Em busca de nomes na história

Personagens ou acontecimentos considerados significativos para a história do País

O espaço não é concebido no Brasil como um elemento independente dos valores sociais, pois sempre surge interligado a outros valores que servem para a orientação geral. Quando se trata de ruas, expressões como “em cima” e “embaixo”, por exemplo, muitas vezes não exprimem propriamente a noção de altitudes, mas podem indicar regiões sociais convencionais e locais. Às vezes querem indicar que a parte antiga da cidade fica mais “em cima”, em outros casos podem sugerir segmentação social e econômica: quem mora “embaixo” é mais pobre e tem menos prestígio social.

Pela mesma lógica social, diz o antropólogo Roberto DaMatta, são muitas as cidades brasileiras que possuem a sua “Rua Direita”, mas jamais terão uma “Rua Esquerda”. O Rio de Janeiro tinha a sua Rua Direita (atual Rua Primeiro de Março), que estava localizada à direita do Largo do Paço (hoje Praça XV de Novembro). Na cidade de São Paulo, por estar no primeiro trecho no planalto uma rua ganhou o nome de Direita, inicialmente “Direita de Santo Antonio”, em referência à Igreja de Santo Antônio.

Na cidade de Itu/SP a Rua Paula Souza e Rua Barão do Itaim, que hoje homenageiam dois notáveis ituanos, são trechos opostos da sua antiga Rua Direita, uma rua que preservou o traçado seiscentista da então vila. Ganhou o nome por ter um trajeto reto, ou então, na suposição do arquiteto e urbanista João Walter Toscano (1933 -2011), por estar à direita do Convento dos Franciscanos (de quem vinha do antigo Pátio da Matriz), destruído por incêndio em 1917.

Notáveis benfeitores

A Rua Direita tinha seu lado ocidental (atual Rua Paula Souza) e seu lado oriental chamado Demídio Oriental (atual Rua Barão do Itaim), localizados no divisor de águas dos córregos do Taboão e do Brochado, conformando a “cidade velha”. No século 19, a Rua Direita oriental, ou “demídio oriental” passou a ser conhecida como Rua do Carmo. Com a morte do barão de Itaim em1908, a Rua do Carmo recebeu o nome desse notável antigo morador. Bento Dias de Almeida Prado (1821-1908), o barão de Itaim, foi um grande fazendeiro de café e exerceu cargos públicos na cidade como vereador, provedor da Santa Casa de Misericórdia e zelador do Hospital dos Lázaros. Colaborou com Octaviano Pereira Mendes na aquisição da Chácara Valente para o Asilo de Mendicidade Nossa Senhora da Candelária, hoje Irmandade do Asilo Nossa Senhora da Candelária de Itu e foi um dos instituidores da Companhia Ituana de Força e Luz.O escritor ituano Inaldo Cassiano da Silveira Lepsch dedicou-lhe uma minuciosa biografia, na qual está grafado o título nobiliárquico “barão de Itaim”, e não “barão do Itaim”, conforme consta nas placas de denominação da rua.

Antonio Francisco de Paulo Souza (1843-1917), que hoje denomina o lado ocidental da antiga Rua Direita, cursou engenharia na Suíça e na Alemanha, conquistou respeitável bagagem em formação tecnológica e exerceu papel fundamental para o progresso da Ciência e Tecnologia no Brasil. Em 1894 participou da fundação da Escola Politécnica de São Paulo (depois integrada à Universidade de São Paulo), e nela criou o Gabinete de Resistência de Materiais, embrião do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo). Paula Souza morreria em 1917.

O traçado da antiga Rua Direita é interrompido pelo Largo da Matriz, que recebeu o nome do Padre Miguel em 1950. Miguel Corrêa Pacheco (1826-1892) exerceu as funções de vigário da Matriz de Nossa Senhora da Candelária de 1856 a 1892 e, na década de 1880, promoveu a grande reforma no templo colonial que lhe deu as feições externas com as quais hoje se apresenta, trabalho executado pelo engenheiro-arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo e pelo engenheiro ituano Antônio Francisco de Paula Souza. Em um dos cantos da praça, na esquina da antiga Rua da Quitanda, atual Rua Madre Maria Theodora, funcionou a Câmara Municipal. Em Itu, como de praxe nas cidades ibéricas e brasileiras, a praça abre um território especial, uma região teoricamente do povo. “Uma espécie de sala de visitas coletiva, onde se situam em nichos especiais o poder de Deus, cristalizado na igreja matriz, ou igreja central, e o poder do Estado, manifesto no palácio do governo” (DaMatta).

