Editorial

O “milagre” da restauração

O trabalho minucioso e técnico possibilita ao visitante ver pinturas que estavam escondidas sob espessas camadas de tinta há mais de 100 anos nas paredes revestidas de tábuas da capela-mor da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, construída em estilo barroco no apogeu do rico ciclo da cana de açúcar, inaugurada em 1780

É como se viajássemos no tempo, ter a possibilidade de visualizar o que foi feito em 1788 por hábeis mãos de pintores famosos daquela época – pinturas de cenas do Antigo Testamento – que, por longo tempo, ficaram escondidas e, hoje, estão sendo recuperadas pelas dos também habilidosos restauradores por meio do trabalho de prospecção tal qual foram concebidas há mais de dois séculos.

Pode não ser propriamente um milagre, mas é o resultado de árduo e abençoado trabalho o qual recupera de maneira espetacular a originalidade desse importante patrimônio arquitetônico religioso, artístico e cultural, primeiro monumento tombado no interior do Estado de São Paulo pelo recém-fundado Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico Nacional -, em 1938, pelo Ministério da Educação e Saúde, dirigido por Gustavo Capanema Filho, durante o Estado Novo, período em que o País encontrava-se sob o regime ditatorial do gaúcho Getúlio Dornelles Vargas.

O suntuoso prédio da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, dedicado à padroeira de Itu, possui também outra importante chancela de tombamento conferida em 1987 pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. Ambas as certificações ratificam a importância que essa relíquia bicentenária do barroco paulista ostenta. Sem dúvida, orgulho para a sociedade ituana de todas as crenças.

Foi o orgulho próprio dessa comunidade que contribuiu para que fosse dado o pontapé inicial em sua reforma e restauração no final de 2001 por meio de doações feitas por empresários e recursos financeiros angariados com a realização da Festa Italiana de Itu, motivada pelo fato de existir na cidade significativa população de descendentes de italianos os quais trazem em seu “DNA” fé em Deus, amor ao trabalho, à família e às tradições. Sem falar no peculiar e inconfundível espírito festeiro, além, é claro, de serem exímios apreciadores da mesa farta, acompanhada de bom vinho.

Não deu outra: esses “temperos e ingredientes” deram muito certo e com sabor de sucesso. Prova disso, a festa completou neste ano sua 15ª edição coroada de pleno êxito e, hoje, faz parte inclusive do calendário anual de aniversário do município, comemorado no dia 2 de fevereiro, dia também dedicado a Nossa Senhora da Candelária.

Em termos de festas italianas, nesta edição, a revista Campo&Cidade traz ainda histórias de outras festas do gênero realizadas no Brasil inteiro, como por exemplo, as tradicionais que acontecem em diversos bairros da capital paulista: de Nossa Senhora de Casaluce (Brás), considerada a mais antiga do País, iniciada em 1900; de São Vito (também no Brás); de San Gennaro (Moóca); de Nossa Senhora Achiropita, no famoso Bixiga, hoje Distrito de Bela Vista; e de São Francisco de Paola (Ipiranga). Destaque ainda para a Festa Italiana di Jundiaí, Festa Ítalo Saltense e a tradicional Festa do Jacuhú, realizada há cerca de 80 anos em Itu num antigo bairro rural, fundado por imigrantes italianos em 1880, o qual possui o mesmo nome do regozijo.

E por falar em festa, no dia 28 de fevereiro, a Igreja Matriz de nossa Senhora da Candelária viveu também clima festivo devido à cerimônia de entrega da primeira fase das obras de reparo artístico realizadas em seu interior, com custo de R$ 6,8 milhões, valor que será custeado 50% pela Prefeitura da Estância Turística de Itu e o restante financiado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Autoridades, convidados e a comunidade presentes ao evento tiveram a oportunidade de contemplar o novo esplendor da capela-mor e suas respectivas obras de arte sacra após o “milagre” da restauração. Todos saíram de alma lavada!

João José “Tucano” da Silva
Editor responsável

Editorial 101



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