Datas inesquecíveis. Será?

Marcar datas relevantes em nomes de ruas é uma prática que nem sempre funciona

A Proclamação da República, em 1889, deu início ao processo de renomeação das ruas em todo o Brasil. A nova nomenclatura era uma tentativa de criar uma identidade republicana brasileira e de desvincular a sociedade da monarquia. Diversas nomenclaturas de origem popular deram lugar a nomes de personagens e datas relacionadas ao movimento republicano. Houve até lei federal que obrigou todos os municípios do País a atribuírem, por exemplo, a uma de suas ruas o nome de “Rua 15 de Novembro”, data do golpe que implantou o novo regime político.

A “15 de Novembro” de Itu/SP, no centro, começa na Rua Santana e segue até a Rua dos Andradas, para trânsito de automóveis. Dali até a Rua Santa Cruz é conhecida como Becão (mas tem a denominação oficial de Passeio Público Marcos Steiner Netto) e é aberta apenas para pedestres.

A ânsia de marcar datas politicamente importantes, porém, nem sempre cumpre seu papel, já que hoje muitas pessoas não fazem a menor ideia a que aquelas datas se referem. É o caso, por exemplo, da Rua 24 de Fevereiro (Vila Nova), que faz alusão ao dia em que, em 1891, foi promulgada a primeira Constituição republicana. Na verdade, foi a segunda Constituição do Brasil, mas a primeira no novo sistema. Embora seja uma data nacional, não são muitas as cidades que dedicam uma rua a essa data.

Roberto Vianna dos Santos, 55, não sabia porque o dia 24 de fevereiro foi escolhido para denominar uma rua em sua cidade. “A gente aprende na escola datas importantes como 21 de abril, 22 de abril, 7 de setembro, 15 de novembro, que são bem marcantes na história do País. Já 24 de fevereiro confesso que não me traz nenhuma recordação”, disse. Depois de saber da primeira Constituição Republicana, Roberto reagiu sem entusiasmo: “Ah, então é isso?…”. Ele sugere que, se é para homenagear datas significativas, Itu deveria ter a Rua 2 de Fevereiro. “Afinal não é a data do aniversário da cidade? Quer coisa mais importante? Nem deveria ser uma rua, mas sim uma bela avenida”, completou.

Outro nome de rua que soa esdrúxulo para a população de Itu é o da Rua 7 de Abril (centro). Ele lembra o dia, em 1831, em que D. Pedro I abdicou em favor de seu filho, D. Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon, futuro D. Pedro II. O ato marcou o fim do Primeiro Reinado e o início do período regencial no Brasil.

A onda de batizar ruas com datas de acontecimentos históricos se expandiu e efemérides do calendário municipal e estadual passaram a ser estampadas em nomes de ruas. Uma delas foi a Rua 20 de Janeiro, atualmente localizada no centro de Itu/SP. Em 1873 havia sido inaugurada a Companhia Ituana de Estrada de Ferro e a cidade começou a crescer para os lados da estação ferroviária. As chácaras ribeirinhas ao Córrego do Brochado foram loteadas e deram origem a algumas ruas, entre elas a 20 de Janeiro, conforme deliberação da Câmara Municipal de 11 de fevereiro de 1878. Sua denominação refere-se à data da reunião dos capitalistas ituanos, liderados por José Elias Pacheco Jordão, com a finalidade de fundar a Companhia Ituana de Estrada de Ferro.

Antigamente a Rua 20 de Janeiro era a saída para a Estrada Velha de Itu a Salto/SP, hoje chamada de rodovia da Convenção Republicana, marcante acontecimento político ocorrido a 18 de abril de 1873 no solar da Rua Barão de Itaim nº 67, onde hoje funciona o Museu Republicano Convenção de Itu/SP, um dia depois da inauguração da Companhia Ituana de Estrada de Ferro.

