Imprensa italiana

Jornal Fanfulla fazia integração dos imigrantes italianos em São Paulo

Mais de cem anos separam a primeira edição do jornal Fanfulla do conteúdo eletrônico atual, disponível no site da publicação que se tornou a de maior relevância entre os jornais ítalo-brasileiros. Fundado pelo imigrante italiano Vitaliano Rotelini, o Fanfulla atingiu a tiragem de 20 mil exemplares em 1915 e de 40 mil em 1934, garantindo-lhe a colocação de segundo jornal com maior tiragem em São Paulo, ficando atrás apenas de O Estado de S. Paulo.

Quando surgiu, em 1893, o Fanfulla era um semanário que circulava aos domingos e tinha como objetivo servir como meio de integração e informação entre os imigrantes italianos e seus descendentes que viviam em São Paulo/SP. A publicação possibilitava que eles lessem as notícias no idioma italiano, além de se manterem informados sobre os acontecimentos na Itália.

Até 1965 o jornal foi diário. Passou a ser publicado semanalmente, já com o nome A Settimana, a partir de novembro de 1966. Em 1979, recebeu nova denominação passando a La Settimana Del Fanfulla. Em 1999, capa e contra capa ganharam cores. Em 2001, voltou a ter o nome inicial. Com a criação, em 2009, do website www.jornalfanfulla.com a publicação ingressou na fase denominada “nova gestão Fanfulla”.

No ano de 2011, mais mudanças marcaram a história do Fanfulla que passou a ser quinzenal, publicado com cores em todas as páginas, além de ter seu site reformulado e aprimorado, o que possibilitou aos assinantes o acesso on line das edições. De janeiro de 2012 a dezembro de 2013, o Fanfulla contou com edição impressa e digital, por meio de download das páginas. Esse acesso foi disponibilizado a qualquer visitante, sem necessidade de assinatura, em 2013. No ano seguinte, o jornal impresso deixou de existir.

Embora disponível somente pela internet, a publicação manteve o conteúdo jornalístico bilíngue, em sua maior parte relacionado à Itália e destinado à comunidade ítalo brasileira.

O jornal Fanfulla também contribuiu de forma significativa para o esporte nacional. Foi por meio dessa publicação que Vicente Ragognetti convocou a colônia italiana para fundar uma equipe de futebol, em 1914, dando origem ao Palestra Italia, atual Sociedade Esportiva Palmeiras.

Hoje

O atual proprietário e editor do jornal Fanfulla, Leandro Dellarole, observa que a referida publicação era o meio de comunicação dos imigrantes com a sua terra natal. “Além de manter informação do país de origem, inclusive por meio de cartas entre familiares através do próprio, serviu para integrar os italianos e seus descendentes, envolvendo-os na realidade brasileira. Um meio útil para qualquer finalidade, assim como uma poderosa ferramenta de elo”.

Dellarole tornou-se proprietário e editor do Fanfulla no final de 2010 e, segundo ele, as maiores dificuldades que tem enfrentado são manter a organização e atualização editorial totalmente sozinho, quando simultaneamente também cuida de todas as outras partes do negócio e paralelamente se executa atividades profissionais alternativas que não estão vinculadas ao jornal e conseguir apoio comercial (anúncios), que atualmente é a única forma de renda do veículo.

Estar à frente de um jornal que existe há mais de 120 anos e é considerado o principal representante da imprensa italiana no Brasil tem oferecido a Dellarole uma experiência ímpar. “A honra e o prestígio na forma de entusiasmo foram fatores enérgicos essenciais para exercer o trabalho de recuperação, continuidade, e evolução, atrelados a um gradativo e crucial aprendizado, na mesma medida em que a sensação de solidão profissional se mescla com uma concepção realista da situação de dificuldade. Isso quer dizer, como em qualquer ser humano, existe uma constante conciliação entre esforço, desejo, orgulho e medo, decepção, imprevisibilidade”, comenta.

