Uma fé muito antiga

Festa do Jacuhú, em Itu/SP, é uma das mais tradicionais do gênero no Brasil

Há cerca de 80 anos a tradicional Festa do Jacuhú ocorre anualmente no mês de outubro, na cidade de Itu/SP, ocasião em que famílias inteiras se reúnem para fazer orações e confraternizar. A tradição remonta aos costumes de imigrantes italianos (em sua maioria oriunda de Trento), fundadores do Bairro do Jacuhú, situado na zona rural do município e distante 12 quilômetros da região central.

Os primeiros italianos a habitar aquela região foram Domênico Francischinelli, seus primos Ângelo e Jácomo, e o amigo João Batista Daldon que, depois de cinco anos de trabalho como colonos em fazendas próximas, adquiriram em 1880 um sítio de 24.200 hectares no Bairro Itaim-Guaçu, o qual batizaram de Colônia do Jacú, em alusão a uma espécie de ave comum na redondeza. No entanto, antigos moradores do Jacuhú não sabem explicar a diferença das grafias do nome da ave e do bairro; há quem arrisque que talvez fosse a ortografia da época. O que se sabe de fato é que naquele sítio os italianos formaram parreiras de uvas e passaram a fabricar vinho para vender; o lucro obtido era repartido fraternalmente. Os imigrantes cultivavam ainda produtos e animais para o próprio consumo.

No mesmo local, numa demonstração da fé que trouxeram de sua terra natal, ergueram com seus próprios esforços uma pequena capela de madeira e nela abrigaram as imagens de Nossa Senhora Auxiliadora e do Anjo da Guarda, ambas trazidas da Itália. Em 1890, quando da inauguração da capela pelo padre Bartolomeu Taddei, houve festa, fogos de artifício e cânticos em italiano. A data marcou uma nova conquista para aqueles imigrantes e seus descendentes: a de receber no local atendimento religioso uma vez ao mês.

Em 1905 uma nova capela foi edificada, dessa vez em alvenaria. A imagem do padroeiro – Sagrado Coração de Jesus – foi entronizada em 1925. E foi a religiosidade do povo italiano que alicerçou a festa, ali mesmo na capela do bairro, tradição que perdura por várias gerações.

Moacyr Daldon, neto do pioneiro João Batista Daldon, seguiu os passos de seus antepassados e ainda trabalha para manter essa tradição. A exemplo de seu pai Attílio, que tanto se dedicou à Festa do Jacuhú, Moacyr tem envolvido seus filhos nos preparativos do evento, assim como seu pai fez outrora com ele e o irmão Esmael. Quando dessa transferência de responsabilidade pela organização, coube a Moacyr a incumbência da preparação da festa (coordenação das barracas de comidas e bebidas, contratação do grupo musical para animar o evento e supervisão do andamento de toda a comemoração) e a Esmael, a parte religiosa.

Nelson Daldon, que nasceu e ainda reside no Jacuhú, mantém algumas tradições religiosas dos fundadores do bairro. Aos 79 anos, ele reza o terço semanalmente (intercalando uma semana na capela do Jacuhú e outra na capela particular do Sítio Santo Antonio, de propriedade da família de Roberto Francischinelli, que também reside nas imediações).

Essa demonstração de fé ocorre há 60 anos e inclui ainda as realizações da via sacra durante a Quaresma, assim como as novenas do Divino Espírito Santo e do Natal. Nelson e Roberto são descendentes das famílias fundadoras e nunca se mudaram do local.

Edições anteriores

Pode-se afirmar que uma das mais marcantes lideranças religiosas à frente da Festa do Jacuhú foi monsenhor Camilo Ferrarini, falecido em 2003. O religioso chegou a Itu em 1971, onde permaneceu como pároco da Igreja Matriz Nossa Senhora Candelária até 1994.

Em uma das muitas homilias que fez na Capela do Jacuhú, em 1999, monsenhor destacou a importância da fé dos primeiros imigrantes italianos para superar as dificuldades e vencer na vida.

Além do caráter religioso, a festa também ficou conhecida pela animação, comum entre os italianos e seus descendentes. Moacyr relembra que até o final dos anos 40, a Festa do Jacuhú contou com apresentações da hoje centenária Corporação Musical União dos Artistas, fundada em Itu por abnegados músicos, muitos também de origem italiana.

Segundo ele, outra grande atração da festa era o leilão, que foi mantido até a segunda metade dos anos 90. Moacyr fala que uma boa quantia era arrecadada com o leilão. “Tinha gente que doava a prenda, arrematava e doava de novo”, recorda. Com o passar das edições, a festa teve sua estrutura cada vez mais aprimorada. Atualmente, todos os equipamentos necessários ao preparo dos alimentos estão disponíveis no local.

Os sanitários foram adaptados com fraldários e também para o uso de cadeirantes, inclusive com chuveiros. Conta ainda com estacionamento de 22 mil metros quadrados.

Todas essas melhorias foram promovidas graças aos rendimentos das festas e amor à tradição.

