D. Pedro II e o telefone

O monarca foi o primeiro governante brasileiro a testar a nova invenção

“To be or not to be”, teria declamado D. Pedro II usando sua habitual erudição, quando instado por Alexander Graham Bell a dizer algo diante da sua mais recente invenção. O invento de Bell estava em demonstração na Exposição Internacional Comemorativa do Centenário da Independência dos Estados Unidos, realizada em 1876, na Filadélfia, Pensilvânia, Estados Unidos (International Exhibition of Arts, Manufactures and Products of the Soil and Mine).

Abertura da Exposição Internacional de Filadélfia de 1876 – Lybrary of Congress/Digital Collections

Outra versão conta que Graham Bell convidou o imperador para ver o seu aparelho elétrico, uma máquina falante como se dizia. D. Pedro ficou no local e Bell, a uma distância de mais ou menos 150 metros, declamou a célebre frase de William Shakespeare: “To be or not to be” (Ser ou não ser). O imperador não se conteve e exclamou: “My God, it speaks” (Meu Deus, isto fala).

Bell teria apelado a Shakespeare por saber da erudição do imperador e por se lembrar do próprio avô, também chamado Alexander Bell, um sapateiro que queria ser ator e vivia a recitar o Bardo inglês. Impressionado com a própria voz, procurou melhorar a dicção, abandonou a sapataria, abraçou o teatro e tornou-se professor de elocução. O avô do inventor especializou-se em foniatria (estudo da voz e dos distúrbios associados), mas não esqueceu Shakespeare, seu tema preferido em conferências dramáticas.

Já o pai do inventor, Alexander Melville Bell, passou a se interessar não apenas pelo som, mas pelas causas desse som. Estudou anatomia, quis saber tudo sobre a laringe e as cordas vocais. Criou um método para ensinar elocução, línguas e também ensinar surdos-mudos. Com base no método da “fala invisível” criado pelo pai de Graham Bell surgiram os símbolos que atualmente aparecem nos dicionários para indicar a pronúncia figurada.

Presidente Ulysses S. Grant e D. Pedro II acionam o “Corlist Engine Steam” – Lybrary of Congress/Digital Collections

Quando testou o telefone, o imperador já conhecia os estudos do professor de acústica Graham Bell sobre surdos-mudos. Chegando aos EUA com antecedência, visitou Bell em Boston com a intenção de pedir-lhe conselhos sobre o funcionamento da primeira escola de surdos-mudos que abrira no Brasil. Depois de conhecer o telefone, entusiasmado com a nova invenção, D. Pedro II teria acrescentado: “Meus parabéns, senhor Bell, quando a sua invenção for posta no mercado o Brasil será o seu primeiro freguês”.

“Cientista interessado”

Na abertura da Exposição Internacional os sinos soaram sobre toda a Filadélfia. O imperador brasileiro foi um dos primeiros a adentrar no recinto. O 18º presidente dos Estados Unidos, o republicano Ulysses Simpson Grant e sua esposa Julia Dent Grant, e Dom Pedro II, Imperador do Brasil, e sua esposa a imperatriz Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, cortaram a fita inaugural. A cerimônia terminou no pavilhão de máquinas e equipamentos com Grant e D. Pedro II dando a partida no motor a vapor Corliss Steam Engine, que fornecia energia para a maioria dos outros equipamentos da Exposição.

Modelo do telefone instalado no Palácio da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro/RJ – Museu Imperial/MinC

Sua visita era no mínimo paradoxal, diz a historiadora Lilia Moritz Schwarcz: a mostra comemorava cem anos de independência, cem anos de República (1776-1876). Mas o imperador não se fez de rogado, inaugurou a exposição junto com o presidente americano e portou-se como um “cientista interessado”. Encontrou-se com o inventor Thomas Edison, com o físico Joseph Henry, com o matemático e físico William Thompson e com o engenheiro Elisha Grey. Mas, o encontro com Graham Bell é um dos episódios mais reproduzidos na biografia do soberano.

