Espaços públicos e cidadania

Ruas, praças e avenidas são palcos para manifestações coletivas da população

“A rua é pública!”, gritava a criançada, ao ser repreendida por algum adulto, durante a sonora algazarra da brincadeira de pega-pega. Quem viveu o tempo em que as crianças brincavam nas ruas deve se lembrar da distinção que, desde pequenos, os indivíduos sabiam fazer entre o público e o privado. Sim! A rua é um espaço público. É nela que as pessoas, a pé ou em veículos, podem transitar livremente. Em pleno século 21, no entanto, os urbanistas trabalham para que, muito além de públicas, as ruas, avenidas e praças possam ocupar o status de espaços-cidadãos.

“Há uma estreita relação entre os espaços públicos e o fortalecimento da cidadania”, afirma a urbanista Luise Martins da Silva, em sua dissertação de mestrado “Espaço público e cidadania – Usos e Manifestações Urbanas”. Segundo ela, há lugares capazes de ser o epicentro de uma série de práticas sociais positivas, graças à sociabilidade que proporcionam. A esse tipo de espaço, habilitado a contribuir para o fortalecimento da cidadania, ela denomina espaço-cidadão.

Nem todo espaço público, porém, pode ser considerado um espaço-cidadão. Há requisitos necessários, como acessibilidade, condições físicas e sensação de segurança urbana.

Segundo o estudo de Luise, essas características se mostram indispensáveis à interação social, que pode ser medida pela diversidade e densidade de pessoas que frequentam os locais, e pela apropriação do espaço público pela população.

Um espaço voltado à afirmação da cidadania é aquele, antes de qualquer coisa, que é acessível a todos. Cabem, portanto, alguns questionamentos, antes de classificar um lugar da cidade como espaço-cidadão: todas as pessoas podem ter acesso a esse espaço, incluindo moradores de bairros distantes, cadeirantes e deficientes visuais? Há transporte público até o local? Pessoas de todas as classes sociais se sentem à vontade para frequentar o lugar sem constrangimento? Os espaços públicos “vivos” são aqueles frequentados por diferentes grupos sociais e com um número tal de usuários que permita a copresença e as boas relações.

A fixação da existência dos espaços públicos na memória coletiva da população também é importante. É preciso que a simples menção do nome de um lugar seja suficiente para que os habitantes do município se lembrem dele de forma positiva. Em muitos casos, o tempo de existência e a tradição pesam bastante. É o que ocorre em Itu/SP, por exemplo, com as praças centrais da Independência (do Carmo), Padre Miguel (da Matriz), Padre Anchieta (do Bom Jesus) e Regente Feijó (Largo do Patrocínio), palcos de inúmeras atividades ao longo dos anos e consolidadas na história da cidade.

Por outro lado, a utilização de espaços públicos não tão antigos pode ser estimulada com a realização continuada de eventos atraentes a um grande número de pessoas, como o projeto Vida em Movimento que, até o ano passado, levou centenas de pessoas à Avenida Galileu Bicudo para a prática de atividades físicas gratuitas como caminhada, corrida, ciclismo, vôlei de areia e aulas de zumba. O Vida em Movimento acontecia todos os domingos, das 7h às 12h, no trecho da Avenida Galileu Bicudo compreendido entre a Rua Sorocaba e a Praça Gaspar Ricardo. A nova gestão, que assumiu em 1º de janeiro deste ano, ainda não realizou nenhum evento semelhante.

Sob essa mesma ótica, passaram a ser promovidos eventos na Avenida da Paz Universal, no Bairro Cidade Nova. Distantes pelo menos 17 quilômetros do centro, os diversos bairros que compõem a região do Distrito do Pirapitingui e abrigam mais de 50 mil moradores, têm na Avenida seu local para encontros festivos como as folias do Carnaval, as festas juninas e o Estouro do Judas na Semana Santa. O Carnaval deste ano, batizado de “Carna Retrô 2017”, organizado pela Prefeitura de Itu e realizado na Praça Padre Miguel, no centro da cidade, atraiu grande público que curtiu a folia de Momo com muita alegria, ao ritmo de samba e antigas marchinhas carnavalescas.

Espaços quase cidadãos

As praças existentes no centro de Itu desde a colonização têm se mostrado democráticas e, adequadas ou não sob o ponto de vista da acessibilidade, têm atendido a um grande número de manifestações culturais, políticas e religiosas. É na da Independência, por exemplo, que são realizados feiras de artesanato e shows gratuitos, além de sua eventual utilização para eventos típicos como a Feira Afro e quermesses.

Já a Praça Padre Miguel, comporta, há muitos anos, o Estouro do Judas, atração das mais tradicionais nas comemorações da Semana Santa ituana. É nessa praça, também, o ponto alto de concorridos eventos religiosos e culturais, como o encerramento das romarias de Itu a Pirapora do Bom Jesus/SP e procissões em louvor a Nossa Senhora Candelária e ao Divino Espírito Santo. É sede ainda das festas Italiana (janeiro) e Japonesa (junho) e de inúmeras apresentações artísticas, como shows e concertos musicais, performances circenses, teatro de rua e exposições.

Nos anos 60, a Praça da Matriz foi palco de passeatas e comícios políticos. Foi lá que o então candidato a prefeito Maurício Gun (Arena) fez passeata, e para lá que seu adversário Galileu Bicudo (Arena 2) levou um tatu gigante, símbolo de sua campanha política a prefeito em 1968.

Outros espaços públicos, em certas ocasiões, se prestaram a reunir a população em seus objetivos comuns. A Praça Regente Feijó (Largo do Patrocínio), por exemplo, foi o local escolhido, em 1932, para a concentração de ituanos dispostos a integrar o 3º BCV (3º Batalhão de Caçadores Voluntários), que se juntaria aos paulistas rebelados contra Getúlio Vargas na Revolução Constitucionalista.

