Imigrantes e refugiados, passado e presente

Um olhar sobre a História dos povos que deixaram suas terras em busca da dignidade em outros mundos

Carlos Augusto de Campos Valio

Desde os tempos coloniais a agricultura voltada para a exportação foi a marca histórica da economia brasileira. Em meados do século 19 a cafeicultura se tornou o principal negócio para os fazendeiros de São Paulo do Vale do Rio Paraíba do Sul e principalmente do Oeste paulista. Evidentemente os bons números das exportações de café exigiam numerosa mão de obra, a imigração europeia foi a solução. Dentre os grupos de trabalhadores europeus que vieram ao Brasil destaca-se o de italianos, seguido por portugueses, espanhóis, alemães e outros.

Pode-se afirmar que a cafeicultura foi o maior responsável pela imigração italiana ao Brasil. Em meados do século 19 o oeste paulista necessitava de muitos braços para as lavouras de café. Naquele momento o tráfico de escravos, bem como a escravidão, apresentava-se em declínio por causa das leis abolicionistas, especialmente a Lei Eusébio de Queiroz (1850) e a Lei Áurea (1888), e ao mesmo tempo a demanda pelo consumo da bebida no mundo aumentava.

Possivelmente um cartaz pregado em algum canto da Itália tenha alimentado a curiosidade sobre o Brasil. Promessa de terras abundantes e férteis por aqui motivou milhares de italianos a abandonar seu país, atravessar o Atlântico, por vezes em condições precárias, e tentar uma nova vida. Há de se observar que as condições sociais, econômicas e políticas da Itália na segunda metade do século 19 eram extremamente adversas e, então, encorajadoras para se tentar uma nova vida num país tropical da América. Era o sonho americano se tornando realidade no Brasil.

Enormes dificuldades fizeram parte da vida de muitos italianos, como por exemplo, o preconceito, as péssimas acomodações, a precarização das relações e condições de trabalho etc, geraram uma espécie de cicatriz nos imigrantes e seus descendentes.

Mas, quando olhamos ao redor percebemos muito de italiano em nosso cotidiano. Os olhos claros, o gestual exagerado, as conversas em tom mais alto que o normal, as festas religiosas, a culinária e muito mais. O brasileiro assimilou o jeito “italianado” muito peculiar e maravilhoso. Dizem que nossa pizza chega a ser melhor do que a deles.

Muitos italianos venceram as difíceis barreiras para iniciar uma nova vida bem longe de sua terra. A imigração foi um fenômeno de aprendizagem para quem veio e para quem já se encontrava aqui.

Para uma análise mais abrangente, vale comparar o Brasil do século 19 com o de hoje. Antes predominava o campo sobre a cidade: a população rural era imensamente maior que a urbana. Só para se ter uma ideia, a população da cidade de São Paulo no ano de 1900 era de 240 mil habitantes (Fonte: site da Prefeitura Municipal de São Paulo). Hoje está estimada em quase 12 milhões (IBGE/2015). Certamente a presença de imigrantes contribuiu para o gigantismo da capital paulista. Muitas cidades do interior do Estado também beberam da fonte imigratória, basta ver as festas religiosas, as associações e clubes italianos e os sobrenomes das famílias. É inegável a importância desse passado para se entender o presente.

Novos movimentos

As notícias da atualidade dá conta de um enorme e importante movimento populacional em curso. Se um dia a Europa exportou seus povos, agora é o velho continente que recebe milhares de refugiados. A guerra, a extrema pobreza, as perseguições políticas e até as mudanças climáticas são os principais motivos causais do deslocamento de hordas de refugiados do Oriente Médio e da África para a Europa. Buscam, esses imigrantes do século 21, a reconstrução de suas vidas com um mínimo de dignidade. Sendo assim, desejam alcançar aqueles países mais ricos do continente. Os refugiados de nosso tempo enfrentam inúmeras dificuldades para se assentar em algum lugar da Europa. São conduzidos por corredores com cercas vigiadas e submetidos a humilhações, além de serem acomodados em acampamentos precários. A reação por parte de muitos europeus é instantânea: intolerância, preconceito e violência. Esse tratamento pode ser explicado pelo medo da perda de seus empregos e direitos sociais, bem como pelo temor por ataques terroristas.

Inevitavelmente esses homens e mulheres de várias idades e oriundos de muitos lugares permanecerão no Velho Mundo. Num futuro incerto, mas não tão distante, o europeu assimilará as novas culturas, os novos hábitos, as novas tradições e daí despontará um novo jeito de falar, vestir, comer, orar, quebrando os paradigmas históricos do eurocentrismo.

Enquanto isso, muitos conflitos ocorrerão, pois há um crescimento da intolerância como a xenofobia, o racismo, a islamofobia e preconceitos em geral pela Europa. Eis o que rouba o sono de governantes: Como lidar com essa nova ordem? Como promover o equilíbrio econômico e social? Como adequar os sistemas jurídicos vigentes às novas demandas? Como enfrentar os desafios que se apresentam diante dos novos cenários?

A História da humanidade e seus paradoxos pregando peças. A mesma Europa que mandou sua gente para povoar o mundo hoje quer fechar suas portas para os povos do mundo.

Povo em frente ao Paço Imperial, no Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1888, quando foi abolida a escravatura – Wikimedia Commons/Domínio Público

Imigrantes italianos durante embarque para o Brasil em 1910 – Acervo Museu da Imigração do Estado de São Paulo

Produção brasileira de café para exportação motivou a contratação de imigrantes. Na foto, o carregamento de um navio em Santos/SP, em 1910 – Acervo Museu da Imigração do Estado de São Paulo

Refugiados sírios e libaneses caminham da Hungria para a Áustria. Eles que fogem de regiões do Oriente Médio ocupadas pelo Estado Islâmico – Reuters

A imagem do menino sírio Aylan Kurdi, que morreu durante o naufrágio de uma embarcação de refugiados, chocou o mundo – Agência France Press

Carlos Augusto de Campos Valio é educador do Colégio Cidade de Itu – Anglo e Colégio Anglo Salto, Graduado é Pós-Graduado em História e Professor de História do Sistema Anglo de Ensino – Coleção Carlos Augusto de Campos Valio



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