em meados da década de 70. Atualmente é utilizada pela comunidade católica ituana e administrada pela Arquidiocese Militar do Brasil. Os edifícios do Seminário do Padre Campos e da Igreja da Boa Morte foram demolidos em 1946. O Salão de Honra e Teatro dos tempos memoráveis do antigo colégio passou a ser usado para outros fins, primeiro como ginásio de desportos. Em 2007, transformado em auditório do Regimento Deodoro, de certa forma recuperou suas funções originais. Outras adaptações internas foram necessárias e executadas visando atender ao novo programa de uso das históricas instalações, e vários anexos foram levantados ao longo dos anos para abrigar pessoal e equipamentos militares.
Jonas Soares de Souza

01 – Desenho de Antônio Januário de Quadros do prédio do Colégio São Luís, 1871 – Acervo do Regimento Deodoro

02 – Colégio São Luís em 1878 – Acervo do Regimento Deodoro

03 – Salão de Honra e Teatro, 1903 – Acervo Colégio São Luís

04 – Fachada externa do Colégio São Luís em 1891 – Acervo do Regimento Deodoro

05 – Fachada externa em 1903 – Acervo Colégio São Luís

06 – Observatório Meteorológico (torre ao centro), 1903 – Acervo Colégio São Luís

07 – Capela dos alunos, 1903 (Igreja São Luís), que, posteriormente, abrigou a Bateria de Comando do Regimento Deodoro (BCR) e a 11ª Bateria Antiaéria – Acervo Colégio São Luís

08 – Claustro interior – Acervo Colégio São Luís

09 – Inauguração do 4º RAM – Acervo do Regimento Deodoro

Box 01
Túnel misterioso
São antigas as lendas de túneis ligando instituições monacais masculinas e femininas. Vez em quando são descobertos túneis antigos, mas construídos para funções diferentes daquelas produzidas pelo imaginário. Em Santos/SP, por exemplo, uma lenda criou a ligação subterrânea do Mosteiro de São Bento ao Cais, à Igreja do Valongo e ao Convento do Carmo. Descobriu-se recentemente que esse túnel, na realidade, construído para canalizar um trecho do Rio Nossa Senhora do Desterro.
Itu não poderia escapar desse tipo de sina de cidade com antigas escolas e conventos. Aqui, a lenda construiu uma ligação subterrânea entre os Colégios São Luís e do Patrocínio. Pura lenda! Impossível, segundo os especialistas consultados. O porte da canalização de águas pluviais ou o alçapão do ponto no palco do teatro pode ter alimentado a imaginação de algum recruta ou visitante criativo. Segundo o engenheiro Raul de Souza Almeida, coordenador geral do Projeto Oficina Escola, o túnel que começava sob o alçapão do palco devia se prolongar no máximo até a antiga Rua Santa Cruz, no trecho hoje denominado Rua Benjamin Constant, e serviria como “rota de fuga” em caso de alguma emergência no colégio. Ou, talvez existam depósitos subterrâneos ou aquedutos que estão à espera da intervenção de arqueólogos, ou da revelação do acaso. (JSS)

Foto Box 01 – Sob o alçapão no palco do teatro, um buraco de entrada do túnel imaginário o qual supostamente daria acesso à Rua Santa Cruz – Tucano, 2018

Box 02
Vilas militares
No entorno do majestoso edifício do quartel surgiram vilas militares, com residências para o comandante, oficiais e membros do quadro permanente do Regimento Deodoro. No total são 51 próprios residenciais, sendo 18 para oficiais e 33 para subtenentes e sargentos; desses, 12 são apartamentos construídos em 2007. As vilas militares estão localizadas nas Ruas Marechal Mallet (oficiais), Benjamin Constant (oficiais), Sargento Wilson Conti e Tenente Olavo de Assis (subtenentes e sargentos). A Vila Militar Major Flávio Miranda, também destinada a oficiais, no alinhamento da fachada principal voltada à Praça Duque de Caxias, próxima à Avenida Dr Octaviano Pereira Mendes, é a única que possui nome. A denominação surgiu em homenagem ao então major Flávio Miranda, morto acidentalmente em 1968 durante exercícios de tiro na Academia Militar de Agulhas Negras – Aman -, em Resende/SP, na qual havia se formado. Na ocasião, o major Miranda (promovido post-mortem ao posto de tenente-coronel) acompanhava um grupo de soldados da unidade militar de Itu em visita à àquela instituição de ensino militar. (JSS)

Foto Box 02 – Capitão Flávio Miranda (atualmente tenente-coronel) dá nome à Vila militar dos oficiais – Coleção Wilma Micai Miranda



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