Espírito esportivo

Cem anos de competições e vitórias do Regimento Deodoro

No prédio que hoje abriga o 2º Grupamento de Artilharia de Campanha Leve – Regimento Deodoro, em Itu/SP, funcionou anteriormente o Colégio São Luís, tradicional instituição de ensino administrada por padres jesuítas. No livro “Visão do Jogo – Primórdios do Futebol no Brasil”, o pesquisador da PUC Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas), José Moraes dos Santos sustenta que o Colégio São Luís era referência no sistema educacional na América Latina e foi pioneiro ao introduzir o esporte como prática recreativa dos alunos.
Santos defende a tese de que o futebol brasileiro teve origem em Itu, por volta de 1880, com os jesuítas, contrariando a versão de que Charles Miller teria introduzido esse esporte no País. Faz afirmações de que eram praticadas outras modalidades no colégio como malha, exercícios militares, lançamento de disco, dardo, corridas, salto em altura e corrida com obstáculos. As dependências desse histórico prédio que, em 1918, passou abrigar o Regimento Deodoro, são palco, portanto, de uma tradição na prática esportiva do País.

Lance seguinte
Após a transferência da instituição de ensino para a capital paulista, anos mais tarde foi a vez do Quartel de Itu, como a unidade é popularmente conhecida, viver momentos áureos no esporte. Ali as disputas eram acirradas quando se tratava de campeonatos internos entre as baterias. Nos anos 60 o Regimento Deodoro promoveu torneios de Futebol de Salão em que participavam clubes da cidade. O Grêmio Deodoro era o time que representava os soldados e, durante os Jogos Regionais de 1962, partidas de vôlei e futebol de campo aconteceram no local.
Na década de 70, a Corrida Duque de Caxias ganhava cada vez mais notoriedade. A prova era realizada no mês de agosto e reunia centenas de pessoas. Já em 2009, o Quartel de Itu sediou as Olimpíadas Militares da 11ª Brigada de Infantaria Leve, da qual participaram outras unidades do Estado de São Paulo.

Batalha esportiva
A história do esporte em Itu passa pelo Regimento Deodoro, pois alguns nomes importantes que contribuíram na consolidação dessa atividade no município serviram nessa unidade militar. É o caso de José Araújo Dias, ou melhor, Seo Zezé Dias, como era respeitosamente chamado.
O ex-militar fundou a primeira equipe de natação de Itu e por décadas dedicou-se à formação de atletas nas quadras, piscinas e pistas de atletismo. Como esportista e técnico, defendeu as cores de Itu em várias competições regionais e estaduais. Sua filha, Solange Leme Dias Giacomini, conta que aos 16 anos ele ingressou no Exército Brasileiro como voluntário, seguindo os passos de seu pai, o sargento Joaquim Dias.
Como militar, também participou de inúmeras disputas defendendo o Quartel de Itu. Formou-se em Educação Física na Escola Militar em Resende/RJ. Solange lembra que a natação e o basquete sempre foram seus esportes preferidos. Zezé faleceu recentemente aos 95 anos de idade.

Referência e reconhecimento
Entre fotos e recordações da família, um papel já um pouco amarelado pela ação do tempo chama atenção. Nele está o discurso que Zezé Dias escreveu quando recebeu o título de “Cidadão Ituano”. Ali fez um resumo de sua vida e atribuiu a paixão pelo esporte a Joaquim Dias: “Minha paixão pelos esportes deveu-se, principalmente, ao exemplo de meu pai. O mesmo sempre fora um atleta, tanto no meio militar como no civil.”
Segundo consta na caderneta militar, Joaquim Dias nasceu no Rio Grande do Norte, lutou na Revolução de 1932 e veio para Itu em 1934, integrando o 4º RAM (Regimento de Artilharia Montada) e aposentou a farda cinco anos depois.
No esporte teve grande representatividade, seja como técnico de atletismo, de basquete ou no quadro de diretores da Associação Atlética Ituana. Como forma de reconhecimento, o primeiro ginásio de esportes da cidade foi batizado com o seu nome. Joaquim Dias faleceu em 1977.

Irmãos Araújo
Assim como outras unidades militares brasileiras, o Regimento Deodoro revelou talentos esportivos. Os irmãos ituanos Rafael e Rodrigo Araújo são exemplos de destaque no atletismo brasileiro.
Rafael serviu de 1997 a 2004, ganhou inúmeras provas como velocista e chegou à Seleção do Exército, com especialidade nos 100 metros rasos. Já seu irmão Rodrigo, que integrou no serviço militar nos anos de 1998 a 2005, destacou-se no salto em distância e obteve excelentes resultados.
A dupla representou Itu nos Jogos Regionais, Abertos do Interior, Troféu Brasil, entre outros. Brilharam na equipe brasileira de atletismo e tornaram-se os primeiros irmãos a competirem juntos o revezamento 4 x 100.

