Do outro lado do mundo

Japoneses enfrentaram distância geográfica e cultural em busca de uma vida melhor

Com a chegada do navio Kasato Maru ao Brasil, em 1908, também “aportou” em solo brasileiro uma batalha por melhores condições de vida. Os orientais precisavam ainda se adaptar a um cenário completamente diferente em termos de clima, idioma, hábitos, religião, cultura, vestimentas e alimentação. Enriquecer e, em poucos anos, retornar ao Japão era o sonho desses imigrantes, mas a história lhes reservou outros capítulos.

Eles precisaram enfrentar as péssimas condições de trabalho e de vida que eram oferecidas do outro lado do mundo, tendo que protelar a volta ao país de origem. A persistência desses imigrantes e suas pesquisas levaram ao desenvolvimento de novos métodos que contribuíram para o progresso da lavoura no Brasil.

Depois de cumprirem contrato de imigração em fazendas de café, houve famílias que passaram a arrendatários ou pequenos proprietários. Essas famílias desenvolviam a policultura, uma novidade em São Paulo nas décadas de 1920 e 1930. Os japoneses produziam em grande escala e formavam núcleos, o que foi considerado como o primeiro passo para a criação de cooperativas. A Cooperativa Agrícola de Cotia/SP foi fundada em 1927.

Com o declínio econômico do café, trabalharam em outras culturas como algodão e arroz. Antes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Brasil já exportava para o Japão uma parte considerável da sua produção de algodão. Em 1935, o Ministério da Agricultura anunciou que 70% dos produtos agrícolas nacionais eram produzidos por imigrantes japoneses.

Os orientais continuavam chegando ao Brasil e, com o tempo, aqui surgiram escolas primárias para atender os filhos dos imigrantes e circulavam até publicações em japonês. O mundo, porém, estava às vésperas da Segunda Guerra, quando o processo imigratório foi interrompido temporariamente.

A guerra

O Governo Federal brasileiro limitou atividades culturais e educacionais de japoneses um ano antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Foram fechadas escolas estrangeiras, em especial, as ligadas a Japão, Alemanha e Itália, que formavam o Eixo ao qual o Brasil se opunha. Foi proibida, em 1940, a circulação de publicações em japonês e muitos imigrantes tiveram seus bens confiscados.

Alguns anos depois do final da guerra, em 1949, restabeleceu-se o comércio entre Brasil e Japão. No ano seguinte, anunciou-se a liberação dos bens confiscados e, em 1951, aprovou-se projeto para introdução de mais 5 mil famílias imigrantes no Brasil. O Japão saía de uma guerra e contabilizava as perdas materiais e principalmente milhares de mortes. Outro fator determinante era a falta de emprego. A imigração tornou-se uma alternativa e o Brasil era um dos melhores destinos, pois já havia acolhido 200 mil imigrantes antes do conflito bélico mundial.

Célia Sakurai, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas, define a imigração do pós-guerra como aquela que ocorreu a partir de 1947, com a vinda dos primeiros refugiados da Europa, até o final dos anos 70. Após a guerra, o Brasil buscou novos caminhos para seu desenvolvimento interno. A industrialização era uma forma de alcançar melhor qualidade de vida para os brasileiros e de disputar mercados no exterior.

As indústrias japonesas começaram a investir no Brasil em 1953 e esse foi outro ponto favorável à imigração pós-guerra. O Brasil recebeu, dos anos 50 a meados dos 70, cerca de 50 mil novos imigrantes japoneses. Célia avalia que essa nova fase da imigração japonesa é constituída por “pessoas com um perfil ocupacional mais qualificado, de melhor nível educacional”.

Muitos deles chegaram ao Brasil com empregos nas novas indústrias japonesas, inclusive ocupando cargos de chefia. Segundo ela, essa posição privilegiada em relação aos japoneses que deixaram o Japão antes da guerra, desencadeou “forte tensão entre os novos e os antigos imigrantes”.

Os governos dos países que os recebiam utilizavam um discurso humanitário, mas houve seleção rigorosa de candidatos com alguma ocupação especializada, em especial as de caráter urbano.

Nova pátria

Depois de décadas, as terríveis lembranças da guerra e das condições econômicas que o Japão enfrentou são descritas por imigrantes. Shosei e Norie Nakamura chegaram ao Brasil em 1955 com dois filhos pequenos para trabalhar como verdureiros no interior de São Paulo.

Deixaram para trás a província de Kumamoto, próxima a Nagasaki, mas trouxeram as lembranças do árduo período da guerra. Norie conta que, aos 13 anos, viu-se fora da escola. “Parou tudo. Não tinha escola”. Seu trabalho era limpar batata-doce. Como não havia muito arroz, a batata-doce era picada para “engrossar” a refeição do povo japonês.

Shosei era proprietário de uma fábrica de chá, mas nem mesmo essa condição foi suficiente para que permanecesse em seu país. Na década de 50, recebeu convite de um parente para que viesse ao Brasil, onde havia “árvore que dá dinheiro”.

Atraídos pelo sonho de um futuro melhor, abandonaram tudo. No Brasil, tiveram mais três filhos. O casal voltou sete vezes ao Japão. Os motivos? Passeios e dois anos de trabalho no setor de limpeza de um shopping. Hoje, aposentados, vivem em Pilar do Sul/SP.

