Festa Italiana e a restauração da Matriz

Evento surgiu para angariar fundos para o restauro da Igreja de Nossa Senhora da Candelária

É difícil acreditar, mas a Matriz de Nossa Senhora da Candelária, em Itu/SP, considerada a maior e mais importante igreja barroca do Estado de São Paulo, atravessou quase todo o século 20 sem restauração. Concluída em 1780, sob orientação do padre João Leite Ferraz, passou por diversas reformas, tendo as últimas ocorrido entre o final do século 19 e início do 20, com destaque para os trabalhos de Ramos de Azevedo e Paula Souza. Depois disso, só no ano 2000, com a chegada do pároco monsenhor Durval de Almeida e a criação do Conselho Paroquial Administrativo (CPA), foi percebida a urgência de novas intervenções no prédio. E foi nesse ponto da história que se deu o encontro da Matriz com a Festa Italiana de Itu.

O grande desafio de restaurar a Igreja Matriz de Nossa Senhora Candelária está relacionado aos mesmos atributos que lhe conferem o status de patrimônio histórico, artístico e arquitetônico: ela foi construída há mais de 200 anos e possui em seu interior obras raras – talhas e pinturas – de renomados artistas como José Ferraz de Almeida Junior, José Patrício da Silva Manso, Bartolomeu Teixeira, frei Jesuíno do Monte Carmelo e a italiana Lavínia Cereda. Esta última foi a responsável pelas pinturas das 14 telas da Via-Sacra do teto da sacristia.

Para orgulho dos ituanos, a edificação religiosa foi o primeiro monumento tombado no interior do Estado de São Paulo pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em 1938, pouco tempo após o órgão ter sido criado durante a gestão do ministro da Educação Gustavo Capanema Filho. Já o seu tombamento pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) se deu em 1987. Por essa razão, nenhuma intervenção arquitetônica ou reforma pode ser feita no prédio sem a devida autorização de ambos os órgãos. Outro aspecto é que a restauração de um patrimônio dessa natureza demanda serviços especializados, cujos custos não cabem, nem de longe, no orçamento da paróquia.

Diante disso, o CPA levou ao pároco a ideia de realizar a Festa Italiana, com o intuito de angariar fundos para ajudar a custear as obras. O contador e empresário Adilson Groblackner, um dos membros do CPA, explica que o apoio do povo ituano à festividade possibilitou que as obras saíssem do papel. “Evidentemente não foi só o dinheiro arrecadado ao longo dos anos de festa que custearam as obras de restauro, mas boa parte foi conquistada pelo apoio dos ituanos que frequentaram o evento durante todos esses anos, além de doações de empresas”.

Reformas

A primeira obra, no final de 2001, foi a substituição de parte do telhado, concretizada graças a um importante reforço financeiro: uma doação do empresário José Nelson Schincariol, falecido em 2003. “O Nelson pagou integralmente o madeiramento, possibilitando o restauro do telhado, do forro da Capela-Mor e da nave. Na época, ainda estavam sendo realizadas as obras das instalações da filial da empresa Primo Schincariol Indústria de Cerveja e Refrigerantes, em Alagoinhas/BA, e era utilizado o mesmo tipo de madeiramento e estrutura no local. Como ele conhecia os fornecedores, foi mais fácil negociar e acelerar o processo”, conta o empresário Corinto Luiz do Nascimento Arruda, que também integrava o CPA.

O detalhe mais complicado da reforma do telhado é que ele é composto por 42 mil telhas francesas, vindas de Marselha, e 5 mil delas precisavam ser substituídas. “Como arrumar telhas da mesma marca (Arnold Etienne), francesas e centenárias? Felizmente em uma busca minuciosa em antiquários da região, encontramos as mesmas peças e conseguimos manter a estrutura original”, conta o arquiteto ituano Alberto Magno de Arruda, responsável por essa parte das obras. O outro desafio foi a instalação de um andaime seguro na lateral da igreja, na Rua Barão do Itaim, sem danificar as paredes de taipa.