Passou por aqui
Gaúcho de Dom Pedrito/RS, Cláudio Coutinho é considerado até hoje um dos mais importantes técnicos de futebol do Brasil. Comandou a seleção brasileira de futebol e o Clube de Regatas do Flamengo. Na Copa do Mundo de 1978, disputada na Argentina, ele levou o Brasil ao terceiro lugar sem perder uma partida. Na Gávea, foi tricampeão carioca e conquistou o Brasileirão de 1980.
Antes de se destacar no mundo da bola, no entanto, o ex-treinador fez carreira no Exército. Ainda jovem, ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras e, depois de formado, serviu em Itu, como aspirante a oficial, em 1960. Valter Lenzi, jornalista e editor do jornal Taperá, de Salto/SP, foi soldado no Regimento Deodoro naquela época e guarda boas lembranças. Segundo Lenzi, Cláudio Coutinho era muito querido por todos da 2ª Bateria de Obuses e tinha vida social bastante intensa em Itu. Frequentava os bailes no Ituano Clube e jogava vôlei na Associação Atlética Ituana.
Ele conta que Coutinho era verdadeiro atleta e muito bom nas cortadas do vôlei e nos campeonatos internos, era técnico da equipe de futebol da bateria. Coutinho deixou Itu em março de 1962 como segundo tenente e faleceu em 1981.

Esquadrão de ouro
Não é de hoje que as instituições militares incentivam o esporte. Agora ainda mais. O Ministério da Defesa, em conjunto com as Forças das Armadas, criou em 2008 o Programa Atleta de Alto Rendimento que oferece aos militares atletas estrutura e apoio financeiro.
Nas Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro/RJ, os resultados surpreenderam. Dos 465 atletas brasileiros participantes, 145 eram militares. As medalhas conquistadas pelo Time Brasil chegou a 13, sendo que no total o Brasil conquistou 19. Um ano antes, no Pan-americano de Toronto, Canadá, e 2012, nas Olimpíadas de Londres, as Forças Armadas também estiveram presentes.
Entre as modalidades disputadas pelas Forças Armadas, destaque para a seleção masculina de vôlei, sendo tricampeã mundial da categoria e bicampeã dos Jogos Mundiais Militares. A mais recente conquista ocorreu em 2015 na Coréia do Sul.
Orgulho para a nação e para o Regimento Deodoro, o tenente coronel Fabrício Stoppa, atual subcomandante do 2º GAC L, teve participação direta na conquista dos cinco títulos, pois integra a comissão técnica da seleção como chefe da equipe desde 2011. Stoppa afirma orgulhoso que, para quem é envolvido no esporte dentro Exército, isso é o auge. “Estar à frente da seleção como responsável pela parte técnica é muito gratificante”, afirma. Antes de ocupar o cargo, o tenente coronel também foi atleta: jogou vôlei de 1996 a 2002 e fez parte da equipe que conquistou o terceiro lugar no mundial de 2001, na Itália. Ele pretende encerrar a carreira na seleção de vôlei das Forças Armadas nos Jogos Mundiais Militares de 2019, na China, e espera aposentar-se com a medalha de ouro no peito.
Thiago Sório

01 – Abertura das Olimpíadas Militares da 11ª Brigada de Infantaria Leve, realizada em 2009 em Itu – Acervo Regimento Deodoro

02 – Centenas de pessoas, entre civis e militares, durante largada da Corrida Duque de Caxias em 1996 – Acervo Regimento Deodoro

03 – Equipe de basquete do Regimento Deodoro em 1956. Primeiro, sentado à esquerda., tenente José Araújo Dias (Zezé Dias) – Coleção Solange Leme Dias Giacomini

04 – Sargento Joaquim Dias, que lutou na Revolução Constitucionalista de 1932, ajudou na evolução do esporte ituano e dá nome ao ginásio de esportes de Associação Atlética Ituana – Coleção: Rute Dias

05 – No centro do pódio, o ex-velocista Rafael Araújo após vencer a prova dos 100 metros rasos na 11ª Brigada de Infantaria Leve, em 1999 – Coleção Rafael Araújo

06 – O ex-atleta Rodrigo Araújo com a medalha de vice-campeão Mundial Militar no salto em distância, conquistada em 2002 na Itália – Coleção Rodrigo Araújo

07 – Ainda jovem, Claudio Coutinho com a farda de oficial do Exército Brasileiro – Coleção Claudia Coutinho

08 – O técnico Claudio Coutinho (à dir.) na vitória da seleção brasileira sobre a Argentina no Estádio do Maracanã em 1979. Ao lado de Coutinho, José de Souza Teixeira, auxiliar técnico da equipe – Livro 50 anos Por Dentro do Futebol: Histórias e Bastidores

09 – Seleção brasileira de vôlei das Forças Armadas durante os Jogos Mundiais Militares da Coreia do Sul em 2015. O tenente coronel Stoppa é o segundo, em pé, da esquerda para a direita – Coleção tenente coronel Stoppa



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