Em todo o percurso da feira o imperador mostrou-se coerente com sua representação moderna e ilustrada, demonstrando curiosidade e sede de conhecimento. Afinal, as exposições internacionais firmavam-se como espaços de celebração do capitalismo e de seus avanços desde sua primeira exibição na The Great Exhibition of the Works of Industry of all Nations, realizada em Londres em 1851.

A Exposição Internacional de Filadélfia foi montada em Fairmount Park, ao longo do rio Schuylkill, com instalações projetadas pelo arquiteto Hermann J. Schwarzmann. O edifício principal, uma elegante estrutura em ferro e vidro, tinha 580 metros de cumprimento e cobria uma área de 81 mil metros quadrados. Foram erguidos mais de 200 edifícios novos numa área de mais de quatro quilômetros de comprimento.

Réplica do aparelho telefônico trazido ao Brasil por D. Pedro II. O original encontra-se no Museu Imperial de Petrópolis, no Rio de Janeiro – Museu do Telefone de Bragança Paulista

No interior dos edifícios estavam expostas enormes máquinas a vapor em funcionamento, animais exóticos e objetos vindos de todo o mundo. Juntamente com a celebração do poder científico e industrial, um mundo já globalizado deixava-se entrever. Entre tantos inventos, assim como o telefone, alguns produtos eram mostrados ao público pela primeira vez, como a máquina de escrever (Remington Machine), o dínamo que transforma energia mecânica em elétrica (Wallace-Farmer Electric Dynam) e o catchup (Ketchup Heinz). A exposição contabilizou a participação de 44 países e cerca de 9 milhões de visitantes, quando na época a população dos Estados Unidos era de 46 milhões.

Primeiros no Brasil

Graças ao imperador, ainda em 1877 o primeiro aparelho foi instalado no Brasil, no Rio de Janeiro, na casa comercial “O Grande Mágico”, de Antônio Ribeiro Chaves, localizada no Beco do Desvio nº 86 (atualmente Rua do Ouvidor). A loja comercializava aparelhos elétricos e novidades, e o telefone ligava o estabelecimento ao quartel do Corpo de Bombeiros. Pouco tempo depois a loja instalou novas linhas, desta feita ligando o estabelecimento à Chefia de Polícia, à Corte e ao “Jornal do Commércio”. O telefone também foi instalado na Companhia Telegráfica Western, com linhas para seu uso interno.

D. Pedro II mandou instalar aparelhos ligando repartições públicas ao Palácio da Quinta da Boa Vista (hoje Museu Nacional – UFRJ), em São Cristovão, à Quinta do Caju (Casa de Banhos de D. João VI, que abriga atualmente o Museu da Comlurb), e ao Palácio Imperial, em Petrópolis/RJ. Nessa cidade existe, um pouco antes de se chegar ao centro, uma ponte chamada de “Ponte Fones”, assim denominada em função de D. Pedro II ter mandado instalar ali uma caixa com um aparelho telefônico. Conta-se que os resultados do interesse de D. Pedro II pelo telefone ultrapassavam as fronteiras do império. O aparelho teria sido apresentado à Europa na Seção de Eletricidade da Exposição Universal de 1878, realizada em Paris, por interferência do imperador brasileiro.

Palácio Imperial de Petrópolis e adjacências em 1860/1870 – Pedro Hees/Acervo Biblioteca Nacional

Por decisão do Conselho do Estado, em 1881 resolveu-se que a exploração do telefone seria exclusiva do governo imperial, sendo este o responsável pela instalação do serviço em qualquer lugar do país. Passada uma década, em 1891, no início do governo republicano, os serviços de telefone foram distribuídos da seguinte maneira: o município cuidaria dos serviços municipais, o estado dos serviços intermunicipais e o governo federal dos interestaduais e internacionais.

Jonas Soares de Souza



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