Repensar a mobilidade urbana

Calçadão, zona azul eletrônica e terminais de integração são alguns planos da nova administração municipal

Itu/SP completou, no dia 2 de fevereiro, 407 anos de fundação. Acumular mais de quatro séculos de história é, ao mesmo tempo, um privilégio e um desafio. O espigão central, herança da colonização portuguesa, é um conjunto de ruas estreitas entremeadas por praças, o que confere a Itu um encanto histórico todo especial e atrai visitantes de várias partes do Brasil e do mundo. No dia a dia, porém, seus habitantes convivem com as dificuldades de encontrar o equilíbrio entre a vida moderna e a preservação do patrimônio histórico. Soma-se a isso a crônica má gestão do trânsito e dos espaços públicos. O resultado é uma chuva de reclamações de motoristas, ciclistas e pedestres, cujo cotidiano é marcado por perigos e dissabores nas ruas, praças e avenidas de sua “celebrada” cidade.

Entra ano e sai ano, alguns cruzamentos com elevado tráfego de veículos permanecem sem solução. Um deles é a rotatória na entrada do Bairro São Luiz, confluência da Avenida Ermelindo Maffei e da Rodovia D. Gabriel Paulino Bueno Couto (SP-300), com a Rua Paulo Eduardo Xavier de Toledo e a Avenida das Garças. Com todas as passagens em nível, o local é uma ameaça constante para motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres, especialmente em horários de maior movimento, como nos finais de tarde.

Outra rotatória cujo perigo resiste ao mexe-mexe executado até o momento pelos gestores do trânsito fica na Avenida Caetano Ruggieri, no encontro com as ruas Parque do Varvito e Dr. Graciano Geribello. Ali já se tentaram mudanças nas mãos de direção, lombadas, construção de canteiros e, agora, um semáforo de quatro tempos que causa enorme congestionamento nos horários de pico. Há ainda o caso da Galileu Bicudo, uma nova e moderna avenida concebida para “desafogar” o trânsito do centro, mas que não cumpre seu papel porque – contrariando o projeto inicial – tem apenas duas saídas para os vários bairros que atravessa.

Sobre essa avenida, o arquiteto e urbanista José Quirino de Arruda, que estuda o trânsito de Itu há 25 anos, conta que o projeto para construção da Galileu Bicudo é antigo, foi feito na década de 1990. “Ela seria construída em parte do leito da antiga Estrada de Ferro Sorocabana. Os trilhos estavam abandonados e atrapalhavam o desenvolvimento da cidade”, diz. O projeto foi feito, mas a concretização da obra demorou e sua inauguração só se deu em 2012. “Somente 30% do projeto inicial foi aproveitado. Em vez de uma avenida de integração, temos um corredor com apenas duas saídas”, critica Quirino.

Pedestres

À parte do que se pode modificar no trânsito de veículos, estão as péssimas condições das calçadas, principalmente na região central de Itu. Estreitas, não comportariam os postes da rede elétrica, mas eles estão lá. Em muitos pontos, como na Travessa do Carmo, o vão entre o poste e as paredes das construções não passa de 40 cm! Ou o transeunte é magrinho e se espreme para passar por ali ou tem que andar pelo leito da rua, disputando espaço com os veículos.

Os problemas não param por aí: há bueiros danificados com aberturas perigosas, calçadas levantadas por árvores de raízes grandes, piscinões sem gradil de proteção, lixo depositado no local reservado à passagem de pedestres e rampas fora de padrão para acessibilidade de cadeirantes e outros deficientes físicos. Nesse último quesito, um local cujas providências são emergenciais é a Praça Padre Miguel, pois nela está sediada a agência da Previdência Social, uma instituição frequentemente procurada por acidentados convalescentes, pessoas doentes e com dificuldades de locomoção. O acesso ao prédio, que fica na esquina das ruas Paula Souza e 21 de Abril, no entanto, é uma verdadeira aventura.

