Fé pela cidade

Logradouros públicos também refletem a religiosidade do povo ituano

Caminhar pela cidade de Itu/SP e se deparar com logradouros públicos que levam nomes de religiosos é algo comum e facilmente justificável. Afinal, entre os vários títulos que Itu recebeu ao longo de sua história está o de Roma Brasileira, numa referência à religiosidade de seu povo. Na região central, a mais antiga, o município fundado por Domingos Fernandes em 1610 já ressalta o catolicismo com denominações como, por exemplo, Praças Padre Miguel (Largo da Matriz) e Padre Anchieta (Largo do Bom Jesus), Travessa do Carmo, Rua Santa Rita e Rua Santa Cruz.

E essa é uma realidade que se espalha pelos diversos bairros da cidade, por meio de ruas, avenidas e praças que homenageiam mulheres e homens que se dedicaram às causas divinas, além de referências à Nossa Senhora (Ruas Nossa Senhora Imaculada Conceição, Nossa Senhora das Graças, da Candelária e Praça Nossa Senhora de Fátima), a santos (Ruas Santo Antonio, São João, São José, São Judas Tadeu, São Pedro, Praças São Cristovão e São Joaquim, entre outros) e papas (Ruas João Paulo I, Paulo VI e João XXIII).

Cada um dos homenageados tem uma história de bons exemplos. Pode-se citar Padre Elisiário Camargo Barros, que empresta o nome a uma das ruas localizadas no Jardim Alberto Gomes. Nascido em Campinas/SP, em 1868, o sacerdote estudou na capital paulista e em Curitiba/PR. Foi vigário em Itu, onde fundou a Associação São Paulo da Boa Imprensa, o jornal A Federação, um dos órgãos de imprensa religioso mais antigo do Brasil, e o Asilo de Mendicidade Nossa Senhora da Candelária – hoje Irmandade do Asilo de Nossa Senhora da Candelária de Itu.

O religioso faleceu em Itu, em 1925. Foi sepultado no município onde deixou importantes legados como o jornal mais antigo ainda em atividade na cidade e o Asilo Nossa Senhora da Candelária, uma obra de caridade que permanece até hoje. A homenagem a Padre Elisiário, por meio de denominação de rua, foi prestada na década de 70.

Outro religioso reverenciado em Itu foi o padre Bartolomeu Tadei. Ele, que nasceu em São Giovanni de Vallerovetto, na Província de Caserta, na Itália, em 1837, estava entre os cinco jesuítas que fundaram o Colégio São Luís, em Itu, em 1867.

Padre Bartolomeu Tadei também fundou a revista Mensageiro do Coração de Jesus, órgão de sua ordem religiosa. Falecido em 1913, na residência da Igreja do Bom Jesus, em Itu, teve seus restos mortais ali sepultados junto ao Santuário Nacional do Apostolado da Oração. A rua que leva seu nome, por iniciativa datada da primeira metade do século 20, fica no centro da cidade. Foi conhecida como Ladeira do Teatro, pois é perpendicular à Rua dos Andradas, onde existia o Teatro São Domingos, no início do século 20. Até os dias atuais, muitas pessoas se referem à Rua Padre Bartolomeu Tadei como Morro do Teatro.

O Teatro São Domingos foi criado em 1860, nos fundos da Igreja do Bom Jesus. Com arquitetura imponente, contava com 220 poltronas e recebeu em seu palco importantes companhias teatrais da época, vindas da Europa e América do Sul. O teatro começou a decair no final do século 19; em 1940, era utilizado como cinema; e nos anos de 1970 uma ação judicial o incorporou ao patrimônio da Igreja Católica. O prédio onde funcionou o teatro passou a abrigar um presépio mecânico que era atração na cidade nos finais de ano.

Religiosas

As mulheres que marcaram a vida da comunidade ituana por seus feitos frente a obras de cunho religioso também são lembradas no município. As Ruas Madre Maria Basília e Madre Maria Theodora, localizadas no centro da cidade, referem-se às Irmãs de São José que saíram de Chambéry, na França, para fundar o Colégio Nossa Senhora do Patrocínio. No passado, a Rua Madre Maria Theodora chamou-se Beco da Quianda. O primeiro grupo de religiosas chegou a Itu em 1858, mas com o pesar do falecimento da então Superiora, Madre Maria Basília Genou. O óbito ocorreu durante a viagem, na altura de Cabo Frio/RJ e o corpo da religiosa foi lançado ao mar.

Madre Maria Theodora Voiron, então vice-diretora de um importante externato em Chambéry, foi a escolhida para substituir Madre Maria Basília. Ela chegou a Itu em 1859 acompanhada por sua companheira irmã Maria Serafina. Meses depois, as Irmãs de São José fundaram em terras ituanas um colégio ao lado do edifício da Igreja Nossa Senhora do Patrocínio. O Colégio do Patrocínio teve início com oito irmãs e 16 alunas.

A instituição é considerada a primeira escola organizada em São Paulo por especialistas na prática pedagógica e a primeira escola criada pela igreja no Brasil para educação feminina. As Irmãs de São José administraram ainda, por quase um século, o Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Itu, inaugurado em 1867. Madre Maria Theodora faleceu em 1925 e encontra-se em andamento no Vaticano um processo voltado à sua beatificação.

