Festa Ítalo-Saltense

Evento homenageia os imigrantes italianos e chega à 20ª edição

Quando ele idealizou a Festa Ítalo-Saltense, em 1997, tinha uma certeza: “Posso parecer presunçoso, mas, se o evento continuasse por aquele caminho, iria se tornar uma das maiores festas italianas do interior de São Paulo”. Sim, esse era o sonho de Wanderley Rigolin, então secretário de Cultura e Turismo da Prefeitura de Salto/SP.

Rigolin teve a ideia de criar uma comemoração para marcar os 299 anos de fundação do município e entrou em contato com os responsáveis pela extinta indústria Alpargatas, que funcionava no antigo prédio da Brasital, onde hoje se encontra instalada a Cruzeiro do Sul Educacional (Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio – Ceunsp). “Nos primeiros dias da festa eu ficava observando as pessoas de mais idade. Elas diziam umas para as outras: ‘Olha, o meu tear ficava aqui’. Foi muito emocionante e marcante para mim”, conta.

A festa nasceu com o objetivo de homenagear os imigrantes de origem italiana, que ajudaram no crescimento do município. Havia também o cunho social, pois diversas entidades assistenciais participariam com a venda de comidas e bebidas típicas.

Na abertura da primeira festa esteve presente Andrea Ruggeri, representante do Cônsul da Itália, na época. Foram três dias com várias apresentações artísticas, entre elas grupos de teatro, música, dança, orquestra e coral. Um dos destaques foi o baile com Carlos Bonani Italian Show. Os cantores Fred Rovella e Rolando Sterzi fizeram sucesso em diversas edições.

Também já abrilhantaram o evento a cantora Mafalda Minnozzi, Tony Angeli, Jerry Adriani, os tenores Sérgio Senger e Jorge Durian, artistas e bandas locais, entre outros. Muitas pessoas foram atraídas por shows de pagode e samba, sendo bastante aguardadas as apresentações dos grupos Demônios da Garoa, em 2003, e Katinguelê, em 2004. A missa em língua italiana também foi umas atrações ao longo dos anos.

Problemas

A ausência de um espaço próprio para eventos em Salto é um dos problemas na realização da Festa Ítalo-Saltense. Já sediaram o evento: Brasital/Ceunsp (Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio), Centro Esportivo João Luiz Guarda, Praça XV de Novembro, além da antiga concessionária de veículos Tresele e Associação Atlética Saltense, propriedades particulares, com pagamento de aluguel. Neste ano, pela quarta vez consecutiva, a festa será realizada no Pavilhão das Artes da Praça Archimedes Lammoglia, local aprovado pelo Corpo de Bombeiros.

Outra dificuldade na promoção da festa diz respeito ao fato de ela ter sido criada por iniciativa do poder público. “Os órgãos de fiscalização estão cada vez mais rigorosos e acabarão questionando esse gasto discricionário. As entidades sociais ligadas à memória italiana deveriam/deverão, em breve, assumir a organização”, afirma Marcos Pardim, atual secretário de Cultura.

Em 2009, durante a gestão de Valderez Antonio Bergamo Silva como secretário de Cultura, ficou decidido que a Prefeitura priorizaria a Festa do Salto, no dia 8 de setembro, quando se comemora o dia da padroeira da cidade, Nossa Senhora do Monte Serrat, e cancelou a Festa Ítalo-Saltense, alegando falta de recursos.

A diretoria da Associação Atlética Saltense, com apoio da Associação Italiana Giuseppe Verdi e entidades locais, realizou o evento. Naquele ano o poder público ajudou na concessão do alvará, segurança, ambulância, além de infraestrutura elétrica e hidráulica.

Em 2016

As primeiras reuniões para organizar a Festa Ítalo-Saltense de 2016 já aconteceram e envolveram o poder público, realizador do evento, e pessoas ligadas à comunidade italiana de Salto. Com previsão para acontecer de 27 a 29 de maio, será similar à edição anterior e fará parte das comemorações do 318º aniversário da cidade.

Em 2015, o sistema de food trucks (restaurantes/lanchonetes sobre rodas) atraiu um bom público, que apreciou as comidas típicas italianas servidas nos veículos. A renda obtida foi destinada às entidades assistenciais do município. Neste ano o evento será híbrido, ou seja, contará com barracas também, segundo o secretário Pardim. A ideia, inclusive, é que as barracas sejam do tipo utilizado nas quermesses antigas, com o objetivo de retomar a origem do evento.