O ex-GM Nilton César da Silva se atreve. Baleado durante uma ação da Guarda Civil Municipal, ele recebeu um tiro que o deixou paraplégico. Atualmente, numa cadeira de rodas, vai sozinho até a agência da Previdência, não sem contar com pessoas – até desconhecidas – que o ajudam a vencer a rampa construída fora de padrão na própria calçada da instituição. “Há lei que obriga a Prefeitura e os novos estabelecimentos comerciais a construírem rampas de acesso, mas eles fazem de qualquer jeito, só pra dizer que tem. Não respeitam as normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas)”, critica.

Antônio Carlos Honório, que tem uma doença congênita na coluna vertebral e anda com o auxílio de muletas, diz que conta com a sorte para transitar a pé pelas ruas da cidade. A solução, segundo ele, seria a construção de um calçadão no centro histórico. Já o ex-secretário de escola Luís Aparecido de Lara, que teve poliomielite aos 3 anos de idade, recorre à colaboração do filho Giovanni para empurrar sua cadeira de rodas, mas não deixa de realizar nada do que precisa ou deseja, mesmo que precise esperar os horários em que passam por seu bairro os ônibus adaptados com elevadores. “Me considero um cidadão como outro qualquer. Trabalhei mais de 30 anos, paguei impostos e tenho direitos. Não vou me privar de nada”.

Marcos Assunção, gerente administrativo das empresas Viação Itu e Viação Avante, ambas concessionárias do transporte coletivo municipal com contrato até 2021, revela que dos 87 carros utilizados para o serviço, 45 dispõem de elevadores para cadeiras de rodas. “Nossa intenção é ter 100% de nossa frota com elevadores e, conforme a renovação da frota, vamos chegar a esse número”, garante. Para melhorar a mobilidade, as empresas estão iniciando também a instalação de novos abrigos protetores com espaço especial para os cadeirantes aguardarem os coletivos em segurança.

Plano de Mobilidade

Os municípios brasileiros têm até 2018 para desenvolverem e aprovarem uma lei que institua seu Plano de Mobilidade Urbana. É uma exigência da Lei Federal 12.587/2012. Com o Plano pretende-se chegar a solução para os inúmeros problemas relacionados à movimentação de pessoas e veículos nas cidades. Em novembro de 2016, ao apagar das luzes da gestão do prefeito Antonio Luiz Carvalho Gomes, o Tuíze (PV), foi realizada uma audiência pública para definição do Plano de Mobilidade Urbana de Itu, que seria, na sequência, enviado à Câmara de Vereadores para votação e aprovação. Não deu tempo: acabou o mandato e o novo prefeito, Guilherme Gazzola (PTB), decidiu interromper o processo para rever o Plano.

“O Plano de Mobilidade está no meio de um organograma de planos. É um plano acessório ligado ao Plano Diretor. Não fazia sentido tratarmos só da mobilidade sem revermos todos os outros planos, mas é uma exigência federal e será cumprida”, afirma o secretário de Planejamento de Itu, Plínio Bernardi Jr. Depois de conhecer o trabalho feito anteriormente, Plínio considera que “o Plano está bem feito”, mas falta a interligação entre o Plano de Mobilidade com os outros planos, como, por exemplo, o Código de Posturas, Lei de Zoneamento, Lei de Uso do Solo, Plano Diretor, os planos setoriais, como os Planos de Habitação e de Turismo. “Eles têm que dialogar entre si”, defende o secretário.

Parece complexo, mas Plínio acredita que em seis meses estará concluído o trabalho que compete à Prefeitura, graças ao setor de geoprocessamento de sua pasta, que possibilita inúmeros levantamentos. “Depois a gente vai conversar com os setores interessados e realizar as audiências públicas. Ao todo, estimo um ano”.

