Idealismo e força de vontade

Comunidade superou desafios para organizar a Festa Italiana de Itu

Ano 2000. Padre Durval de Almeida, que poucos anos depois se tornaria monsenhor, assumia a chefia paroquial da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, em Itu/SP.

Para assessorá-lo nos desafios do dia a dia, o sacerdote nomeou três casais para integrarem o chamado Conselho Paroquial Administrativo (CPA): o empresário e contador Adilson Groblackner e sua esposa Rita de Cássia Benedetti Groblackner, o também empresário José Geraldo Piva e sua esposa Daisy Piva e o publicitário Corinto Luiz do Nascimento Arruda e sua esposa Selma Lucca Arruda.

Logo que começou seu trabalho, essa comissão se deparou com o estado físico precário do prédio da Matriz, realidade alardeada pela cidade. “Comentava-se sobre a situação catastrófica da igreja, que poderia acarretar, inclusive, queda de paredes, trincas grandes na estrutura, principalmente atrás do altar”, lembra Groblackner.

A preocupação era grande, ainda mais porque uma simples reforma não seria suficiente, haja vista que se tratava da Igreja Matriz de Itu, primeiro monumento da cidade a ser tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), em 1938. O então prefeito Leonel Salvador (PMDB) buscava em Brasília/DF recursos para a restauração, mas o pedido esbarrava em inúmeras dificuldades, segundo os conselheiros.

Chegou-se, então, à conclusão que a comunidade precisava criar uma forma de arrecadar fundos para recuperar o suntuoso prédio da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, padroeira do Município. Nascia ali o propósito da Festa Italiana de Itu.

Bons exemplos

O CPA concluiu que organizar um grande evento seria o ideal para começar a levantar dinheiro para o restauro. Até então, as festas e eventos vinculados à Matriz angariavam recursos irrisórios para se projetar as melhorias necessárias. Não demorou e os membros do conselho imaginaram uma festa que homenageasse a imigração italiana e sua influência cultural, sobretudo numa cidade como Itu, repleta de famílias de ascendência italiana.

O primeiro passo foi ver de perto como era organizada uma festa do gênero. Assim, em 2001, o CPA e outros cinco casais da comunidade foram conhecer a famosa Festa de San Gennaro, no Bairro da Mooca, em São Paulo. Ao chegar lá, os ituanos ficaram impressionados com a estrutura criada em torno daquele evento, principalmente com a quantidade de voluntários.

Empolgada, a comitiva ituana resolveu conhecer também a Festa Italiana de Jundiaí/SP, mais próxima e cuja comunidade pertence à mesma diocese. Se na Mooca, na capital, os ituanos não tiveram acesso a informações sobre o aspecto financeiro da festa, em Jundiaí foi diferente. “Eles abriram para a gente como era feito o controle, o custo dos produtos, como era administrada a margem de lucro, o vínculo da festa com a organização bancária para segurança, enfim, todos os detalhes”, ressalta Groblackner, que é contador profissional. Com esses dados em mente, a comitiva retornou a Itu e iniciou os preparativos para a 1ª Festa Italiana.

Mãos à obra

Com o aval do padre Durval de Almeida, o CPA planejou realizar a primeira edição do evento nos dias 25, 26 e 27 de janeiro e 1º, 2 e 3 de fevereiro de 2002, já se envolvendo com os festejos da padroeira e do aniversário de Itu. O tempo para organizar tudo era de praticamente seis meses e cada dia era precioso. Em busca de recursos para viabilizar a festa, o publicitário Corinto Arruda, que na época era gerente de marketing da Primo Schincariol Indústria de Bebidas e Refrigerantes, atual Brasil Kirin, apresentou uma proposta ao empresário Nelson Schincariol, que autorizou sua fábrica a ser a patrocinadora principal do evento, especialmente por poder contribuir na restauração da Igreja Matriz.

A Schincariol também ajudou a abrir portas aos organizadores da festa de Itu, já que também patrocinava as festas da capital e de Jundiaí. Foi assim que novas contribuições foram incorporadas à Festa Italiana de Itu, envolvendo, por exemplo, os fornecedores de ingredientes para os alimentos que seriam comercializados. O Grupo Lorenzon logo se somou aos patrocinadores e à causa do restauro, passando a fornecer equipamentos. Para custear a propaganda necessária, a organização contou com a colaboração de algumas empresas, como o Grupo Maggi e o Pesqueiro Maeda.