A Praça Padre Anchieta (do Bom Jesus) também é ponto de encontro antigo. Por ser a Igreja do Senhor Bom Jesus a sede do Santuário Nacional do Sagrado Coração de Jesus, a praça fronteiriça já abrigou numerosas concentrações de fiéis nas festas dedicadas a essa devoção. O local é, além disso, o marco inicial de fundação da cidade e, por essa razão, frequentemente escolhido para apresentações musicais e atos cívicos comemorativos.

Essas quatro praças – da Independência, Padre Miguel, Padre Anchieta e Regente Feijó – e suas respectivas igrejas – de Nossa Senhora Carmo, de Nossa Senhora Candelária, do Senhor Bom Jesus e de Nossa Senhora do Patrocínio – são recorrentes na concentração de pessoas em Itu também porque participam, há mais de 200 anos, das comemorações da Semana Santa, que inclui celebrações específicas e procissões.

Outros espaços

Próximo do eixo central, o entorno da Igreja de Santa Rita, na rua de mesmo nome é utilizado anualmente para saída e chegada da procissão de Santa Rita, em maio, quando milhares de fiéis levam rosas à santa das causas impossíveis. A Praça da Bandeira, logo atrás dessa igreja, sedia as quermesses da tradicional Festa de Santa Rita. Em outros tempos, quando os veículos de tração animal eram muito utilizados, o local era uma espécie de estacionamento para cavalos e charretes dos consumidores que frequentavam o Mercado Municipal, que fica logo abaixo; no local havia até um bebedouro para dar água aos animais, que ficava localizado atrás da Igreja Santa Rita. Perto dali, na área adjunta ao Mercado com frente para a Rua Maestro José Vitório, onde atualmente se realiza uma feira livre aos domingos, no passado, eram montados circos e realizadas touradas.

Outro local que serviu – e ainda serve – a grandes manifestações é a Praça Washington Luiz, nos arredores do Estádio Dr. Novelli Júnior. Naquela área, nas décadas de 1950/60, foram realizadas corridas de cavalo, de charrete e de bicicleta. Atualmente, ela tem sediado feiras de automóveis usados e espetáculos musicais gratuitos, como o da banda Paralamas do Sucesso em 2013, durante as comemorações do aniversário de Itu.

Apesar de estreita, a Rua Floriano Peixoto, principal eixo do comércio ituano, também é apreciada pela população para manifestações. Os desfiles dos blocos e escolas de samba do Carnaval levam anualmente para lá milhares de foliões. Essa via pública é ainda usada quando se precisa chamar atenção para uma causa de interesse público, como a campanha Outubro Rosa, dedicada à prevenção ao câncer de mama.

Avenida plural

No Brasil, um dos espaços mais requisitados para grandes manifestações de caráter cultural, político ou religioso é atualmente a Avenida Paulista, eleita em 2014 pelos paulistanos, como símbolo de São Paulo. Inaugurada, em 1891, quando a capital contava com cem mil habitantes, a avenida não tinha ainda uma única construção. Ali circulavam bondes puxados a burro, charretes, cavaleiros e carruagens.

Na Paulista passaram a ser realizadas corridas de automóveis e os corsos, antigas carreatas carnavalescas. Começava a firmar-se a tradição, mantida até hoje, de uma rua ligada a manifestações, um espaço-cidadão. Palco de gigantescas concentrações de milhares pessoas na atualidade, a charmosa avenida sedia anualmente a Corrida Internacional de São Silvestre e o Show da Virada, no Réveillon; a Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) de São Paulo, em março; e a evangélica Marcha para Jesus, em maio, entre centenas de outros eventos esporádicos, como passeatas de grevistas, estudantes e políticos.

Em março do ano passado, a Avenida Paulista registrou a maior concentração de pessoas de sua história, quando mais de 2 milhões de manifestantes foram às ruas para exigir o fim da corrupção e pedir o impeachment da então presidente Dilma Roussef (PT). Cinco meses depois, seu mandato foi cassado pelo Congresso Nacional, num processo baseado em crime de responsabilidade, e o vice, Michel Temer (PMDB), assumiu a Presidência da República.

Rose Ferrari

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Praça da Matriz, em Itu, é tradicional espaço público para eventos – Coleção Manoel Salvador

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Estouro do Judas na Praça Padre Miguel, durante a Semana Santa em Itu, em 2015 – Coleção Manoel Salvador

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Chegada da procissão em louvor ao Divino Espírito Santo na Praça Padre Miguel, 2015 – Coleção Manoel Salvador

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Escola de Samba Acadêmicos Vale do Sol comemorou 30 anos na Praça Padre Miguel no Carnaval de 2017, no “Carna Retrô 2017” – Tucano

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Festa Italiana de Itu, em 2011, quando foi realizada na Praça da Independência – Coleção Manoel Salvador

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Festa do Sagrado Coração de Jesus, no Largo do Bom Jesus, com a presença do Apostolado da Oração à frente – Coleção: Zezito Carvalho

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Concentração de milhares de fiéis na Festa de Santa Rita de 2015 – Tucano

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Competição ciclística realizada ao redor do Estádio Municipal Dr. Novelli Júnior, em 1969 – Coleção Vicente Boff

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Passeata na Rua Floriano Peixoto em 2016 chamou a atenção para a campanha Outubro Rosa – Coleção Manoel Salvador

São Paulo - Manifestação na Avenida Paulista, região central da capital, contra a corrupção e pela saída da presidenta Dilma Rousseff (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Com mais de 2 milhões de participantes, o ato pelo impeachment de Dilma foi o maior da história da Avenida Paulista – Agência Brasil



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