Caminho antigo

A Rua Sorocaba, saída para o antigo caminho da Vila de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba, já estava configurada por volta de 1834 e mantém o nome primitivo até hoje. Em 1843 a Câmara Municipal concedeu no “alto” do trajeto, conhecido depois como “alto de Santa Cruz”, um terreno para a edificação da capela em a devoção da Santa Cruz, inaugurada em 1865. “É muito bom que ninguém se lembrou de mudar esse nome tradicional, que está ligado à história da família”, diz José Alves Ferreira, morador da Rua Sorocaba há décadas.

Três personagens ligados ao nascimento da cidade têm hoje seus nomes lembrados em ruas que não estão no traçado urbano mais antigo de Itu, “a cidade velha”: Suzana Dias, Domingos Fernandes e Cristovão Diniz.

Suzana Dias, neta do líder indígena tupi (ou guaianás) Tibiriçá, era casada com Manuel Fernandes Ramos, português de Moura (região do Alentejo) e homem de grande influência política e administrativa. O casal teve 17 filhos, três deles os famosos bandeirantes André, Baltazar e Domingos, conhecidos como “Fernandes Povoadores”.

André e os pais fundaram Santana de Parnaíba/SP, Baltazar fundou Sorocaba/SP, e Domingos, “um valoroso sertanista”, é tido como um dos fundadores de Itu. Em 1653, ano da morte de Domingos Fernandes, a capela de Nossa Senhora da Candelária (edificada em 1610) alcançou a categoria de capela curada e Itu tornou-se freguesia de Santana de Parnaíba. O nome do fundador denomina, desde 1938, a antiga Rua dos Colégios, aberta no “quintal do Carmo” por volta de 1865. A rua começa em um dos cantos da Praça Duque de Caxias (antigo “Largo do Seminário”, também conhecido como “Largo do Colégio”) e se estende até a Rua dos Andradas (antiga Rua da Palma). Sua mãe, Suzana Dias, dá nome a uma pequena rua na Vila Gatti.

Cristovão Diniz, também fundador de Itu, morreu em 1649 como membro da bandeira de Francisco Paiva ao Sul do País. Diniz era casado com Izabel da Costa, filha de Domingos Fernandes. No ano seguinte à sua morte a viúva recebeu um Termo de Fiança, no qual requeria a entrega de todos os bens pertencentes ao marido, “visto não haver dinheiro para se pagar as dívidas”. Em 1961 o prefeito Waldomiro Corrêa de Camargo o homenageou colocando o seu nome na então Rua 14, no Jardim do Estádio, próximo ao Bairro Rancho Grande.

Construtores do Estado

A Rua dos Andradas presta homenagem aos irmãos José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), Martim Francisco Ribeiro de Andrada (1775-1844) e Antonio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva (1773-1845), que participaram ativamente da construção do Estado brasileiro na primeira metade do século 19. O primeiro, José Bonifácio, filósofo, cientista e político tornou-se conhecido como o “Patriarca da Independência”. O nome Rua dos Andradas foi atribuído em 1922, no bojo das comemorações do centenário da Independência, época na qual era ainda chamada de Rua da Palma e preservava o traçado que certamente vinha de uma das estradas de São Paulo que entravam na então Vila de Itu. A partir da Rua dos Colégios (hoje Domingos Fernandes), essa rua era denominada “da Misericórdia”. Após a inauguração da Maternidade Borges, em 1939, passou a se chamar Rua Joaquim Borges, em homenagem ao grande benfeitor da Santa Casa de Misericórdia de Itu.

Antônio de Queirós Teles (1831-1888), o conde de Parnaíba, denomina o antigo Largo da Caixa d’Água, onde estão instalados o Ibao (Instituto Borges de Artes e Ofícios) e o abandonado edifício da Escola Convenção de Itu. Queirós Teles, advogado e político, presidiu a Província de São Paulo e dirigiu a Companhia Mogiana de Estrada de Ferro. Foi agraciado pelo imperador Pedro II com os títulos de barão, visconde e por último, conde.

