Nomes curiosos para ruas e praças

Costumes antigos geraram nomes como Beco do Fuxico e Rua das Flores, entre outros

Itu/SP, como toda e qualquer cidade, tem ruas com nomes curiosos. Nomes que podem até existir em outras cidades, mas cujo significado é único em cada um dos municípios.

A Rua do Teatro, também conhecida como Morro do Teatro, foi a denominação da rua que desce dos fundos da Igreja do Bom Jesus, em direção à atual Avenida Galileu Bicudo. Mas, por que Morro do Teatro? Porque quem subia o tal morro, ao chegar ao cume, deparava-se com o Teatro São Domingos, que hoje não existe mais. A edificação ainda está lá, já que se trata dos fundos da igreja, mas o teatro há muito foi desativado.

O Teatro São Domingos, em seus áureos tempos, recebia grandes espetáculos, sendo frequentado pela elite ituana. A Rua do Teatro é hoje a Rua Padre Bartolomeu Tadei.
Bem próxima, e paralela à Rua do Teatro existe, hoje, a Rua 15 de Novembro, que por muito tempo teve três quarteirões de sua extensão conhecidos como Becão. Atualmente um dos quarteirões, compreendido entre as ruas dos Andradas e Paula Souza, é denominado Passeio Público Marcos Steiner Netto. O Becão é um trecho estreito, com passagem apenas para pedestres, que, em tempos remotos, chegou a ser conhecido como Beco da Bosta, pois ali os moradores jogavam urina e fezes, uma vez que a cidade não contava com rede de esgoto.

O local foi chamado ainda de Beco dos Quatro Cantos e, pejorativamente, de Beco do Inferno, como lembrou o professor de História Luiz Roberto de Francisco, mestre em História e regente do Coral Vozes de Itu. Essa última denominação devia-se, segundo ele, ao fato de se tratar, naquela época, de um local afastado do centro e muito escuro.

Outro endereço famoso e cuja denominação primeira devia-se aos hábitos da população de então é o Beco do Fuxico, hoje Rua 7 de Setembro. Conforme o nome diz, o Beco do Fuxico era o local onde as pessoas trocavam informações, confidências e – evidentemente – faziam fofocas, na gíria da época, “fuxicos”. Ainda hoje a 7 de Setembro é local onde “fervilham” as novidades da cidade. Aliás, na esquina da 7 de Setembro com a Praça Padre Miguel, o conhecido Largo da Matriz, existe o famigerado “banco da passagem”, onde figuras mais antigas da cidade, via de regra aposentadas, encontram-se e sentam-se em cadeiras – antigamente bancos – para discutir futebol e política e pôr em dia os “fuxicos”.

Da Rua Piraí (ou Pirahy), hoje Maestro José Vitório, praticamente não há registros que elucidem sua história ou quando houve a troca dos nomes. Sabe-se, entretanto que, em meados da década de 1940, na Rua Piraí, o conhecido Oscarlão Pantera, pai do não menos famoso Mão de Onça, um dos grandes goleiros da história esportiva de Itu, promovia bailes para a comunidade negra de Itu. Oscarlão Pantera inaugurou seus bailes num antigo sobrado na Rua Floriano Peixoto, local onde hoje se encontra instalada a Casa Santoro, passando depois para um prédio na antiga Rua da Palma, atual Rua dos Andradas, e, posteriormente, para a Rua Piraí, próximo ao Mercado Municipal.

Em termos de ruas bem conhecidas da cidade que mudaram de nome, há ainda várias dignas de registro como: Rua dos Colégios (Domingos Fernandes), da Matriz (Dr. José Elias), Travessa Municipal (Garcia Moreno), São Francisco (Barão do Rio Branco), do Carmo (Barão do Itaim), Beco da Quitanda (Madre Maria Theodora), da Cadeia (Maestro Elias Lobo), dos Ricos (da Convenção, que em seu primeiro quarteirão chama-se também José de Paula Leite de Barros), entre outras.

