Origens da Contabilidade

A Contabilidade é tão antiga quanto a origem do homem pensante

Jesus expulsa mercadores do templo – Coleção Ateliê Iconographia

A Contabilidade é tão antiga quanto a vida em sociedade. Estudos arqueológicos revelam que os homens das cavernas se valiam de desenhos para representar o controle patrimonial. No Novo Testamento o evangelista Mateus era contador, cobrador de tributos, e dessa forma, atuava na área da Contabilidade Pública. A Contabilidade surgiu da necessidade de o homem acompanhar e controlar a evolução de seu patrimônio. Por isso, pode-se concluir que a Contabilidade faz parte do desenvolvimento do próprio ser humano e da sociedade e, no dizer de Sérgio de Iudícibus, é tão antiga quanto a origem do homem pensante.

São Mateus, patrono dos contabilistas – Coleção Ateliê Iconographia

Ao inventariar o número de instrumentos de caça e pesca disponíveis, ao contar seus rebanhos ou suas ânforas de bebidas, o homem pré-histórico já estava praticando uma forma de Contabilidade. Entretanto, o desenvolvimento da Contabilidade liga-se à necessidade de registros do comércio, tendo em vista que à medida que o homem começava a possuir maior quantidade de bens e valores, ele precisava saber quanto isso poderia render e quais as formas de aumentar seu patrimônio.

Por outro lado, o comércio era o fundamento das cidades e há indícios de que as primeiras cidades comerciais eram dos fenícios, embora a prática do comércio fosse exercida nas principais cidades da Antiguidade.

Ânforas de vinho – Museu Arqueológico de Atenas

Aperfeiçoamento da Contabilidade

A necessidade de dados para controlar e aumentar o patrimônio requeria registros cada vez mais apurados: os sumérios e babilônios, assim como os assírios, faziam os seus registros em peças de argila; a cobrança de impostos na Babilônia já se fazia com escritas; no ano 2000 a.C. um escriba egípcio já contabilizava os negócios do governo, e o desenvolvimento do papiro e do cálamo (recursos para escrever) facilitava suas operações; na Grécia praticava-se um registro apurado do comércio de ânforas de vinho e, baseando-se em modelos egípcios, os gregos já escrituravam Contas de Custos e Receitas, procedendo anualmente a uma confrontação entre elas para apuração do saldo; as escritas governamentais da República Romana (200 a.C.) já traziam receitas de caixa classificadas em rendas e lucros e as despesas compreendidas nos itens salários, perdas e diversões.

Feitorias fenícias – Coleção Ateliê Iconographia

Foi na Idade Média, na região onde hoje é a Itália, porém, que surgiu o termo Contabilitá. “Se os sumério-babilônios plantaram a semente da Contabilidade e os egípcios a regaram, foram os italianos que fizeram o cultivo e a colheita”. Em 1202 apareceu o livro “Liber Abaci”, de Leonardo Pisano, resultado do estudo de técnicas matemáticas, pesos e medidas, câmbio, e conhecimentos comerciais e financeiros. O aperfeiçoamento da Contabilidade era exigência das necessidades geradas pelo processo de produção da sociedade capitalista, que possibilitava a acumulação de capital e alterava as relações de trabalho, tornando os registros muito mais complexos.

Entrada dos cruzados em Constantinopla – Óleo s/tela, Eugène Delacroix, 1840

No final do século 13 apareceu pela primeira vez a conta “Capital”, representando o valor dos recursos injetados nas companhias pelos respectivos proprietários. O método das Partidas Dobradas também surgiu na Itália, assim como o Livro da Contabilidade de Custos. No início do século 14 já se encontravam registros apurados de custos comerciais e industriais em suas diversas fases: custo de aquisição; custo de transporte e dos tributos; juros sobre o capital, referente ao período transcorrido entre a aquisição, o transporte e o beneficiamento; mão-de-obra direta agregada; armazenamento; o que representava uma apropriação bastante analítica para época.