O diretor de Trânsito e Transporte Hélio Tomba Jr. assegurou, porém, que os problemas emergenciais serão resolvidos, independentemente do Plano de Mobilidade. “Não dá pra parar a cidade. Vamos usar o bom senso para solucionar as coisas mais urgentes”.

Intenções

Lucilene Camilotti Longhi, arquiteta da Secretaria de Planejamento, participou da elaboração do Plano de Mobilidade levado a discussão pública no ano passado. Segundo ela, as calçadas constituem o ponto mais importante do Plano, porque a prioridade são os pedestres. A ideia é que o pedestre se aproprie mais do centro do que os automóveis. Não há uma decisão tomada, mas está em discussão um calçadão no centro. “Já tivemos uma conversa com os lojistas e fizemos experiência com cavaletes, fechando a Rua Floriano Peixoto, entre as praças do Carmo (da Independência) e do Bom Jesus (Padre Anchieta)”, conta a arquiteta. Outra possibilidade em estudo é eliminar as áreas de estacionamento e ampliar as calçadas.

Hélio Tomba Jr. comenta que os terminais de integração do transporte coletivo, para retirar o trânsito de ônibus do centro, não foram esquecidos. “Serão linhas mais curtas, interligadas pelos terminais, para que as pessoas usem dois ônibus para chegar a seu destino, mas um só bilhete”, explica. Os terminais também terão o objetivo de proteger os passageiros do sol, da chuva e oferecer água. “Isso está no plano de governo do Guilherme Gazzola. Podem esperar por isso”, afirma Tomba.

Quanto às áreas para estacionamento, o secretário Plínio deseja tornar a zona azul melhor organizada. “Uma ideia é a zona azul eletrônica”, afirma. Também estão em projeto: postes inteligentes; monitoramento com câmeras com a finalidade de reduzir a violência e zona de estacionamento no sistema chamado “arco-íris” – quanto mais perto do centro, menos vagas e mais caras; quanto mais longe, mais vagas e mais baratas.

Para a perigosa rotatória próxima ao Bairro São Luiz, a solução, na visão de Plínio, é a construção de um complexo de viadutos. “Vamos fazer um bom projeto e pleitear verbas estaduais e federais para chegarmos a uma solução aérea”.

Rose Ferrari

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Rotatória na Avenida Ermelindo Maffei, próximo ao Bairro São Luiz, oferece risco permanente de acidentes – Tucano

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Na Vila Roma, uma das poucas rotatórias da Avenida Galileu Bicudo, concebida para integrar vários bairros – Tucano

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Bueiro danificado na Rua do Patrocínio é perigoso para os pedestres – Tucano

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Árvores de grande porte, impróprias para áreas urbanas, quebram as calçadas – Tucano

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Piscinão do Jardim Faculdade não tem gradil de proteção e expõe transeuntes ao risco – Tucano

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Marcos Assunção mostra os novos abrigos com proteção para cadeirantes que estão sendo instalados pela Viação Itu – Tucano

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Para subir a rampa fora de padrão na Rua 21 de Abril, em frente ao INSS, o ex-GM Nilton César da Silva precisa de ajuda – Tucano

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O deficiente físico Antônio Carlos Honório sofre para caminhar pela Rua Madre Maria Theodora, próxima à Praça Padre Miguel – Tucano

09 -DSC_0261 - Luís Aparecido de Lara e seu filho Giovanni

Mesmo com dificuldades, Luís Aparecido de Lara não deixa de exercer seus direitos – Tucano

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Lixo acumulado impede a passagem de pedestres pela calçada da Rua Prof. Antônio de Almeida Prado, no Jardim Novo Itu – Tucano

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Secretário de Planejamento de Itu, Plínio Bernardi Jr. (esq.), diretor de Trânsito e Transporte Hélio Tomba Jr. e a arquiteta Lucilene Camilotti Longhi – AI Prefeitura de Itu

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José Quirino de Arruda ao lado de seu filho desenvolveu projeto de Traffic Calming para Itu – Rose Ferrari



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