Outras religiosas emprestam seus nomes para logradouros públicos em Itu. No Jardim Faculdade, existe a Rua Madre Maria Clemente da Divina Providência; na Vila Santa Rosa, as Ruas Irmã Maria Jacinta da Silva e Irmã Luiza Eufrasia Fagundes Costa; e no Portal do Éden, as Alamedas Madre Teresa de Calcutá e Irmã Maria Daltoe.

Caridade

Dois padres ituanos ficaram conhecidos pelo auxílio aos hansenianos, sendo homenageados com denominações de ruas, praça e bairros na cidade: Antônio Pacheco da Silva e Bento Dias Pacheco. As homenagens foram efetivadas nas décadas de 50 e 70 com as denominações de dois bairros – Jardim Padre Bento e Vila Padre Bento -, duas ruas – Rua Padre Bento Dias Pacheco e Rua Padre Antonio Pacheco da Silva – e uma Praça – Praça Padre Bento Dias Pacheco.

Nascido na então Vila de Itu em 1752, padre Antônio Pacheco da Silva iniciou os estudos com os franciscanos do Convento de São Luís, Bispo de Tolosa. Depois seguiu para São Paulo a fim de concluir os estudos eclesiásticos. De volta a Itu, foi o primeiro a se sensibilizar com as vítimas de hanseníase.

Ele teve a ideia de construir um hospital para recolher e tratar aqueles doentes, tendo solicitado ao governo da capitania, em 1804, licença para construir o referido hospital. E assim o fez, com recursos próprios. Inaugurou o hospital em 1806 e o manteve com recursos do seu próprio bolso por aproximadamente 20 anos, até falecer em 1825, em sua chácara, no Taboão, situada na saída para Salto/SP. A iniciativa de prestar homenagem a ele, sua vida e obra em prol dos hansenianos ocorreu nos anos de 1950.

Padre Bento Dias Pacheco também se dedicou aos hansenianos. Nascido em Itu, em 1819, pertencia a uma família de posses, mas abriu mão dos seus bens para cuidar do próximo. Sacerdote, padre Bento pouco atuou em paróquias, tendo optado pelo convívio e dedicação extrema aos enfermos. Antes disso, chegou a recusar o convite para capelão do Hospital dos Lázaros, pois temia a doença desde criança.

A fé, no entanto, o levaria a perder esse medo e residir durante 42 anos na Chácara da Piedade junto àqueles que foram marginalizados pela sociedade devido à hanseníase. Faleceu em 1911 sem contrair a doença. Atualmente, a Diocese de Jundiaí/SP, à qual Itu pertence, trabalha para que Padre Bento seja beatificado.

Além das referências ao catolicismo, há logradouros públicos em Itu que homenageiam lideranças evangélicas como os Pastores Paulo Leivas Macalão, João de Jesus Leme e Benevides dos Santos. Localizadas respectivamente no Jardim Aeroporto, no Jardim Rancho Grande e Itu Novo Centro, as referidas ruas foram assim denominadas nos anos de 1984 e 2010.

O religioso ituano Dom Gabriel Paulino Bueno Couto, nascido em 1910, dá nome a importante rodovia que liga os municípios paulistas de Itu e Jundiaí, uma justa homenagem a ele que foi o primeiro bispo da Diocese de Jundiaí. Devoto de Nossa Senhora, foi coroinha na Igreja Nossa Senhora do Carmo e concluiu os estudos secundários no Seminário Arquiodicesano e Provincial de São Paulo, em Pirapora do Bom Jesus/SP.

Seguiu, então, para o Rio de Janeiro, ingressou no Convento do Carmo, tendo feito os votos religiosos um ano depois. Em 1930, o religioso foi estudar em Roma, sendo ordenado após três anos. Em 1937 ele celebrou a primeira missa em Itu, na Igreja Nossa Senhora Candelária. Retornou a Roma para lecionar no Colégio Internacional Carmelita.

Em 1946, ainda em Roma, tornou-se bispo. Dois meses depois foi nomeado Bispo Auxiliar em Jaboticabal/SP. Ele foi ainda bispo auxiliar nas Dioceses de Curitiba/PR, Taubaté/SP e São Paulo. Foi indicado para assumir o cargo de bispo diocesano de Jundiaí quando da criação, em 1967, da Diocese daquela cidade. Exerceu o ministério até 1982, ano de seu falecimento. No final dos anos 80 foi instaurado o processo de beatificação de Dom Gabriel.

Angélica Estrada

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Rua Santa Rita, na região central, remete à fé do povo ituano. Na foto, trecho onde está localizada a Igreja de Santa Rita – Angélica Estrada

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Padre Elisiário (1º esq.) fundou o Asilo Nossa Senhora da Candelária. Na foto, ele aparece junto à primeira diretoria da entidade – Coleção Benedito Carlos Pinto (Pardal)

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Registro da Rua Madre Maria Basília ainda com paralelepípedos. Na imagem, é possível ver também a Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio – Katahira

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Rua homenageia Madre Maria Theodora – Julio Abe

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Praça Padre Bento Dias Pacheco faz referência ao sacerdote que muito auxiliou os hansenianos – Angélica Estrada

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Lideranças evangélicas também recebem homenagens como o Pastor Benevides dos Santos, que dá nome a rua no Itu Novo Centro – Angélica Estrada



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