“Fizemos uma broca especial, com furos de 3/8, assim o dano foi mínimo”, explica o arquiteto.

O empreiteiro Edson Roberto Fernandes comenta que as obras dessa área do templo duraram quatro meses e foram “uma grande batalha”, pois o andaime ficava muito próximo aos cabos de energia elétrica, o que punha em risco a vida dos trabalhadores.

“Solicitamos que a CPFL (Companhia Piratininga de Força e Luz) desligasse a energia nas proximidades durante nossas atividades. Era uma luta diária, mas deu tudo certo”. Na época, sua equipe, composta por 14 profissionais, retirou todas as telhas, lavou uma a uma e as colocou novamente no telhado.

Desenvolvimento e desafios

Vice-presidente da Associação Cultural e de Preservação do Patrimônio Histórico de Itu por 13 anos, o engenheiro Jair de Oliveira relembra o início do projeto de restauro. “Tudo começou com a transferência do monsenhor Durval de Almeida para a Paróquia de Nossa Senhora da Candelária. A partir de sua chegada, o professor Luís Roberto de Francisco, Alberto Arruda, eu e mais sete pessoas analisamos e vimos que a igreja necessitava de obras urgentes, pois toda a sua parte elétrica datava do início do século 20, o que era perigosíssimo, já que poderia ocorrer um curto-circuito e destruir esse riquíssimo patrimônio”, afirma.

A princípio, segundo Jair, foi criada uma curadoria, que posteriormente, por questões jurídicas, recebeu o nome de Associação Cultural e de Preservação do Patrimônio Histórico de Itu. Devido ao bom relacionamento do engenheiro com o Iphan e o Condephaat, foi possível a análise e a verificação da necessidade do restauro.

Entre a substituição de telhado, rufos, calhas, rede elétrica e pisos existiram tempos de muita polêmica, paciência e luta. Para reparar o calçamento ao redor da igreja e manter suas características originais, seria necessário utilizar 500 m² de varvito, a ser extraído da pedreira existente em Itu, que também é tombada pelos órgãos de preservação do património. “Não iria prejudicar em nada o local. Após análise geológica, feita pelo Dr. (Antônio Carlos) Rocha Campos, análise do Iphan e do Condephaat, além da Promotoria Pública, foi liberado o varvito para a intervenção. Mas se passaram cinco anos. São questões muito delicadas, que exigem tempo”, comenta.

Outro reparo que demorou foi a substituição do piso, em ladrilho hidráulico, pelo de madeira. Durante as obras, foram feitas prospecções nas paredes e descobertas pinturas antigas. De acordo com um estudo técnico, foi constatado que aquelas obras descobertas não coexistiram com o piso hidráulico. “Assim, foi decidido trazer de volta o piso de madeira, o da época das pinturas. Foi aí que surgiu outro entrave, com mais um período de estudos e aprovações”, relembra Jair.

Entre análise, aprovação e a efetiva substituição do piso passaram-se dois anos. Nesse mesmo período, por volta de 2007, o relógio, localizado na torre da Matriz, trazido da Europa pelo pintor ituano José Ferraz de Almeida Júnior, no século 19, a pedido do vigário padre Miguel Corrêa Pacheco, também passou por intervenções. “Houve a necessidade de substituir seu mecanismo, com o intuito de automatizá-lo. Possuindo assim um mecanismo moderno, o relógio não perdeu sua identidade, mantendo-se em pleno funcionamento”, explica o engenheiro.

Importantes participações

Restaurador e entalhador, Luiz de Almeida Prado participou das obras de restauro na Matriz de Itu até 2013. Durante aproximadamente uma década auxiliou nas prospecções e intervenções nos altares e no telhado. “Tive a rica oportunidade de participar de um processo tão importante como o restauro e ajudar a reencontrar a história da Igreja e de nossa cidade”, comenta.

