Como surgiram os nomes de ruas e praças

A praça desempenhou um papel crucial na Antiguidade

Na Antiguidade greco-romana a praça era o espaço público de maior importância da cidade, o seu centro vital. Representada na figura da Ágora ou do Fórum, a praça desempenhava um papel crucial, era o espaço onde se estabeleciam as relações sociais e no qual o conceito de “vida cívica” se fazia presente.

Na Idade Média, articulada à escala urbana, a praça definiu-se pelo contraste do vazio com a densa paisagem, estruturando os espaços: praças de mercado, praça da igreja, praça cívica, praça central, praça de entrada. A praça era também o lugar onde se demonstrava o poder das leis, os julgamentos e as execuções públicas. As praças medievais eram a manifestação da diferença entre a autoridade secular e eclesiástica, distinção que a Antiguidade não fazia, como registrou no século 19 o arquiteto e historiador austríaco Camilo Sitte.

O Século das Luzes assistiria à reestruturação do sentido da vida pública, quando a rua e a praça perderam força como símbolos de espaços públicos e os teatros, bares e cafés tornaram-se alternativas de locais de sociabilidade nas cidades europeias. Entretanto, a mudança estrutural na escala da cidade só aconteceria no século 19, com o crescimento acelerado e a necessidade de intervenções mais abrangentes e não restritas a pontos específicos. O crítico e historiador francês Michel Ragon, ao comentar o novo papel da circulação em Paris naquele período dizia que essas intervenções modificaram e transformaram a configuração urbana da cidade: “O modelo da rua tradicional é substituído por um sistema de circulação de fluxo contínuo. Novos elementos urbanos surgem para compor um repertório de signos. A praça assume o papel de elemento de composição do sistema viário – lugar de passagem, entroncamento…”.

Respeito à geografia

A professora Júnia Marques Caldeira, doutora em História pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), explica que no universo português, a partir do século 15 a necessidade de criação de vilas para o povoamento das colônias serviu de laboratório para programar novas diretrizes urbanas. Os traçados urbanos que se desenvolvem tanto em Portugal quanto no Brasil representam o aparente triunfo da racionalidade e revelam especificidades, que se tornaram marca registrada das cidades portuguesas, como por exemplo, o respeito e a interação com a geografia e a topografia do lugar escolhido para implantá-las.

Em alguns casos, a adaptação do traçado urbano às características dos terrenos acidentados acarretou um descompasso entre o uso do traçado racional sobre uma topografia irregular, como é o caso da cidade de Salvador/BA. Ao mesmo tempo, essa especificidade gerou uma maior diversidade de traçados urbanos na América portuguesa, criando notáveis diferenças com o traçado quadriculado, ou em tabuleiro, empregado nas cidades da América espanhola, como por exemplo, o traçado urbano de Buenos Aires, Argentina.

No que diz respeito aos elementos morfológicos do espaço urbano, uma diferença fundamental na colonização portuguesa em relação à espanhola é o papel desempenhado pela praça. Nas cidades coloniais espanholas, em decorrência da aplicação de regras e diretrizes previstas nas Leyes de Indias, esse espaço público era denominado Plaza Mayor e representava o centro geográfico da cidade, composto pelos mais importantes edifícios institucionais. Já a praça portuguesa resultava de uma prática urbanística cuja prioridade estava na adequação do traçado à topografia do terreno. Essa “espontaneidade morfológica”, no entanto, seguia certas orientações correspondendo à existência de parâmetros em relação à localização dos edifícios institucionais no espaço urbano.

Antigas ruas ganham nomes

As intervenções que modificaram e transformaram a configuração urbana de Paris no século 19 vieram acompanhadas de alterações de nomes de alguns dos antigos logradouros da cidade. Por exemplo, a consagração do nome de Rue Saint-Jacques para uma das mais antigas ruas da cidade, na margem esquerda do Rio Sena, parte dela situada no Quartier de la Sorbonne. O seu traçado, aberto no período da dominação romana e muito utilizado na Idade Média pelos peregrinos que se dirigiam a Santiago de Compostela, mudou muitas vezes de nome até se firmar o atual.

Por outras razões, a atual Place de la Concorde também teve vários nomes. Quando de sua criação era Place Louis XV; no período jacobino, palco das execuções pela guilhotina, tornou-se Place de la Revolution; em 1795, sob a batuta dos girondinos, converteu-se em Place de la Concorde; voltou a ser Place Louis XV em 1814; Place Louis XVI em 1823 e Place de la Charte em 1830. Louis Philippe I (rei dos franceses de 1830 a 1848), visando à concórdia nacional, promoveu o retorno da denominação que perdura até hoje.

No bairro de Chelsea, em Londres, a King’s Road (Rua do Rei) tornou-se via pública somente na segunda metade do século 19. Construída durante o reinado de Charles II para ligar os palácios de Westminster e Saint James ao palácio Hampton Court, ali só era permitida a passagem de quem tinha uma autorização real. Já a Exhibition Road, em South Kensington, famosa por abrigar importantes museus e instituições universitárias, recebeu o nome devido à Grande Exposição de 1851, realizada no interior do Hyde Park, no extremo Norte da estrada.