Questionados sobre uma possível volta ao Japão são categóricos e respondem que não. “Quero morrer aqui”, afirma Shosei. E, com um sorriso tímido, diz que no Brasil é possível comer mais carne, já que no Japão o preço desse produto é bastante elevado.

Andanças

Kazuo Ojima também reside em Pilar do Sul, mas já andou por várias partes do território brasileiro. Ele chegou ao Brasil em 1956, com 15 anos, junto com os pais e irmãos, para trabalhar em uma lavoura de café, no Estado do Paraná. Segundo suas lembranças, todos diziam que “ganhavam dinheiro no Brasil”.

Diante da complicada situação do pós-guerra, seu pai informou-se sobre imigração e partiu. Foram três anos de trabalho no Paraná e a família mudou-se para Pilar do Sul, onde trabalhou como meeira na plantação de tomate.

As economias possibilitaram a compra de terreno para cultivo de hortaliças. Kazuo trabalhou, mais tarde, no Centro Estadual de Abastecimento (Ceasa), na capital paulista. Depois, mudou-se para a Chapada Diamantina/BA, onde também atuou na agricultura.

De volta à sua terra de origem, em 1988, foi motorista de caminhão. Não resistiu e retornou a Pilar do Sul onde, hoje, é professor de karaokê. Além de sua experiência profissional, carrega memórias da guerra.

Kazuo vivia na província de Koti e era uma criança que se assustava com o barulho dos aviões. Quando eles se aproximavam, lembra, ouvia-se uma sirene e todos corriam para um túnel subterrâneo. Certa vez, na lavoura, para se esconder das bombas que eram lançadas, deitou-se num córrego.

Como soldado, seu pai viveu um momento de pânico. Mais de mil pessoas estavam em um navio que foi atacado. A reação imediata dos tripulantes foi a de se jogar ao mar. Seu pai foi um dos sete que sobreviveram.

Em Itu

Quem também deixou o Japão após a Segunda Guerra Mundial com destino ao Brasil foi Shinichi Kumano, acompanhado de sua esposa Shigeko e uma filha. As dificuldades ocasionadas pela Grande Guerra também os motivaram a procurar outro lugar para que pudessem melhorar de vida.

Shigeko, que no Brasil ficou carinhosamente conhecida como Maria, lembra que o casal deixou sua terra natal para trás em 1957. Os parentes lá permaneceram, mas eles seguiram em frente, pois a situação era complicada naquele momento. “Faltava tudo e era tudo muito caro”, descreve Maria.

Segundo suas lembranças, no pós-guerra os japoneses praticavam o escambo. Trocavam-se inclusive roupas por alimentação. Kumano, falecido no último dia 2 de junho, queria um país maior. A experiência que o casal possuía no trabalho agrícola foi importante para que se estabelecesse no Brasil.

Maria conta que no Japão eles plantavam trigo, no inverno, e arroz, no verão. Em terras brasileiras trabalharam em propriedades nos municípios paulistas de Embu, Suzano, Mogi das Cruzes, Salto e finalmente em Itu, onde na década de 60, adquiriram seu próprio sítio. O trabalho com granja envolve, ainda hoje, membros da família Kumano.

Nos anos 60, a aquisição de propriedades a um raio de 50 km de distância da capital paulista era considerada um “bom negócio”. No entanto, Maria relata que o preço era alto e que optaram por Itu que está situado a 100 km de São Paulo/SP, terra boa e por um preço mais acessível. Ela diz que voltou ao Japão por três vezes, mas seu objetivo era passear.

Afirma que nunca pensou em sair do Brasil e voltar a morar no Japão. “Lá é muito frio, o clima no Brasil é melhor”, justifica. A determinação desse casal de japoneses foi fundamental para a adaptação num País tão diferente. De acordo com Maria, o imigrante japonês não tinha escolha; era preciso se adaptar.

Kumano era um homem com visão para os negócios e cheio de coragem. Ele foi voluntário na Segunda Guerra Mundial. Para se salvar, ao ver o navio em que estava ser atingido, nadou por duas horas. Após ficar boiando no mar, foi resgatado por um navio japonês. Maria fala dos sinos que existiam nas comunidades. Ao toque de um deles, os japoneses corriam para um esconderijo. O desespero era tamanho que levava as mães a assassinarem seus filhos porque não paravam de chorar e o barulho poderia atrair o inimigo. Foi um período de muito medo, conforme seus depoimentos.

Kumano tirou muitas lições da Guerra e, no Brasil, ensinou seus filhos a não deixarem comida nos pratos, porque considerava desperdício, já que muitas famílias não tinham condições para se alimentar.

Como tantos outros imigrantes, o casal Kumano venceu e aqui construiu sua família. No Brasil, o casal teve mais cinco filhos. A imigração se estendeu ao longo de muitos anos e o último navio a transportar imigrantes japoneses chegou ao Brasil em 1973.

No final da década seguinte, o País conheceria o fenômeno dos dekasseguis que ocorre até hoje, com a ida de japoneses e descendentes para o Japão.

Angélica Estrada



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