O valor médio anual investido pela Prefeitura no evento gira em torno de R$ 35 mil a R$ 40 mil. Neste ano, no entanto, em função de cortes necessários para fazer frente à crise econômica por que passa o País, o orçamento definido ficou em R$ 20 mil.

Futuro da festa

Apesar das boas recordações pela realização das primeiras edições do evento, Wanderley Rigolin está insatisfeito com alguns acontecimentos. “Como é uma festa feita pela Prefeitura, conforme houve mudança na administração, ela foi sendo descaracterizada. No começo eram só atrações italianas. Depois colocaram alguns tipos de shows populares”, lamenta.

Para Rigolin, independente de crise econômica, contenção de despesas ou a desfiguração do evento ao longo dos anos, ele deve continuar sendo realizado. “Eu não vejo a festa como um gasto, mas sim como um investimento, pois atrai turistas à cidade. É difícil a Prefeitura ficar gastando com isso, embora eu pense que o poder público tem a obrigação de dar à população momentos de lazer e cultura”, afirma.

Parceira na organização da Festa Ítalo-Saltense desde 2005, a Associação Italiana Giuseppe Verdi, fundada em 1903, conta atualmente com 175 sócios. Porém, para realizar o evento, segundo o presidente José Odair Peron, falta união das pessoas. “Os descendentes de italianos em Salto foram se dispersando, com o passar dos anos. Fizemos uma reunião com muitos deles, onde apresentamos a sociedade italiana e a festa, mas ninguém quer assumir compromissos”, afirma.
Peron acredita que a festa deveria ser autossustentável, mas considera isso uma utopia.

“Para que isso aconteça, devemos nos unir, contar com apoio de empresas e também o envolvimento das igrejas. Temos em Salto o exemplo da associação japonesa (Associação Nipobrasileira de Salto), que tem feito sua festa, muito bem organizada, por sinal”, explica.
Em agosto deste ano, quando a associação completa 113 anos, será realizada uma minifesta, aos moldes das festas de San Gennaro, São Vito e Nossa Senhora de Achiropita, realizadas na capital paulista, com barracas de comidas e bebidas típicas, música, missa em língua italiana etc. “Talvez seja um ‘embrião’ de um evento que possamos organizar sozinhos, com o apoio do poder público”, comenta Peron.

Fabiana Franco

Flagrante da 1ª Festa Ítalo-Saltense, realizada na antiga Brasital – Acervo Museu da Cidade de Salto

Wanderley Rigolin, idealizador da Festa Ítalo-Saltense – Fabiana Franco

Marcos Pardim, secretário de Cultura da Prefeitura, promotora da festa – Arquivo Jornal Estância

José Odair Peron, presidente da Associação Italiana Giuseppe Verdi – Fabiana Franco

Centro Esportivo João Luiz Guarda também sediou a festa – Acervo Museu da Cidade de Salto

Evento deste ano terá o Food Trucks, como em 2015 – AI Prefeitura de Salto

Italianos em Salto

Com a expectativa de vencer numa terra distante, os primeiros imigrantes desembarcavam no porto de Santos/SP e eram conduzidos para o interior do Estado, por volta de 1850. E as fazendas de café eram um estágio quase inevitável. “Com os maus-tratos e o descumprimento de acordo por parte dos patrões, muitos acabaram indo para o meio urbano, também atraídos pelas fábricas que se instalavam na cidade”, conta Valderez Antonio Bergamo Silva, historiador e produtor do documentário “Italianos em Salto – Memórias de uma aventura”.

Com a fusão de duas tecelagens construídas inicialmente à margem do rio Tietê – a Júpiter e a Fortuna –, e compra por parte da Societá Ítalo-Americana, empresa de capital italiano, a presença de italianos nas empresas se multiplicou, tanto no operariado quanto nos gestores, trazidos da Europa. Firmavam-se de vez a mão de obra, o capital e a técnica dos imigrantes.

Em 1905, a população de Salto somava 4.264 habitantes, sendo 3 mil italianos. Eles atuavam em trabalhos agrícolas e industriais, mas também no setor de cantaria (corte de granito), prestação de serviços como carroceiros (frete), comércio (bares, armazéns, e mercearias), hotelaria, carpintaria etc. (FF)

Foto de 1941: operários saindo da Brasital, considerado o alicerce italiano de Salto – Acervo Museu da Cidade de Salto

Valderez Antonio Bergamo Silva, historiador e produtor de um vídeo sobre os imigrantes italianos – Coleção Valderez Antonio Bergamo Silva



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