Hoje, a equipe do Fanfulla se resume praticamente a seu editor. Dellarole trabalha de maneira autônoma, mas eventualmente conta com a colaboração em caráter espontâneo de algumas pessoas, tanto na área editorial (artigos) quanto comercial (venda de inserção).

A partir de 2014, com a extinção do jornal impresso, os leitores do Fanfulla passaram a ser pessoas com simpatia e/ou interesse pela cultura e língua italianas, ítalo-descendentes ou não.

O jornal encerrou seu legado impresso como quinzenal. Para o site não existe regra de periodicidade, já que é alimentado de maneira livre, de acordo com as possibilidades do editor. Em função disso, a preferência é por temas atemporais e voltados aos universos das artes e entretenimento, eventos públicos, turismo, ciência, tecnologia, esporte e lazer. Não estão descartadas, porém, esporádicas matérias sobre política, economia, negócios e importantes acontecimentos no mundo. O site recebe aproximadamente 300 visitas por dia.

Dellarole afirma ainda que, no momento atual, não existem planos elaborados para o Fanfulla. A ideia, por hora, é manter o portal eletrônico no ar, vivo, e buscar aprimorá-lo sempre que possível quanto à estrutura estética e de conteúdo.

Correspondente em Itu

O italiano José Santoro, fundador da centenária Casa Santoro e residente em Itu/SP, era o representante regional do Consulado Italiano na cidade e correspondente do jornal Fanfulla. O filho dele, Antonio Santoro, chamado carinhosamente por Toninho Santoro, era o responsável pela cobrança dos assinantes do jornal nos municípios paulistas de Itu e Salto.

Aos 92 anos, Toninho Santoro ainda se recorda dessa sua função, exercida quando tinha aproximadamente 15 anos, na década de 30. Conta que utilizava a jardineira (transporte público disponível naquela época) para se deslocar até a cidade de Salto. A estrada era de terra, o trajeto mais demorado do que nos dias atuais, mas ele não perdia a viagem porque os assinantes pagavam em dia a mensalidade, anotada no seu “caderninho”.
Ele se lembra de alguns sobrenomes de famílias de assinantes em Itu como Batistti, Gianini, Iarussi, Limongi e Gliorio, e também de outros em Salto, entre eles Biffe, Scarano e Bifano.

Angélica Estrada

A partir de 1893, imigrantes italianos (na foto, em frente à Hospedaria dos Imigrantes), passaram a contar com publicação em seu idioma – Acervo Museu Republicano Convenção de Itu/MP

Logo do Fanfulla traz escritas em Português e Italiano – Acervo Jornal Fanfulla

Capa da edição do jornal Fanfulla, publicada em 14 de dezembro de 2000 – Acervo Jornal Fanfulla

Dellarole destaca a importância do jornal como meio de comunicação dos imigrantes com sua terra natal – Coleção Leandro Dellarole

Antonio (foto) mostra placa indicando que seu pai José Santoro era correspondente do jornal Fanfulla – Tucano

Homenagem a um militar
O nome escolhido para a publicação foi uma forma de homenagear o líder Fanfulla da Lodi (entre 1470 e 1480-1525), identidade de batalha do herói italiano nascido na província de Lodi, região da Lombardia, Noroeste da Itália. Historiadores italianos divergem sobre o verdadeiro nome do líder; sendo as principais hipóteses Bartolomeo Giovenale, Giovanni Fanfulla, Giovanni Bartolomeo Fanfulla e Bartolomeo Tito Alon. O mais aceito entre os estudiosos é Giovanni Bartolomeo Fanfulla, por ser o nome mencionado em vários cupons do Tesouro de Nápoles, que são as únicas provas de sua existência e atividades. O Tesouro de Nápoles é considerado a maior coleção de pedras preciosas do mundo e originou-se da riqueza oferecida durante séculos pelos devotos de São Januário de Benevento, patrono de Nápoles (AE).

Box foto - fanfulla estatua

Monumento homenageia Fanfulla da Lodi em Lecce, na Itália – www.leceesette.it



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