Das lavouras às fábricas

Resistência à exploração nos cafezais engrossou quadros de trabalhadores urbanos

De todas as correntes imigratórias que se dirigiram para o Brasil entre 1870 e 1920 destaca-se a italiana, com 1,4 milhões de indivíduos. Esse número representa 42% do total dos 3.330.188 imigrantes que entraram no País no mesmo período. Essa grande entrada de italianos coincidiu com o período em que o governo brasileiro se empenhou em atrair mão-de-obra para as lavouras de diversos Estados.

Cabe lembrar que a política imigratória brasileira durante a maior parte do século 19 oscilou entre o desejo de grupos liberais de trazer pequenos proprietários para o projeto de povoamento da região sulina e com o interesse de grandes proprietários de ampliar a oferta de mão-de-obra para a agricultura de exportação. Os grandes proprietários, especial-mente os de São Paulo, mais fortes economicamente e politicamente mais organizados, impuseram suas regras e seus interesses. A partir de 1870 esses interesses foram atendidos pela entrada de imigrantes pobres, cujo destino seria substituir o trabalhador escravo nas grandes lavouras e não o de se tornarem pequenos proprietários.

Como bem lembrou a historiadora Zuleika Alvim, autora do livro “Brava Gente” – os italianos em São Paulo, o embate entre essas duas posições passou por outras justificativas, como o branqueamento da raça, a necessidade de forjar uma nação mais civilizada e de construir um País onde o binômio senhor/escravo fosse de certa forma amenizado.

Resistência

A partir de 1850, o crescimento da lavoura cafeeira propiciou a São Paulo uma fase de intensa prosperidade. O café paulista era exportado para todo o mundo e atraía, cada vez mais, investimentos em terras, máquinas de beneficiamento, meios de transporte e, principalmente, em trabalhadores agrícolas.

Apesar da implantação em São Paulo de alguns núcleos coloniais, eles não atendiam aos interesses dos cafeicultores. Os fazendeiros paulistas precisavam de mão-de-obra barata que substituísse o braço escravo.

Um grupo deles organizou a Sociedade Promotora da Imigração (SPI) que, com o apoio do Governo imperial, implementou uma política imigratória em larga escala baseada na arre-gimentação subvencionada. Isto é, os imigrantes eram arregimentados em seu país de origem e a viagem até a fazenda no Brasil seria subvencionada, para posteriormente ser paga com trabalho.

Instalado na fazenda, em pouco tempo o imigrante se veria frente a frente com a brutal diferença entre a promessa dos agentes arregimentadores e os rigores do trabalho e da sobrevivência nos cafezais. Como unidade produtiva, a fazenda cafeeira extraía o máximo possível dos trabalhadores, incluindo aí mulheres e crianças. Os fazendeiros paulistas, na sua maioria dominados por uma mentalidade escravista, esta-beleciam uma relação de onipotência em face do trabalhador livre. Não tardaram a surgir resistências.

Procedentes de sociedades onde já existiam embates entre trabalhadores e proprietários, os imigrantes reproduziram nas lavouras paulistas uma resistência de classe. As greves no campo, apesar de limitadas, assustaram os desprevenidos fazendeiros. Outra forma de resistência dos italianos foi a mobilidade geográfica. Eles fugiam para outras fazendas, reemigravam para a Argentina, retornavam ao país de origem ou mudavam-se para os centros urbanos.

Urbanização

Os negócios do café fomentaram a industrialização do País, mas também custearam grande parte das despesas gerais, econômicas e sociais necessárias para tornar proveitosa a manufatura nacional. Antigas cidades começaram a se desenvolver e novos núcleos urbanos foram construídos. A implantação da rede de estradas de ferro proveio basicamente da expansão dos negócios do café.

Um grande número de imigrantes deixou os cafezais para se estabelecer na capital paulista ou em cidades como Campinas, Jundiaí, Piracicaba, Sorocaba e Itu, entre tantas outras. É inegável o papel significativo do italiano na industrialização e, conseqüen-temente, na formação e desenvolvimento das cidades.

Trabalhando como operário nas fábricas, estabelecendo-se como pequeno comerciante, artesão ou mestre-de-obras, o imigrante italiano deixou uma marca indelével no processo de urbani-zação do Estado de São Paulo.

O primeiro estudo sobre a industrialização na capital paulista, realizado em 1901, indicava que dos 50 mil trabalhadores empregados nas fábricas 90% eram italianos. Essa estatística é uma prova contundente do papel desse imigrante no processo de urbanização do Estado.

Jonas Soares de Souza



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