O espaço da Praça Conde de Parnaíba começou a ser aberto no início da década de 1880, época na qual parte do “quintal do Carmo” foi desapropriada e algumas chácaras aforadas.

Após o lançamento da pedra fundamental da construção da “Caixa d’Água” a área passou a ser chamada de Largo da Caixa d’Água.

Personagens marcantes

Na Vila Nova, a Praça Almeida Junior abriga semanalmente, às terças-feiras, uma tradicional feira ao ar livre e nela está o edifício-sede da Diretoria de Ensino – Região Itu. O nome da praça homenageia o notável pintor ituano José Ferraz de Almeida Junior (1850-1899), talvez o primeiro artista plástico brasileiro a retratar nas telas o homem do povo em seu cotidiano, em contraste com a monumentalidade até então predominante nas artes plásticas do País. A Vila Nova começou a ser definida na década de 1920. Nas plantas cadastrais da época, o novo bairro começava na Rua da Caixa D’água (atual Rua Quintino Bocaiúva) e se estendia até a Travessa nº 1 (Rua Dr. Silva Castro). Hoje o bairro tem início na Rua Luiz Gazzola e se prolonga até a Praça Washington Luís, localizada na frente do Estádio Munici- pal Doutor Novelli Júnior. Washington Luís Pereira de Sousa governou o Estado de São Paulo e foi o último presidente da República do período chamado de República Velha.

A “cidade velha” tinha o seu Beco do Cruzeiro,depois Travessa de São Francisco. Hoje o logradouro tem o nome de Alameda Barão do Rio Branco, e nela está situada a Câmara Municipal em edifício que no passado também abrigou o Fórum da Comarca de Itu. José Maria da Silva Paranhos (1845-1912), o barão do Rio Branco, notabilizou-se como historiador e diplomata. Chefiou o Ministério das Relações Exteriores de 1902 até sua morte, ocorrida em 1912.

A famosa Rua do Comércio no século 19 e nas décadas iniciais do século 20 (anteriormente também chamada de Rua das Baratas) teve o nome alterado para Rua Dr. João Pessoa logo depois do assassinato de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, presidente da Paraíba, em 1930. Na calada da noite de 23 de fevereiro de 1932 várias placas com o nome “Rua João Pessoa” foram arrancadas, prenúncio dos protestos que depois desembocariam na Revolução Constitucionalista. Em 1939, em homenagem ao primeiro vice-presidente e depois presidente da República, a rua passou a se chamar Floriano Peixoto (1839-1895), no âmbito das comemorações do Cinquentenário da Proclamação da República (1889-1939).

Jonas Soares de Souza

01 - CH 01 Rua Direita - 1905

Rua Direita, 1905 – Cartão Postal/Frederico Egner/Coleção Julio Abe Wakahara

02 - CH 03 Antonio Francisco de Paula Souza

Antonio Francisco de Paula Souza – Acervo do IPT

03 - CH 04 Padre Miguel - Almeida Junior

Padre Miguel Corrêa Pacheco – Óleo s/tela de Almeida Júnior/Acervo da Igreja Matriz de N.S. da Candelária

irit@irit.com.br Phone # 55 11 4022-0774 mobile # 55 11 9765-2140 www.irit.com.br

Fundação de Itu – Painel de azulejos/Museu Republicano de Itu/MP-USP

05 - CH 007 Rua da Palma

Rua da Palma, 1905 – Cartão Postal/Frederico Egner/Coleção Julio Abe Wakahara

06 - CH 08 Barão do Rio Branco - Óleo s Linho - Pintura de JG Fajardo - Acervo do Congresso Nacional

Barão do Rio Branco – Óleo/s linho de J. G. Fajardo/Acervo do Congresso Nacional

07 - CH 09 Rua do Comércio, 1905

Rua do Comércio, 1905 – Cartão postal/ Coleção Julio Abe Wakahara

08 - CH 10 Rua João Pessoa  - Sétimo Catherine

Rua Dr. João Pessoa – Cartão postal /Sétimo Catherine

09 - CH 11 Floriano Peixoto - 1891

Floriano Peixoto, 1891 – Acervo Museu da República – Rio de Janeiro



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