O Beco do Cata-frango, que também foi chamado de Cata-galinha, é uma rua sem saída, a partir da Rua Santana, nas proximidades da antiga Fábrica São Pedro, onde inclusive residiam funcionários dessa indústria têxtil. Por ser uma rua sem saída, não é difícil entender o porquê do nome. Poderia também ser chamada de Cata-porco, Cerca-cachorro…

Aos 76 anos, Luis Carlos Araújo, o Lisca, lembra que a região abaixo da Rua Santa Cruz, envolvendo a antiga Rua das Flores, atual Marechal Deodoro, havia uma zona de meretrício. Lisca diz que “antigamente o local era mal frequentado, mas hoje nada mais lembra aquela época”. Afirma ainda que várias mulheres, depois que foi extinta a prostituição naquela região, passaram a levar uma vida normal, deixando o que se chamava de “vida fácil”.

Sobre a Rua Santa Cruz e a Rua das Flores, Luiz Roberto de Francisco confirma que elas abrigaram, por muito tempo, a zona de prostituição, mas antes, boa parte da Rua das Flores foi habitada por imigrantes espanhóis, especialmente dedicados ao plantio de flores, como cravo, dália e copo-de-leite, e hortifrutis, como alface, chicória, couve, cenoura e uva, que eram vendidos à população no Mercado Municipal, próximo dali. Ao longo da Rua das Flores havia várias chácaras destinadas a essa atividade agrícola que se estendiam até as margens do rio Taboão que hoje se encontra entre as pistas de rolamento da Avenida Dr. Octaviano Pereira Mendes – Avenida Marginal.

É nesse contexto que está inserida a Rua das Abelhas, com apenas 200 metros de extensão, entre as ruas Santa Cruz e Marechal Deodoro. Não há certeza sobre a origem do nome, mas a denominação faz referência a abelhas que provavelmente existiam nas imediações. Os insetos poderiam frequentar o local em razão das grandes plantações de flores ou da presença, bem próximo dali, da primeira fábrica de refrigerantes de Primo Schincariol, sediada na Rua Santa Cruz na década de 1940. “A Rua das Abelhas – lembra Luiz Roberto – por muito tempo delimitou o que se chamava da parte de bem da cidade e a zona”. A Rua das Abelhas desafiou o tempo e existe até hoje com esse nome curioso.

Outra rua que até hoje conserva um nome curioso é a Cruz das Almas. Tratava-se de um caminho de propriedades rurais por onde só passavam carroças, paralelo à Rua Sorocaba, que era conhecido como Rua dos Pavani, pois ali vários integrantes da família Pavani possuíam chácaras.

Conforme lembra Ida Croca Pavani, que reside nessa rua há 70 anos, conhecida por Dona Irma, com 90 anos e uma memória prodigiosa, “havia uma capelinha bem antiga, onde foi enterrada uma mulher. Com o tempo as pessoas iam levando imagens de santos, terços e velas à capelinha que tinha também uma cruz”. Quando o caminho passou a ser uma rua, a capelinha foi demolida, mas o local conhecido como Cruz das Almas, passou a denominar a rua.

José Alceu Pavani, 74 anos, outro antigo morador da rua, lembra que foi Galileu Bicudo que passou máquina para melhorar as condições da estreita estradinha de terra, pela primeira vez, na época em que foi candidato a prefeito, na década 50. Durante esse trabalho, a erma foi demolida e os ossos da sepultura exumados e levados para o Cemitério Municipal. Contou ainda que a capela ficava num barranco, na beira da estrada, e um andarilho conhecido por Tiriba costumava dormir dentro dela. Por causa da quantidade de imagens de santos deixados dentro da capela, Tiriba dormia com os pés para fora. “Eu era menino, tinha uns 12 anos, e ele contava para criançada da rua que, certa noite, teve que sair correndo porque viu um lobisomem”, recordou Pavani, dando risada. Se o lobisomem era de verdade nessa história ninguém sabe ao certo, mas Pavani acredita que boas doses de cachaça havia, sem dúvida.