Descoberto por Luiz, o também restaurador e entalhador, José Ademir Barros Araújo, ingressou em 2006 na equipe de trabalho, permanecendo também até 2013. Grato pela oportunidade recebida, Ademir comenta sobre a época. “Tive a oportunidade de redescobrir a história da Igreja, sua riqueza. Mesmo que não tenha continuado ao lado de meu mestre Luiz, levo comigo todo o aprendizado adquirido e a certeza que fiz parte da história, ao fazer prospecções e trazer à tona obras de grandes artistas que passaram por ali há tantos anos”.

Com a transferência do monsenhor Durval de Almeida para a Igreja do Bom Jesus, em 2013, foi para seu lugar na paróquia, o padre Francisco Carlos Caseiro Rossi. Sendo assim, o antigo pároco, que era o presidente da Associação Cultural e de Preservação do Patrimônio Histórico de Itu, deixou o posto para o novo padre. “Foi nesse período que também entreguei meu cargo, após as conclusões das obras de urgência. Foi justamente na época em que o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), após muitos anos de espera, atendeu a paróquia, viabilizando recursos para a restauração da parte artística do templo”, conta o engenheiro Jair de Oliveira.

Após inúmeras tratativas entre a Associação, a Prefeitura da Estância Turística de Itu, por meio do então secretário de Cultura Álvaro Stella, o Iphan, o Condephaat e o BNDES, que duraram sete anos (2006-2013), fora destinada a verba para a realização das intervenções artísticas na igreja. O acordo estabeleceu que os recursos seriam divididos entre a Prefeitura e o Banco (aproximadamente R$ 3,5 milhões cada).

Secretário de Cultura de Itu entre 2005 e 2010, Álvaro Stella esteve envolvido no projeto de restauro desde o início das tratativas junto ao BNDES. Atualmente representante da sociedade civil no Conselho de Restauro, o responsável por dialogar e lutar por recursos, explica o desenrolar do processo. “Em 2006 contatamos o BNDES e demonstramos o interesse em obtermos verbas para as reformas na Igreja Matriz. Foi feito o projeto e encaminhado para eles. Após inúmeras viagens e tratativas no Rio de Janeiro e visitas do Banco à Igreja, em 2012, foi aprovada a viabilização de verba, porém eles arcariam com 50%”.

Foi então, que Stella partiu em busca da outra metade necessária. Mantendo envolvimento nas obras, após o parecer do BNDES, o ex-secretário se reuniu com o prefeito de Itu na época Herculano Castilho Passos Júnior (PSD), para pleitear uma possível verba por parte do município. “Herculano foi de extrema sensibilidade. Abraçou a ideia, assim como o atual prefeito Tuíze (Antonio Luiz Carvalho Gomes/PV), que nos deu e dá total apoio.

Tenho certeza de que independentemente dos resultados das eleições municipais de outubro, teremos também total auxílio do futuro administrador da cidade”, afirma Álvaro.
Se a recente crise econômica afetou diversos setores, não foi diferente no que diz respeito às obras: os custos com o restauro acabaram maiores do que o orçamento estabelecido e começou uma nova busca por verba. “Muitos detalhes da Igreja foram feitos com ouro puro. Em meio à atual situação da economia, o dólar sobe e impacta tudo, incluindo o ouro e outros itens. Estamos atrás de novos patrocinadores para que as obras não parem e o restauro seja concluído”, finaliza.

Restauro artístico

Em 2014 foram iniciadas tais reformas, que ficaram a cargo da empresa Julio Moraes Conservação e Restauro Ltda, que havia anteriormente promovido obras no local.

“Fizemos restauros de elementos artísticos integrados à arquitetura, dos chamados complementos arquitetônicos e dos bens, elementos que compõem o acervo de culturais móveis da igreja. Estivemos presentes pela primeira vez entre 2001 e 2002 no templo, quando restauramos o forro policromado da Capela-Mor”, explica o conservador-restaurador Julio Moraes, um dos responsáveis técnicos da empresa.