Nomes populares

Quem passear nas proximidades da Puerta de Toledo, no Bairro do Palácio em Madrid, Espanha, poderá topar com uma tranquila rua residencial chamada curiosamente de Calle de la Ventosa. Chamava-se no século 18 Calle de la Paloma Baja até que uma moradora muito popular mudou o seu destino. Nela morava a curandeira Juana Picazo, famosa por ganhar o pão de cada dia tratando os seus pacientes com ampolas de vidro, que funcionavam como ventosas. Segundo ela dizia, o seu segredo estava nas próprias ampolas de vidro, que tinham pertencido ao padroeiro principal de Madrid, San Isidro.

Em Lisboa, a prática de atribuição de nomes de ruas por decreto seria inaugurada em cinco de novembro de 1760. Nessa data o rei Dom José estabeleceu a denominação dos arruamentos localizados entre a Praça do Comércio e o Rossio (hoje Praça D. Pedro IV), ao mesmo tempo em que regularizava a distribuição dos ofícios e ramos do comércio. Na Rua Nova da Princesa, por exemplo, foram arruados os mercadores de fancaria (tecidos grosseiros de algodão branco), destinando-se os espaços que sobrassem aos mercadores de quinquilharias. Após a revolução republicana de 1910 abandonou-se a denominação primitiva e consagrou-se o nome usado pelo povo, Rua dos Fanqueiros, que permanece até hoje.

Nos primeiros séculos da colonização da América portuguesa, os logradouros públicos também recebiam denominações atribuídas pelo próprio povo, tendo como motivos um aspecto da geografia local, a importância de um templo ou instituição religiosa, o nome de um morador muito conhecido ou a presença de uma atividade comercial.

Emplacamento das ruas

No livro “Vida e morte do bandeirante”, o piracicabano José de Alcântara Machado e Oliveira (1875-1941) cita alguns endereços paulistanos que ele recolheu em documentos dos séculos 16 e 17: “pegado com Pedro Taques”, “junto à casa da Fundição”, “junto aos muros dos frades de São Francisco”, “defronte do Colégio”, “defronte do pelourinho”, “defronte a cadeia”. Numa cidade pequena e com poucos moradores, todos se conheciam e bastavam essas poucas informações.

Em documentos compulsados pelo historiador Luis Soares de Camargo aparecem ruas com uma melhor identificação: ”a travessa que vai para as casas do defunto dom Simão”, “a rua defronte de João Paes”, “a rua em que mora Marcellino Camargo”, “a rua em que tem casas Francisco Furtado”, ou então menção a uma rua com maior precisão, “rua que vai da Misericórdia a Santo Antônio”.

Entre os séculos 17 e 18 já estavam abertas e denominadas no centro histórico da capital paulista as atuais Rua Boa Vista, Rua da Quitanda e a Rua Ladeira Porto Geral, dentre outras. No início do século 19, a Câmara Municipal de São Paulo tomou para si a incumbência de regulamentar à denominação dos logradouros públicos da cidade.

Em 1809, os vereadores paulistanos receberam um ofício do Ouvidor da Câmara, Miguel Antonio de Azevedo Veiga, ordenando a colocação de nomes em cada princípio de rua e os respectivos números em cada casa, “de maneira que em toda a cidade não fique rua, ou beco sem nome, assim como propriedade alguma de casa sem número no alto da porta”.

Até então não existia o emplacamento de ruas na cidade, pois elas eram identificadas “de memória” pelos seus moradores. Por determinação do Ouvidor, as ruas deveriam ter um nome oficial e cada uma dessas denominações ser escrita “em cada princípio de rua, na quina ou canto de casa”. Não se previa a utilização de placas. Somente em 1831 surgiria um tipo primitivo de placa, quando a Câmara Municipal ordenou ao fiscal “mandar afixar os competentes rótulos com as denominações nos logradouros”.

Jonas Soares de Souza

01 - ON 02bPraça medieval em Évora, Portugal

Praça medieval em Évora, Portugal – Câmara Municipal de Évora

02 - ON 01 - Planta da Ágora de Atenas no séc. IV a.C

Planta da Ágora de Atenas no século IV a.C – M. Kaplan – “Le monde grec”

03 - ON 05 Plaza Mayor, em Madri Foto Sebastian Dubiel - Wikipedia

Plaza Mayor, Madri – Sebastian Dubiel

04 - ON 07 Rue de Sain Jacques

Rue de Saint Jacques, Paris – Stroome

05 - ON 08 Rua dos Fanqueiros,, esquina com a Rua do Amparo. 1930 in arquivo do jornal 'O Século'

Rua dos Fanqueiros (esquina com a Rua do Amparo), Lisboa, 1930 – Acervo do jornal “O Século”

Sign of CALLE DE LA VENTOSA (street) in Centro district in Madrid (Spain).

Azulejos do artista Alfredo Ruiz de Luna González identificam a Calle de la Ventosa, em Madri – Wikimedia

07 - ON 11 Ladeira do Carmo  em 1862, atual Av. Rangel Pestana

Ladeira do Carmo, São Paulo, 1862 (atual Av. Rangel Pestana) – Coleção Jamil N. Abibe

C

Ladeira Porto Geral, São Paulo, 1916 – Coleção Jamil N. Abibe

09 - ON 13 Rua Boa Vista, 1950 - autor descolnhecido

Rua Boa Vista, São Paulo, 1950 – Coleção Jamil N. Abibe

 



Leia outras matérias

03 - times-square
Endereços notáveis pelo mundo
Editorial 106
Editorial
03 - digitalizar0026
Espaços públicos e cidadania
Carta