Do outro lado da cidade, bem mais afastada do centro, a Rua do Matadouro, conforme diz o nome, era o caminho que levava ao Matadouro Municipal. Esse nome referia-se a um trecho da atual Rua Inácio Rodrigues de Ávila, entre a Vila Padre Bento e a Vila Bandeirantes. Desse trecho em diante ficou conhecida como Estrada Sete Quedas. No tempo da Rua do Matadouro, ela era – até pela atividade do Matadouro Municipal – bem afastada do centro, na antiga saída para Porto Feliz/SP. Hoje a cidade cresceu e vai bem além do antigo Matadouro.

Os Largos

Na atualidade é muito difícil algum local ainda ser conhecido como largo. Os largos são as atuais praças. E Itu é uma cidade em que as praças são abundantes, especialmente na região central. E, via de regra, onde há uma praça, há uma igreja, o que favorece que elas sejam mais conhecidas pelos nomes das igrejas que propriamente por suas denominações oficiais.

A atual Praça Regente Feijó, por exemplo, é conhecida como Largo do Patrocínio, porque ali se encontra a Igreja de Nossa Senhora do Patrocínio. No Largo de São Francisco (Praça D. Pedro I), há um lindo cruzeiro, trabalho atribuído ao oficial de cantaria conhecido pelo codinome Tebas, conforme descoberta recente do historiador do IPHAN Carlos Gutierrez Cerqueira. O cruzeiro é o que resta de um antigo conjunto arquitetônico franciscano (Convento e Igreja de São Luís, Bispo de Tolosa), erguido entre os séculos 17 e 18.

Bem próximo dali está o Largo do Bom Jesus (Praça Padre Anchieta), marco zero da fundação da cidade, onde fica a Igreja do Bom Jesus, que nos primeiros anos da Vila de Itu foi a igreja matriz. Pouco mais acima situa-se o famoso Largo da Matriz (Praça Padre Miguel) onde há a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária, construída em 1780. Padre Miguel Dias Pacheco, que hoje empresta seu nome à praça, doou para a igreja os sinos, o órgão, o relógio, o marmoramento das paredes internas e o douramento interno. Ainda no chamado eixo-histórico, há o Largo do Carmo (Praça da Independência), onde se

situa o complexo formado pelo Convento e Igreja de Nossa Senhora do Carmo. O largo possui várias palmeiras imperiais, uma fonte luminosa e, aos finais de semana, no local funciona uma feira de artesanato.

Ainda na região central da cidade, há mais dois largos: o Largo de Santa Rita, também conhecido como Largo do Mercado (hoje Praça da Bandeira) e o Largo do Colégio, Praça Duque de Caxias, defronte ao quartel do Regimento Deodoro. O Largo do Colégio era assim chamado por abrigar as instalações do Colégio São Luís, que posteriormente, em 1918, deixou as instalações, sendo transferido para a Avenida Paulista em São Paulo, capital do Estado. A partir daquele momento, se instalou no majestoso prédio o 7º Regimento de Artilharia Montada, hoje 2º Grupo de Artilharia de Campanha Leve – Regimento Deodoro.

Moura Nápoli

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Visão do Morro do Teatro a partir do sopé, tendo ao fundo o antigo – hoje desativado – Teatro São Domingos. Vale ressaltar que a rua estava sendo pavimentada com paralelepípedos – Arquivo Campo&Cidade

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O Becão, hoje Passeio Público Marcos Steiner Netto, já foi chamado de Beco do Inferno e Beco da Bosta – Blog Fotos Antigas de Itu

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A Rua 7 de Setembro já foi o Beco do Fuxico. Na foto, um tempo em que ela era bem estreita entre o Largo da Matriz e a Rua Floriano Peixoto. As edificações à esquerda foram demolidas, transformando o beco em rua – Arquivo Campo&Cidade

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O antigo Beco do Cata-frango hoje é a Rua Gabriel Beluci, uma via sem saída no centro da cidade – Arquivo Campo&Cidade

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Antigamente a Rua das Abelhas separava a cidade da zona do meretrício – Tucano

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Aos 90 anos, Dona Irma, lembra-se da existência da Capelinha Cruz das Almas, que provavelmente deu origem ao nome da rua – Tucano

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Matadouro Municipal ficava isolado da cidade. Atualmente o local é a Vila Bandeirantes – Blog Fotos Antigas de Itu



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