Bergen, na Noruega, cidade estratégica na rota do comércio na Idade Média – Coleção Ateliê Iconographia

Contabilidade moderna

No início dos tempos modernos três acontecimentos produziram profundas transformações: em 1453 os turcos tomaram Constantinopla, obrigando os sábios bizantinos a emigrar principalmente para Itália; em 1492 foi descoberta a América, revelando um enorme potencial de riquezas para alguns países europeus; em 1517 a reforma protestante abalou o domínio da Igreja Católica e levou multidão de perseguidos na Europa a emigrarem para as Américas. Antigas cidades ganharam novas vocações, como Bergen, na Noruega; Bruges e Antuérpia na Bélgica; e Veneza, na Itália. A Contabilidade tornou-se imprescindível para o estabelecimento de mecanismos de controle das incontáveis riquezas que o Novo Mundo representava.

Veneza, na Itália, importante entreposto comercial – Coleção Ateliê Iconographia

Nessa época, precisamente em 1494, foi lançado o livro que marcou o início da fase moderna da Contabilidade: o “Tratactus de Computis et Scripturis” (Contabilidade por Partidas Dobradas), do frei Luca Pacioli, contemporâneo de Leonardo da Vinci. Matemático, teólogo e contabilista, Pacioli, considerado o pai da Contabilidade, escreveu outras obras, destacando-se a “Summa de Aritmética, Geometria, Proportioni et Proporcionalitá”, impressa em Veneza, na qual está inserido o seu tratado sobre “Contabilidade e Escrituração”.

Bruges, na Bélgica, sede da primeira bolsa de comércio – Coleção Ateliê Iconographia

O “Tratactus” destacava, inicialmente, o necessário ao bom comerciante. Em seguida, conceituava inventário e como fazê-lo. Analisava os livros mercantis: memorial, diário e razão, e sobre a autenticação deles; sobre registros de operações: aquisições, permutas, sociedades; sobre contas em geral: como abrir e como encerrar; contas de armazenamento; lucros e perdas.

Pacioli não só sistematizou a Contabilidade, como também abriu precedente que para novas obras pudessem ser escritas sobre o assunto. É compreensível que a formalização da Contabilidade tenha ocorrido na Itália, afinal, naquele período as cidades italianas eram os principais entrepostos do comércio mundial.

Novos conhecimentos

Estudos da evolução da Contabilidade fizeram surgir três escolas do pensamento contábil: a primeira foi a Escola Lombarda, chefiada por Francisco Villa, autor da “La Contabilità Applicatta alle administrazioni Private e Plubbliche”; a segunda, a Escola Toscana, chefiada por Giuseppe Cerboni; e a terceira, a Escola Veneziana, por Fábio Bésta. Francisco Villa extrapolou os conceitos tradicionais de Contabilidade, segundo os quais escrituração e guarda-livros poderiam ser feitos por qualquer pessoa inteligente. Para ele, a Contabilidade implicava em conhecer a natureza, os detalhes, as normas, as leis e as práticas que regem a matéria administrada, ou seja, o patrimônio. Era o pensamento patrimonialista.

Antuérpia, na Bélgica, considerada um centro comercial do mundo – Coleção Ateliê Iconographia

Fábio Bésta, seguidor de Francesco Villa, superou o mestre em seus ensinamentos. Demonstrou o elemento fundamental da conta, o valor, e chegou muito perto de definir patrimônio como objeto da Contabilidade. Foi Vicenzo Mazi, seguidor de Fábio Bésta, quem pela primeira vez, em 1923, definiu patrimônio como objeto da Contabilidade.

Entretanto, a escola europeia teve peso excessivo da teoria, sem demonstrações práticas, sem pesquisas fundamentais: a exploração teórica das contas e o uso exagerado das partidas dobradas, inviabilizando, em alguns casos, a flexibilidade necessária, principalmente na Contabilidade gerencial.

Frei Luca Pacioli, “pai da Contabilidade moderna” – Óleo de Jacopo De Barbari, Museo e Galleria di Capodimonti, Nápoles/Itália

A partir de 1920 iniciou-se a fase de predominância norte-americana dentro da Contabilidade. As escolas europeias perderam a hegemonia, abrindo espaço para as escolas norte-americanas com suas teorias e práticas contábeis favorecidas pela imensa estrutura econômica e política, apoiada em intensa pesquisa e produção de conhecimento novo.

Fábio Bésta, criador da Escola Veneziana de Contabilidade – Digilander/Ibero, 2011

Jonas Soares de Souza



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