Muitas são as famílias que colaboram para a viabilização da Festa do Jacuhú, entre elas os festeiros da Capela e os festeiros da Bandeira. Já a Comissão Organizadora da Festa do Jacuhú, segundo Moacyr, é formada por ele e o irmão Esmael, Vagner Daldon, Nelson Daldon e a esposa Odila, Cláudio Madela, Roberto Francischinelli, Eriberto Bertolucci, além de Benedito, o caseiro da propriedade, que muito colabora para que tudo esteja perfeito para os dias de festa.

110 anos

Em 2015, a Festa do Jacuhú teve um significado ainda mais especial, uma vez que comemorou os 110 anos da construção da denominada “nova” Capela do Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora Auxiliadora, erguida 15 anos depois da primeira edificada pelos imigrantes italianos.

As comemorações seguiram os ritos católicos litúrgicos e a tradição da festa. Houve tríduo com terço e cânticos, celebrações religiosas, levantamento do mastro com a bandeira do Sagrado Coração de Jesus, procissão, queima de fogos de artifícios, jogos e brinquedos para as crianças e shows musicais durante a festa.

Na Praça de Alimentação, famílias inteiras puderam se deliciar com as diversas opções de comidas e bebidas como frango assado, costelão, porções de frango a passarinho, leitão à pururuca, pastel, polenta, churrasco, pizza, crepe suíço, doces, sorvetes, bebidas e pipocas. Moacyr afirma que o montante arrecadado com a festa é revertido para a manutenção da Capela do Jacuhú, em auxílio à Paróquia de São Cristóvão, em Itu, e a outras entidades religiosas da cidade e municípios vizinhos.

Tanto tempo depois da primeira festa, o sucesso é mantido graças a participação cada vez maior de público a cada edição. E o segredo pode ser atribuído aos primeiros imigrantes italianos do Jacuhú, que fizeram questão de transmitir aos seus descendentes a importância da união entre as famílias. “A festa existe graças à união, uma tradição que vem de nossa origem. As famílias procuram manter a festa, mesmo com dificuldades”, avalia. De acordo com ele, o “pessoal da cidade, parentes e amigos” vão à festa, que conta ainda com ajuda da Prefeitura de Itu e de patrocinadores.

Moacyr ressalta que o ambiente da Festa do Jacuhú é familiar. “A festa não é tradicional, é super tradicional. E a gente precisa fazer o melhor possível para atender bem quem comparece”, observa Moacyr.

Angélica Estrada

O Bairro do Jacuhú ficou marcado pela religiosidade dos imigrantes italianos – Acervo da Capela do Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora Auxiliadora

Nelson Daldon mostra placa em homenagem às famílias italianas que fundaram o Bairro do Jacuhú – Tucano

Imagens de Nossa Senhora Auxiliadora e do Anjo da Guarda, trazidas da Itália, ainda estão na capela – Tucano

Imagens de Nossa Senhora Auxiliadora e do Anjo da Guarda, trazidas da Itália, ainda estão na capela – Tucano

Durante edição da Festa Italiana de Itu, em que foram homenageadas as famílias Daldon e Fioravanti, Nelson Daldon entregou ao bispo auxiliar de São Paulo, Dom Joaquim Justino Carreira, um quadro que conta a história dos imigrantes no Bairro Jacuhú – Tucano

Comemoração dos 95 anos da fundação da capela do Jacuhú. Attílio Daldon (ao centro) manteve viva a tradição herdada dos italianos e a transmitiu aos mais jovens – Acervo da Capela do Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora Auxiliadora

Fachada e parte interna (destaque) da atual capela no Bairro do Jacuhú – Tucano

Fachada e parte interna (destaque) da atual capela no Bairro do Jacuhú – Tucano

Monsenhor Camilo Ferrarini esteve presente no encontro dos descendentes das famílias italianas do Bairro do Jacuhú. No destaque, o religioso durante celebração litúrgica – Acervo da Capela do Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora Auxiliadora

Monsenhor Camilo Ferrarini esteve presente no encontro dos descendentes das famílias italianas do Bairro do Jacuhú. No destaque, o religioso durante celebração litúrgica – Acervo da Capela do Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora Auxiliadora

Registro de outubro de 1905, quando houve a mudança da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora e do Anjo da Guarda da capela antiga para a nova – Acervo da Capela do Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora Auxiliadora

De Trento para Jacuhú
Com o objetivo de manter as tradições históricas e costumes da região de Trento, Itália, surgiram no século 20 os Círculos Trentinos. Atualmente, existem organizações semelhantes nos seguintes Estados brasileiros: Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Somente em São Paulo, além de um Círculo Trentino em funcionamento na capital, há outras unidades no interior (Jaú, Jundiaí, Pedrinhas Paulista, Piracicaba e Santa Olímpia).

No Círculo Trentino de Piracicaba, do qual participam várias pessoas que residem em Itu, são aproximadamente 5 mil sócios. Entre as atividades desenvolvidas estão a Festa da Imigração, a Festa do Vinho e a Festa da Polenta. Nesses eventos, além da parte religiosa, há apresentações de danças típicas e comidas e bebidas que remetem à cultura da região de Trento. (AE)



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