A participação do poder público também seria fundamental. Entretanto, restrições legais quanto ao apoio a eventos religiosos acabaram não trazendo o respaldo que os organizadores esperavam. Ainda assim, a Prefeitura local deu suporte em áreas como transporte e trânsito.

Local e estrutura

Corinto Arruda lembra que a ideia original era realizar a 1ª Festa Italiana de Itu na Praça Padre Miguel (Largo da Matriz), mas os organizadores temiam que o local, que recentemente havia sido revitalizado, fosse alvo de depredação. Assim, planejaram fazer a festa na Rua Barão do Itaim. “Foi um sacrifício fazer lá. Tivemos que ir de casa em casa das pessoas junto com o padre, várias foram contra, outras a favor, foi complicado”, admite Corinto.

As barracas para a primeira edição, cedidas pela Schincariol, foram montadas do lado da calçada da igreja, sendo que metade da rua ficou liberada ao tráfego para acesso dos moradores da rua, sobretudo os do Edifício Novo Itu. Para tanto, o Grupo Lorenzon colocou barreiras de contenção para separar a área de pedestres da festa da área para trânsito de veículos.

A estrutura das barracas, com mesas de suporte para que as equipes preparassem e manuseassem os alimentos, foi fabricada graciosamente pela Metalúrgica Convenção de Itu, empresa que tinha como um de seus proprietários José Geraldo Piva, que integrava o CPA e a organização da festa. “A mão de obra foi nossa, mas tivemos grande contribuição também do Grupo Padovani e da Mecânica Famma”, recorda Piva, cujo trabalho também foi primordial na montagem da cozinha industrial nas dependências da igreja, com sua estrutura toda em inox e um sistema próprio para manipulação e preparo dos alimentos.

Improvisos e o legado

A festa teve início em janeiro de 2002 e, por ser a primeira, imprevistos e improvisos de certa forma faziam parte do roteiro. Logo de cara, São Pedro não ajudou. “A inauguração foi numa sexta-feira, mas uma chuva muito forte nos surpreendeu. Não tinha condição, molhou tudo. Voltamos só no dia seguinte”, lembra Corinto.

Os artistas contratados para a primeira edição da festa se apresentaram apenas dentro do salão paroquial da Matriz, onde funcionava o restaurante da festa. Do lado de fora, na Rua Barão de Itaim, o som foi improvisado. “Quem podia levava um aparelho de som para a sua barraquinha”, fala Corinto.

Estima-se que um público de 6 mil pessoas prestigiou o evento nos dois finais de semana e a estrutura para o atendimento deste público também teve improvisos. “A experiência que tínhamos até então era a de uma quermesse, em que uma doação de 100 quilos de trigo, por exemplo, é bastante significativa. Já na primeira Festa Italiana foram usados 600 quilos de trigo”, compara Piva. “Foi bem conturbado. Houve muito improviso”, acrescenta.

Apesar das dificuldades, o que sobrava aos organizadores era empenho. “Força de vontade tínhamos demais”, diz Corinto. Aliás, essa dedicação contagiou todos os voluntários, cujo número na primeira festa chegou a 500 pessoas. Este foi o principal legado da festa. “O maior resultado não foi o levantamento de recursos para o restauro, mas sim o grande envolvimento da comunidade nessa festa”, analisa Groblackner.

Antonio Rafael Júnior

Rua Barão do Itaim tomada pelo público numa das primeiras edições da Festa Italiana de Itu – Coleção Manoel Camargo (Maneco)

Cantor italiano Fred Rovella se apresenta na Festa Italiana de Itu desde a sua primeira edição, em 2002 – Tucano

Da esquerda para direita, Adilson Groblackner, José Geraldo Piva e Corinto Luiz do Nascimento Arruda. Com suas esposas, eles lideraram a criação e organização da Festa Italiana de Itu – Antonio Rafael Júnior

Na festa de 2007, área com mesas e bancos para o público ficava na Rua Monsenhor Monteiro, na lateral da Casa do Barão – Tucano

Monsenhor Durval de Almeida (dir.) e Dom Joaquim Justino Carreira, bispo auxiliar de São Paulo, durante homenagem às famílias de descendentes de italianos – Arquivo do Jornal “A Federação”

Colaboradores comandam a cozinha industrial da Igreja Matriz na festa de 2008 – Arquivo do Jornal “A Federação”

Voluntários prontos para o trabalho na barraca do pastel da Festa Italiana de 2009 – Arquivo do Jornal “A Federação”



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