Memória paulista

A Rua M.M.D.C., localizada na Vila Nova, não celebra propriamente uma data, mas tem tudo a ver com ela, pois refere-se ao Movimento Constitucionalista iniciado em São Paulo no dia 9 de julho de 1932. O levante, denominado Revolução Constitucionalista ou Guerra Paulista, exigia o fim do governo provisório de Getúlio Vargas e a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. M.M.D.C. é o acrônimo pelo qual se tornou conhecida a Revolução, em virtude das iniciais dos nomes de Martins (Mário Martins de Almeida), Miragaia (Euclides Miragaia), Dráusio (Dráusio Marcondes de Sousa) e Camargo (Antônio Camargo de Andrade), estudantes paulistas mortos pelas tropas federais, no confronto registrado em 23 de maio de 1932. Essa rua ituana é quase uma vila, pois se trata de uma rua sem saída, de apenas uma quadra, próxima à extinta Mecânica e Fundição Irmãos Gazzola, que ficava localizada na Rua Capitão Silvio Fleming, oficial militar que serviu no quartel de Itu, morto em combate durante a Revolução de 1923, no município de Silveira/SP.

Há também em Itu a Avenida 9 de Julho, marcando a data de início da revolução que levou os paulistas a se insurgirem contra Getúlio Vargas. A Avenida 9 de Julho é uma das vias de entrada da cidade e extensão da Avenida da Saudade, começando na Vila Padre Bento e seguindo até a Rodovia Marechal Rondon (SP-300), a partir do viaduto sobre a Rodovia Deputado Archimedes Lammoglia (SP-075).

As mais importantes datas nacionais também estão presentes nas placas de rua de Itu. O dia 7 de Setembro – proclamação da Independência – dá nome a uma das mais movimentadas vias do centro histórico da cidade, iniciando-se na Praça Padre Miguel e descendo até a Avenida Dr. Octaviano Pereira Mendes, mais conhecida como Marginal. Tem inseridos em seu trajeto, entre outras instituições: a Igreja de Santa Rita, o Mercado Municipal e a Cooperativa Agrícola Mista de Itu. Antigamente a rua era conhecida simplesmente por Beco do Fuxico.

Já a Rua 21 de Abril (centro), faz referência ao dia em que, em 1792, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, líder da Inconfidência Mineira, foi enforcado e esquartejado, em Vila Rica, atual Ouro Preto/MG. Em Itu a Rua 21 de Abril mescla residências e estabelecimentos comerciais. Alessandra Pereira é irmã de Alexandre Pereira, o Zeca, que por mais de 15 anos possui um açougue na rua. Ela sabe de pronto que o dia 21 de abril refere-se ao martírio de Tiradentes. Alessandra, aliás, entende que o nome da rua é de fácil memorização, o que facilita a lembrança do estabelecimento, que leva o mesmo nome da rua.

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Praça D. Pedro I, com Cruzeiro de São Francisco. Ao fundo, antigo prédio deu lugar ao edifício em que hoje se situa a Câmara Municipal – Arquivo Campo&Cidade

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Rua 15 de Novembro, o famoso Becão, aberto apenas para pedestres – Tucano

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Rua 7 de Setembro com a Igreja de Santa Rita, ao fundo. Essa rua segue sendo uma das mais movimentadas do centro de Itu – Acervo Blog Fotos Antigas de Itu

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Alessandra Pereira acha que a Rua 21 de Abril tem nome de fácil memorização, além de ser data importante – Moura Nápoli

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Rua M.M.D.C., cujo nome remete à Revolução Constitucionalista de 1932, não tem saída – Moura Nápoli

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Antigo Pastifício Cruzeiro, que funcionou por anos na esquina das ruas 20 de Janeiro e Floriano Peixoto – Coleção família Chierighini

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A Companhia Ituana de Força e Luz, hoje Museu da Energia, uma imponente edificação na Rua 15 de Novembro, esquina com a Rua Paula Souza – Sétimo Catherine / Arquivo Campo&Cidade

Moura Nápoli



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