As mais antigas do Brasil

Festas italianas da capital paulista foram as precursoras no País

Santos católicos de devoções originárias da Itália, Nossa Senhora de Casaluce, São Vito e Nossa Senhora Achiropita foram as motivações para a criação das primeiras festas italianas em solo brasileiro, todas elas na cidade de São Paulo, em bairros onde se concentraram os imigrantes egressos dos cafezais no final do século 19. No Bairro do Brás (hoje distrito), na zona Leste da capital, em 1900, aconteceu a pioneira Festa de Nossa Senhora de Casaluce e, em 1918, a festividade a São Vito (288-303 d.C.), o jovem mártir, morto pelo Império Romano durante as perseguições que marcaram os primeiros séculos do cristianismo. Já a Festa de Nossa Senhora Achiropita, de 1926, nasceu no Bairro do Bixiga, no atual distrito da Bela Vista, região central da cidade.

A denominação Nossa Senhora de Casaluce tem sua origem no século 12, no Sul da Itália. Segundo a Igreja Católica, na cidade de Aversa (região de Campania), em um dia de temporal, uma mulher negra com uma criança nos braços bateu à porta de um seminário para pedir abrigo. Os padres recomendaram que ela se dirigisse a um convento de freiras na cidade mais próxima, Casaluce. As freiras a acolheram, mas no dia seguinte, a moça e a criança desapareceram e se transformaram num quadro na parede, onde ficou gravada a sua imagem. As freiras acreditaram tratar-se da visita de Maria, a mãe de Jesus. A partir daí a notícia correu e vários milagres começaram a ser atribuídos à Madonna di Casaluce.

Os italianos da região da Campania, quando chegaram a São Paulo, instalaram-se inicialmente na Rua Caetano Pinto e ali revelaram sua devoção a Nossa Senhora de Casaluce. Eles trouxeram uma réplica do quadro e, em 1900, construíram uma capela dedicada à santa. Em 1970 a capela deu lugar à atual sede da Paróquia de Nossa Senhora de Casaluce. Em todo o mundo só há três igrejas com essa denominação: a de Aversa, a de Casaluce e a de São Paulo. Esse espírito religioso deu origem à primeira festa italiana de São Paulo, comemorada durante todo o mês de maio, mas que a partir de 2002 ganhou também o último fim de semana de abril.

A festa é realizada ao redor da igreja e sua estrutura conta com 20 barracas de comidas e bebidas típicas. Fazem parte também shows com música ao vivo e balé folclórico, encerrando-se com uma queima de fogos. Tudo é realizado pela comunidade com trabalho voluntário a fim de manter as tradições e costumes de seus antepassados e arrecadar recursos para as obras assistenciais da Igreja.

A Festa de Nossa Senhora de Casaluce é a mais antiga do Brasil, mas foi proibida por motivos políticos durante a Segunda Guerra Mundial pelo então ditador brasileiro Getúlio Vargas. O mesmo ocorreu com todas as outras comemorações da comunidade italiana. Quando a perseguição acabou, em 1950, as festas foram retomadas.

São Vito

A devoção a São Vito Mártir espalhou-se por diversos lugares do mundo por intermédio dos emigrantes da pequena cidade de Polignano a’Mare, na região da Puglia, Sul da Itália. Não há registros oficiais sobre a vida do santo. Alguns dizem que São Vito nasceu na Sicília, outros sustentam que nasceu na antiga Lucania, província atual da Basilicata, em 288 d.C., durante o império de Diocleciano, grande perseguidor dos cristãos.

Sua família era nobre e estimada pelo imperador. Contrariando as ordens do pai, o rapaz abraçou a fé cristã e a caridade. Quando ainda era adolescente começaram a se propagar os milagres feitos por sua intercessão. A ira de Diocleciano recaiu sobre ele, que foi torturado e levado à morte em 303 d.C., com apenas 15 anos. A partir de então ficou conhecido como São Vito Mártir.

Duas festas

No Brás, em São Paulo, a Festa de São Vito está dividida em duas. Na rua é organizada pela igreja e, no ginásio, pela Associação Beneficente São Vito Mártir. Antigamente era uma só e envolvia toda a comunidade. Posteriormente foi separada devido a um desentendimento entre as partes. Depois do desacordo, a festa de rua deixou de acontecer, mas foi retomada em 1998, sendo realizada durante todo o mês de junho e estendida até a primeira semana de julho. Ela acontece na Rua Polignano a’Mare número 51, no Bairro do Brás.

A estrutura da festa conta com 25 barracas que servem ficazella (massa recheada com mussarela, tomate e orégano, frita na hora), guimirella (churrasco de fígado) e macarrão, entre outras especialidades da culinária italiana. Há shows de música italiana ao vivo e diversão para as crianças. A festa ajuda a manter obras assistenciais da Igreja.

Já a festa realizada sem interrupção pela Associação Beneficente São Vito Mártir desde 1918 acontece num ginásio e funciona como um enorme restaurante com música italiana ao vivo e comida servida por jovens garçons vestidos a caráter. Cobra-se um ingresso e seu público chega a 4 mil pessoas por fim de semana. A renda é destinada à manutenção de uma creche.

