Da era do papel ao mundo virtual

Contabilidade e tecnologia andaram juntas ao longo do tempo na rotina dos escritórios

A adaptação às inovações tecnológicas é fundamental para qualquer ramo profissional. Com a Contabilidade não é diferente. Os escritórios estão constantemente conectados à internet, na qual toda ação ocorre e a grande maioria dos procedimentos é realizada. Entretanto, para chegar a essa era, a Contabilidade percorreu uma longa estrada.

Benedito Gatti, à dir, entregando diploma à aluna da Escola Junqueira Ortiz. Ele trabalhou na época em que a Contabilidade era feita sem computador – Coleção Benedito Gatti

Antes de ser uma ciência, a Contabilidade deu seus primeiros passos por volta de 8 mil a.C. Naquela época, as civilizações realizavam uma “Contabilidade” superficial, sem qualquer sistema definido. O surgimento do ábaco, em 2,4 mil a.C., auxiliou nas contas. O ábaco é um antigo instrumento de cálculo, formado por uma moldura com bastões ou arames paralelos, dispostos no sentido vertical, correspondentes cada um a uma posição digital (unidades, dezenas,…) e nos quais estão os elementos de contagem (fichas, bolas, contas…) que podem fazer-se deslizar livremente.

Outro grande avanço ocorreu por volta de 1450: Johannes Gutenberg inventou a prensa que serviu até a metade do século passado para copiar os livros diários.

A prensa era utilizada para copiar o livro diário, método que causava uma grande sujeira – Tiago Keese

Primeiras máquinas

Os modelos iniciais de máquinas que auxiliavam na Contabilidade nas primeiras décadas do século 20 eram rudimentares e serviam apenas para somar e subtrair. Em um dos modelos, que tem cerca de 80 anos, era necessário puxar pequenas alavancas para escolher os números e depois uma maior para fazer a conta. “Se puxasse a alavanca para frente somava e para trás subtraía”, relata o mecanógrafo Afonso de Oliveira, que trabalhou por 52 anos consertando máquinas.

Nas décadas seguintes, os aparelhos tiveram leve, mas significativo avanço: passaram a multiplicar e depois a dividir, fazendo assim as quatro operações matemáticas. De acordo com Afonso de Oliveira, “apenas os donos dos escritórios e os gerentes tinham as máquinas; eram caríssimas e importadas”. Com o passar dos anos, outras evoluções chegaram ao mercado, como máquinas menores, mecanizadas e depois elétricas e com outras funções.

Nos dias atuais, os escritórios não funcionam sem computadores e acesso rápido à internet – Tiago Keese

Além das máquinas de calcular, as de escrever também surgiram no século 20 e ganharam espaços nos escritórios seguindo o mesmo ritmo de aperfeiçoamento ao longo dos anos.

Mesmo assim, na metade do século 20, os procedimentos de registros ainda eram manuscritos em vários livros. O professor Benedito Gatti, que se formou e deu aulas na Escola Junqueira Ortiz na área de Contabilidade durante 14 anos, se lembra de seus tempos nos escritórios contábeis: “Na década de 60 tínhamos os Livros Auxiliares, Escriturados, Fornecedores, Duplicatas, Contas a Receber, Conta Corrente e Livro Diário. Tudo feito a mão”.

Calculadora com mais de 50 anos: números se repetiam várias vezes; o contador inseria as casas decimais no valor e fazia os cálculos – Tiago Keese

Da Ficha Tríplice ao computador

A chegada da Contabilidade mecanizada trouxe duas novidades: a Ficha Tríplice e o Front Feed. O proprietário do escritório SS Contabilidade, Alvimar Savi, se lembra dos tempos da Ficha Tríplice e seu funcionamento. Ele relata que para fazer a cópia do Livro Diário era usada uma prensa. Datilografava-se o conteúdo em uma ficha copiativa roxa. Em seguida, colocava-se o papel com folhas de carbono preto, o livro diário onde a informação seria depositada (que era feito de papel de seda) e uma espécie de placa de gelatina. Então a prensa era fechada e, no dia seguinte, a cópia estava pronta. Tal procedimento exigia habilidade do operador, pois qualquer falha provocava uma grande sujeira. Já o sistema Front Feed foi um dispositivo criado para inserir simultaneamente na máquina de escrever a ficha do Livro Diário e de outro livro, conforme explica Benedito Gatti, que trabalhou com esse sistema.

A tecnologia se transformou e a Contabilidade seguiu seu ritmo. O computador pessoal ou personal computer (PC) chegou ao Brasil e logo os escritórios passaram a usá-lo. Assim como as primeiras máquinas, os modelos iniciais – com poucas funções – eram caríssimos, o que obrigava os profissionais a manterem apenas um computador na grande maioria dos escritórios. Gatti e Savi se lembram da época em que os relatórios eram enviados para Londrina/PR, num malote, para serem processados num bureau que fazia os cálculos num computador enorme. Ao retornarem, os documentos eram analisados e o balanço fechado. A iniciativa era organizada por José Paulo Tarchiani.

Máquina de origem alemã, com cerca de 80 anos, fazia as quatro operações matemáticas, sendo acionada manualmente por meio de uma manivela – Tiago Keese

A Contabilidade ficou cada vez mais simples e rápida. O processamento eletrônico de dados foi fundamental, pois além de tempo economizou espaço, já que processos antes feitos a mão são armazenados de maneira eletrônica, na memória dos computadores. Algumas declarações já eram entregues aos bancos não mais em papel, mas em disquetes (objeto precursor do CD, mas com capacidade muito menor para guardar arquivos).

A Era Virtual

Quando a internet chegou à Contabilidade, o impacto foi grande. As proprietárias da LB Organização Contábil, Leana Bueno Leme e Adriana Maria Bueno se lembram de como foi importante a transformação.

Elas relatam que na segunda metade dos anos 90, as declarações jurídicas passaram a ser entregues pela internet. “Era um programa muito simples para transmitir as declarações”, diz Leana. Há órgãos que, de acordo com Adriana, não possuem um sistema de declarações pela internet, como o caso do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para o qual a entrega ainda é feita de maneira física.

Sendo assim, engana-se quem pensa que as máquinas mecanizadas sumiram. Mesmo não sendo mais fabricadas, todo escritório tem uma pequena calculadora e uma máquina de escrever, ainda que seja para produzir um recibo simples.

Atualmente, os dados são rapidamente transmitidos. Para o governo, as declarações via internet ajudam na fiscalização e detecção de problemas. Leana explica que o cruzamento de dados entre os programas usados é muito forte, e os órgãos têm o controle do que é feito nos escritórios, impedindo sonegações.

A Nota Fiscal Eletrônica e o Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) surgiram nesse sentido. O primeiro implanta um modelo nacional de documento fiscal eletrônico, substituindo a emissão em papel. O segundo consiste na modernização do sistema atual do cumprimento das obrigações acessórias (aquelas obrigações que vêm junto com a obrigação principal) transmitidas pelos contribuintes tanto para o Governo como para os órgãos fiscalizadores.

A facilidade é cada vez maior. Porém, o estudo da Contabilidade continua importante. Os escritórios preferem contratar quem já conhece os procedimentos contábeis. O professor Benedito Gatti salienta que o profissional deve se interessar por legislações – que mudam a cada momento – e por números, garantindo assim o sucesso tanto de seu trabalho como o do cliente.

Disquetes, dispositivos onde eram armazenadas as declarações entregues para órgãos como a Receita Federal, e uma calculadora antiga – Tucano

Tiago Keese



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