Sócio de Julio, o arquiteto e restaurador Claudemir Ignácio, responsável por intervenções em templos como a Catedral da Sé, em São Paulo, e da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, também situada na capital paulista, explica como vem sendo o processo de restauro artístico. “Dentro do projeto, analisado pelo Iphan e Condephaat, promovemos as prospecções e estamos trazendo de volta as pinturas originais da Matriz, assim como seus complementos arquitetônicos fielmente. A nossa missão é trazer de volta ao público o trabalho desenvolvido por artistas que deixaram aqui sua marca há 100, 200 anos”.

No dia 28 de fevereiro deste ano ocorreu a cerimônia de entrega da primeira etapa das obras de restauro artístico e foi possível contemplar o que há pelo menos um século estava escondido embaixo de camadas de tinta. A remoção das repinturas, nos taboados que revestem as paredes laterais da capela-mor, revelou cenas do Antigo Testamento da Bíblia, à moda de azulejaria em azul e branco, de autoria do até então desconhecido artista Matias Teixeira da Silva, executadas em 1788.

Além disso, a retirada das diversas repinturas na talha do altar-mor revelou o trabalho do escultor Bartolomeu Teixeira Guimarães. Ainda no altar foram descobertas pintura e douração feitas pelo mestre José Patrício da Silva Manso que, após o restauro, voltaram a resplandecer. As telas pintadas pelo frei carmelita Jesuíno do Monte Carmelo, fixadas nas paredes laterais da capela-mor, também passaram por restauração.

Visão do pároco

O padre Francisco Carlos Caseiro Rossi, pároco da Candelária desde 2013, já esteve à frente de outras paróquias cujos templos sofreram intervenções arquitetônicas e/ou artísticas, como na Igreja do Senhor do Horto e São Lázaro, em Itu, local em que permaneceu por dez anos. “Para mim é de uma importância muito grande uma igreja barroca, com toda sua rica história, receber manutenções dessa magnitude. Isso nos enche de felicidade, pois é a valorização de um templo religioso e, ao mesmo tempo, da cultura do município. O mais importante de tudo isso é a participação dos paroquianos e dos demais ituanos nessa realização, pois suas doações e contribuições geraram recursos que ajudaram e ajudam a custear as intervenções”, conclui.

Daniel Nápoli

Um dos primeiros registros feitos da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, concluída no ano de 1780, autoria de Antonio Martins Coelho – Antonio Martins Coelho /Arquivo: Campo&Cidade

A italiana Lavínia Cereda pintou as 14 telas da Via-Sacra que se encontram no teto da sacristia da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária – Tucano

O altar da capela-mor e seu sacrário tiveram sua beleza original recuperada – Tucano

Calçamento de varvito levou cinco anos para ser reparado ao redor da Igreja Matriz – Tucano

Vista das obras de retirada do piso de ladrilho hidráulico para ser substituído pelo de madeira – Tucano

Relógio do templo, hoje automatizado, veio da Europa no século 20, por meio do pintor Almeida Júnior – Tucano

Luiz (esq.) e Ademir descobriram durante a restauração obras de arte relevantes até então desconhecidas – Tucano

Álvaro Stella foi o responsável pela captação de recursos junto ao BNDES e Prefeitura de Itu – Daniel Nápoli

Remoção das repinturas revelaram cenas do Antigo Testamento feitas no século 18 – Renata Guarnieri/Prefeitura de Itu

Remoção das repinturas revelaram cenas do Antigo Testamento feitas no século 18 – Renata Guarnieri/Prefeitura de Itu

Folheação a prata e ouro, originalmente em proporção incomum, faz dos altares da matriz os mais belos do Estado de São Paulo – Renata Guarnieri/Prefeitura de Itu

Equipe de restauro de Julio Moraes, responsável pelos reparos da parte artística da igreja – Tucano

Padre Francisco, atual pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Candelária (esq.), ao lado do arquiteto e restaurador Claudemir Ignácio – Tucano

Prefeito de Itu, Antonio Luiz Carvalho Gomes (Tuíze), discursa durante entrega da primeira etapa da restauração artística – Decom/Prefeitura de Itu



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