Achiropita

A Festa de Nossa Senhora Achiropita, realizada no Bairro do Bixiga durante os finais de semana do mês de agosto, é a maior das festas italianas de São Paulo, com quase mil voluntários e cerca de 250 mil visitantes. Trinta barracas são instaladas nas ruas 13 de Maio, São Vicente e Doutor Luiz Barreto para oferecer diversos pratos tipicamente italianos, como as 12 mil fogazzas consumidas em apenas uma noite. Todo dinheiro é revertido para as obras sociais da Igreja.

Neste ano o evento completará 90 anos. A Festa de Nossa Senhora Achiropita nasceu no começo do século 20, quando os primeiros imigrantes chegaram ao Bixiga. Eles trouxeram uma imagem que começou a ser venerada pelos fiéis em 1908 na casa de João Falcone, na Rua Treze de Maio nº 100. Foi erguido lá um altar de madeira na rua de terra batida, onde era colocada a imagem da santa e, nos dias 13, 14 e 15 de agosto, eram celebradas missas e iniciada a festa com o objetivo de angariar fundos para a construção de uma igreja grande e definitiva.

Os italianos do Bexiga eram, na maioria, de origem calabresa e devotos de Nossa Senhora Achiropita, mas havia também uma concentração de puglianeses da cidade de Cirignolano, que eram devotos de Nossa Senhora da Ripalta. Independentemente disso, todos os fiéis ajudaram na construção da igreja, que deveria abrigar as duas santas.

Na hora de definir o nome da paróquia, o padre Carlos Alferano, primeiro pároco, teve que interferir: não contemplaria nem Nossa Senhora Achiropita (calabreses) nem Nossa Senhora da Ripalta (puglianeses). Deu-lhe o nome de Paróquia de São José. Em 1º de junho de 1949, o nome foi mudado para Paróquia Nossa Senhora Achiropita, a pedido do padre Carmelo Putorti.

Nos primeiros eventos realizados, haviam barracas com sorteios das prendas, leilões sobre carroças, um pau de sebo e a animada banda dos Bersaglieri, vinda da Itália. Havia também a procissão levando as imagens das duas santas. Outra tradição dos antigos italianos eram os enfeites com colchas e toalhas colocadas nas janelas e sacadas. Anos depois, as homenagens se aprimoraram, com chuva de papel picado, pétalas de rosa e fogos de artifícios.

A partir das décadas de 50 e 60 a festa começou a crescer. Nesse período foi feita a primeira barraca de comida, por senhoras da comunidade, na qual foi vendido o sanduíche de pernil. Nos anos seguintes outras especialidades foram acrescentadas. Atualmente, o provolone de dois metros e cerca de 100 quilos é um dos símbolos do evento. Nas décadas de 80 e 90 a festa passou a fazer parte do Calendário Turístico do Estado de São Paulo. Curioso, no entanto, é que a devoção a Nossa Senhora Achiropita é mais conhecida no Brasil do que na própria Itália.

Origem da devoção

Segundo uma crença originada no século 7, uma pintura foi retratada de forma milagrosa em uma igreja na cidade de Rossano, na Calábria, Sul da Itália.

Tudo começou porque um artista trabalhava na pintura da imagem de Maria no interior do templo, mas notou que todo o trabalho realizado durante o dia sumia à noite. Assim, foi colocado um vigia para impedir a entrada de pessoas no local no período noturno.

Numa noite uma mulher com uma criança no colo insistiu com o guarda e obteve permissão para entrar no santuário e rezar, pois pensou-se que ela não iria fazer nada de errado. Como a mulher demorava para sair, o vigia foi ver o que ocorria e quando entrou, ficou surpreso ao ver a imagem da mulher com o menino estampada no lugar da pintura que antes sumia. Impressionado, saiu gritando pelas ruas: “Nossa Senhora Achiropita! Nossa Senhora Achiropita!”, cujo significado é “não feita por mãos humanas”.

Rose Ferrari

Festa de Nossa Senhora Achiropita, no Bairro do Bixiga, em São Paulo, completará 90 anos – Divulgação

Festa de Nossa Senhora de Casaluce, no Bairro do Brás, acontece desde 1900 – Divulgação

A tradicional festa realizada pela Associação Beneficente São Vito Mártir no Bairro do Brás acontece num ginásio – Associação Beneficente São Vito Mártir/ Divulgação

Origem das festas se deveu à presença italiana em alguns bairros paulistanos, como no Bairro do Brás. Na foto, a padaria de imigrante italiano em 1926 – Coleção Roberto Barra

O Bairro da Moóca também concentrou imigrantes italianos. Na foto, a carroça de um vendedor de frutas italiano naquele bairro em 1920 – Acervo Divisão de Iconografia e Museus / PMSP

Reprodução da imagem original de Nossa Senhora de Casaluce – Acervo Santuario di Santa Maria di Casaluce

Festa de São Vito Mártir faz referência à cidade italiana de Polignano a’Mare, onde surgiu a devoção – Divulgação

Chuva de papel e pétalas para saudação a Nossa Senhora Achiropita durante a procissão – Divulgação

Imagem existente na Capela de San Gennaro, em Nápoles, na Itália – José Luiz Bernardes Ribeiro/Reprodução autorizada

Outras festas italianas
São Paulo mantém ainda a devoção a outros santos de origem italiana, aos quais dedica festas típicas. No Bairro da Moóca, desde 1973, durante o mês de setembro, acontece a Festa de San Gennaro (ou São Januário), e na da igreja Nossa Senhora Aparecida, no Bairro do Ipiranga, no mês de maio, é realizada desde 1992, a Festa de São Francisco de Paola. (RF)



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