Das caçadas às competições

Das antigas caçadas ao veado, o Mangalarga evoluiu para os esportes equestres

Tudo começou com as tradicionais caçadas a veados-campeiros em meados do século 18. O cavalo Mangalarga era amplamente usado também para essas atividades além da lida no campo e viagens, o que o tornou fisicamente mais atlético e resistente, pois tinha que perseguir presas mais velozes que ele até que estas se cansassem. As atuais características da raça são decorrentes de um conjunto de transformações e adaptações sofridas ao longo desse período. Em alguns esportes, como o polo, a raça foi usada somente no passado. Em outros, a tradição persiste, principalmente na marcha e no enduro, tornando inegável sua contribuição para a história das competições equestres.

Caçador, com seu cavalo e seus cães, exibe o resultado de uma das caçada ao veado-campeiro – Arquivo: revista Helvetia Polo Internacional/Coleção: Laerte Meirelles

No enduro, os Mangalargas são desafiados em sua resistência, já que se trata de uma competição de média e longa distância, podendo atingir até 160 quilômetros divididos em etapas. Nos intervalos entre uma etapa e outra, um controle veterinário avalia a condição física dos cavalos, medindo seus batimentos cardíacos naquele instante. As provas ocorrem ao ar livre, em trilhas e estradas rurais geralmente com deslumbrantes paisagens a serem contempladas pelo cavaleiro.

A característica principal a ser avaliada na prova é a resistência, mas velocidade, comodidade e docilidade são outras aptidões necessárias ao sucesso. O Mangalarga é muito utilizado, principalmente nos enduros de resistência, devido a sua versatilidade e regularidade. Entretanto, não atinge altas velocidades, mantendo-se a 15 km/h, em média.

Mangalargas Paulistas, em meio a paisagens, disputam posição num campeonato de enduro – Viviane Trevisan/arquivo:ABCCRM

Um exemplo para ilustrar a importância mangalarguista no esporte foi a realização, em 2008, do 1° Enduro Mangalarga, cuja primeira etapa foi em Itu/SP, na Fazenda Capoava, espaço que já sediou outras provas do gênero.

Polo

O polo, que já foi esporte olímpico, tem como seu objetivo marcar o maior número de gols, fazendo uma bola de 8 cm de diâmetro passar por uma trave de 7,3 m de largura. São quatro jogadores por equipe que, montados a cavalo, buscam acertar a bola com um taco de cana de bambu, que levam na mão direita. Devido ao desgaste da partida, os cavalos são trocados ao final de cada um dos quatro tempos da partida os quais tem duração de sete minutos.

No polo já não se utilizam mais os cavalos Mangalarga. Com a evolução do esporte nos anos 70, em razão de melhor equilíbrio entre velocidade, arranque e resistência, eles perderam espaço para outras raças, como as tradicionais argentinas e inglesas, além do Quarto de Milha. Mas, por décadas, equipes paulistas fizeram uso do Mangalarga, principalmente em Orlândia/SP, em que o fundador do município – Orlando Junqueira – acompanhando a tradição da família, era amante da raça. Lembrando que a cidade foi uma das pioneiras no Brasil na prática do esporte, pois já possuía em 1924 um clube de polo.

Cavalos Mangalargas Marchadores também são utilizados no enduro – Humberto Catão/arquivo: ABCCMM

Outra cidade no interior do Estado com grande importância nesse cenário é Itu, que com a influência da Fazenda Cana Verde, localizada no Bairro Pedregulho, popularizou o esporte na região. Construída em 1881, a fazenda serviu a um período de pujança da cultura cafeeira. Um antigo campo de futebol existente na propriedade, que antigamente era o “tapete” verde para as tradicionais “peladas” rurais de final de semana entre os lavradores que trabalhavam na fazenda, foi remodelado na década de 1950 para a prática do polo e tornou-se palco de inúmeras partidas e também dos treinamentos decisivos para o sucesso dos irmãos Fábio e Laerte Meirelles nessa modalidade esportiva na qual o cavalo desempenha papel fundamental. Em 1962, eles foram campeões logo na primeira competição oficial que disputaram. A equipe Itu Polo Club foi a Ribeirão Preto/SP e venceu o tradicional Torneio Estadual de Polo.

