Editorial

Desenterrar a história dos cemitérios ituanos

Sem pretensão, essa é proposta desta edição da revista Campo&Cidade, pois como a maioria das localidades antigas do Brasil, Itu/SP possuía vários campos santos espalhados pela cidade.

Não quero aqui colocar medo ou deixar alguém arrepiado com o que vou contar: mesmo sem saber, ao caminhar pelas centenárias ruas, praças ou vielas de Itu, com certeza você já pisou onde um dia foi cemitério ou jazigo de alguma ordem religiosa.

Com a expansão e o desenvolvimento urbano do município ao longo dos últimos 402 anos, alguns desses locais onde outrora serviram de última morada para muitos que partiram desta para a outra dimensão, a cidade se expandiu e, com isso, ganhou vida com novas ruas, praças, moradias, prédios comerciais e públicos.

Antes da inauguração do atual Cemitério Municipal de Itu, ocorrido no dia 28 de setembro de 1884, sob as bênçãos de padre Miguel Correa Pacheco, vigário da Igreja Matriz Nossa Senhora da Candelária, havia o Cemitério da Boa Morte, localizado onde hoje passam as ruas Santa Rita e Pedro de Paula Leite, nos fundos do Instituto Borges de Artes e Ofícios (Ibao). O ex-morador desse região, Luiz Carlos de Araújo (Lisca), contou que quando reformou sua casa encontrou ossadas humanas nas fundações do imóvel.

A aproximadamente um quarteirão dali existe até hoje o cemitério do Mosteiro da Imaculada Conceição, das Irmãs Redentoristas, na Rua Capitão Fleming; mais acima, atrás da Santa Casa de Misericórdia de Itu, há o cemitério do Mosteiro Concepcionista de Nossa Senhora das Mercês, na Rua Madre Maria Basília; algumas quadras abaixo, se encontra o cemitério do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, na Praça Regente Feijó, conhecida também como Largo do Patrocínio; em frente, existiu o cemitério do Conventinho da mesma irmandade Concepcionista Nossa Senhora das Mercês que, antes de transferido para o atual endereço, ficava instalado na Praça Rente Feijó, esquina com a Rua do Patrocínio; dois quarteirões dali estão ainda hoje algumas carneiras (catacumbas) vazias do antigo Jazigo do Convento do Carmo, o qual existiu no terreno ao lado da Igreja Nossa Senhora do Carmo (Praça da Independência) até 1968, quando foi demolido durante o mandato do prefeito João Machado de Medeiros Fonseca (Arena).

O roteiro dos antigos campos santos ituanos ainda não acabou. Ao caminhar mais cerca de seis quarteirões em direção ao Bairro Padre Bento se chega à Praça D. Pedro I, local onde havia o antigo Cemitério da Ordem Terceira dos Franciscanos. Coincidências à parte, foi nessa mesma região da cidade que, ao serem feitos arruamentos e ajardinamentos, foram encontradas igaçabas (urnas funerárias indígenas), provavelmente dos índios Guaianá que habitavam estas terras antes de surgir o povoado, fundado por Domingos Fernandes e seu genro Cristóvão Diniz em 1610.

A apenas três quarteirões dessa antiga praça, na Rua Direita (hoje Rua Paula Souza), em terreno de propriedade de Antonio Francisco de Paula Souza, e nas proximidades da atual Delegacia de Polícia de Itu, integrantes da Irmandade de São Benedito eram sepultados no cemitério que ali havia sido destinado aos devotos desse santo, na maioria deles, escravos ou descendentes.

Não muito distante dali existiu o cemitério do Hospital dos Lázaros e Capela do Senhor do Horto (Chácara Felicidade), no Bairro Padre Bento. Também destinados aos finados que portavam a hanseníase havia o Cemitério São José, no hospital-colônia Dr. Francisco Ribeiro Arantes, no Bairro Pirapitingui. Francisco Nardy Filho cita num de seus livros outros três cemitérios ituanos: Cemitério Reúno, chamado também de Cemitério dos Escravos, Paroquial e da Irmandade do Rosário. Segundo tradição oral, este último ficava localizado próximo à atual Câmara Municipal. O último instalado e, em seguida, desativado foi o cemitério particular Memorial Pedra da Paz, localizado na Estrada Velha Itu/Salto.

No final do século 19, por questões de higiene e saúde pública, foi fundado o atual Cemitério Municipal de Itu conhecido, naquela época, como cemitério extramuros. Essa denominação era usada pelo fato do campo santo ficar localizado fora da cidade. Depois de sua inauguração os sepultamentos foram proibidos nos demais cemitérios locais, com exceção somente de uma ou outra ordem religiosa (cemitério claustral).

O tempo passou, a cidade cresceu e hoje o Cemitério Municipal de Itu se encontra novamente dentro da zona urbana, tendo se transformado ao longo de seus 128 anos em mais um valioso patrimônio histórico de Itu, o qual compartilha vida e morte, servindo de última morada aos cidadãos ituanos, sejam eles ricos ou pobres, ilustres ou não.

João José “Tucano” da Silva
Editor responsável



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