Equipe Itu Polo Clube, vencedora do Torneio Estadual de Polo de 1962. Da esq. p/ dir.: Laerte, Fabinho, Edgard e Joa – Arquivo: Jornal Gazeta Esportiva/Coleção: Laerte Meirelles

E essa história continua. Laerte, que ainda hoje joga aos fins de semanas, passou a tradição aos descendentes. Seu filho, Laerte Meirelles Filho é considerado um dos grandes jogadores de polo da região com um handicap (ranking de polo) ao mesmo nível da história e contribuição das famílias Meirelles e Junqueira para o esporte. Sem contar os sobrinhos e amigos que passaram a se interessar pelo polo, após serem contagiados por tamanha paixão.

Hipismo

Esporte muito antigo, o hipismo compreende vários tipos de provas. Três delas são modalidades olímpicas: Adestramento, Salto e Concurso Completo de Equitação (CCE). A primeira exige que o cavaleiro realize uma série de movimentos num determinado tempo. Já o salto é o tradicional circuito com obstáculos que devem ser ultrapassados no menor tempo possível. O cavaleiro Rodrigo Pessoa conquistou uma medalha de ouro para o Brasil nessa modalidade nas Olimpíadas de Atenas (Grécia) em 2004. Já o CCE é uma espécie de triatlo feito numa área que simula um ambiente natural com obstáculos a serem transpostos. São mais populares no hipismo as raças Quarto de Milha, Appaloosa, Árabe, Puro Sangue Inglês e Brasileiro de Hipismo. No entanto, o Mangalarga também é utilizado e não faz feio, garantem os amantes dessa raça.

Uma importante personalidade em Itu relacionada a hipismo é Aquilino Limongi, que destaca a importância dessa raça de cavalo na criação e educação profissional e esportiva de seu filho Bruno Limongi.

Laerte Meirelles exibe orgulhoso o acervo fotográfico que retrata a jornada de sua família no polo – Tucano

Aquilino relata o sucesso da raça nas competições hípicas, sendo campeão em três modalidades: Clássico, Rural e Concurso Completo de Equitação. Segundo ele, o Mangalarga é preferido nas provas intermediárias e para iniciantes, devido principalmente a sua docilidade e delicadeza.

Rankings

A Associação Brasileira de Criadores de Cavalo da Raça Mangalarga (ABCCRM) atribui um ranking anual desde 1997, separado em 20 categorias e baseado nos resultados das exposições organizadas e regulamentadas de acordo com as regras da instituição. São considerados diversos quesitos como: andamento e funcionalidade do cavalo, além dos títulos das etapas disputadas nas exposições.

No ranking anual de 2012, contando todas as categorias, o conjunto ZCM Agropecuária Ltda (da categoria Expositores) atingiu 8.836,60 pontos num total de 11 expedições disputadas e garantiu a primeira posição.

Bruno Limongi, na foto com seu Mangalarga saltando obstáculo, foi nove vezes campeão brasileiro de Salto – Aquilino Limongi

Em segundo lugar, com 5.950,55 pontos em 15 expedições e da categoria Criadores de Mangalarga, ficou a amazona Josiane Vidotti. E também da categoria Expositores, Armando Raucci conquistou 5.654,72 pontos em 17 expedições para alcançar a terceira posição nesse ranking, que é a grande referência para os mangalarguistas apaixonados por esporte.

Já o ranking da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCRMM) é separado em três categorias, sendo realizado também de acordo com exposições e eventos disputados. No ranking de 2012, Maria Helena Cazzani chegou a 10.560,13 pontos em 14 eventos e ficou na primeira posição geral. Na segunda posição ficou Victor Costa com 5.887,13 pontos em 25 eventos, e a terceira foi ocupada pelo Haras Santa Esmeralda Ltda com 5.832,11 em 44.

Neto Bragagnolo



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