Itu sempre bateu um bolão

No Colégio São Luís, em Itu/SP, a bola rolou antes de Charles Miller trazer o futebol para Brasil em 1894

O esporte que se tornou paixão nacional passou primeiro pelo antigo colégio jesuíta ituano, fundado em 1867. Era praticado nas aulas de ginástica dos filhos da elite paulista e de diversas regiões do Brasil que iam estudar em Itu. Além de bons mestres, o Colégio São Luís possuía arrojada infraestrutura com laboratórios de Ciências Naturais, Física, Química e Farmacêutico. Havia ainda estação meteorológica para estudos de Astronomia. Entre 1879 e 1881, os jesuítas foram à Europa para visitar escolas onde o futebol era praticado. Na França conheceram o Colégio Vannes e, na Inglaterra, onde nasceu o futebol, a Harrow School. Na Alemanha viram sua prática paralela à ginástica alemã.

O colégio de Itu não foi celeiro de craques. Nem era esse o objetivo do jesuíta europeu José Mantero, integrante da comissão que foi à Europa e um dos mentores do futebol no colégio onde, mais tarde, foi reitor. Além da experiência técnica de outras práticas esportivas como salto em altura e distância, exercícios militares, jogo de malha, ginástica alemã, barra francesa, corrida com obstáculos e lançamentos de dardo e disco, na bagagem, os religiosos trouxeram duas bolas inglesas ou ballon anglais, feitas de capotão de couro recobrindo as câmaras de ar que, devido ao uso, mais tarde, tiveram que ser trocadas por bexigas de boi, mas as bolas ainda rolavam redondinhas para alegria dos jesuítas e alunos.

Por volta de 1887, eles apenas batiam a bola na parede, atividade que ficou conhecida com “bate bolão”. Depois, já divididos em duas equipes, a brincadeira com a esfera ganhou outro atrativo: fazer pontos. Marcas foram feitas em paredes opostas no pátio interno e a equipe que batesse mais vezes com a bola na marca adversária vencia. Aos poucos, os alunos aprendiam a jogar futebol. Com a chegada do novo reitor, Luís Yabar, em 1894, conhecedor das regras do futebol, a prática evoluiu. Formadas as equipes, as pelejas aconteciam na Vila Maria, dentro das próprias terras do colégio.

O historiador José Moares dos Santos Neto, autor do livro “Visão do jogo: primórdios do futebol no Brasil”, em sua obra afirma que o futebol já era praticado em Itu e em outros colégios religiosos antes de Charles Miller introduzi-lo no País. Santos Neto garante que ele é considerado o “pai” (sic) do futebol porque a imprensa noticiou o seu feito. Já o dos jesuítas de Itu não foi divulgado.

Já a primeira partida de futebol disputada em solo brasileiro ocorreu em 1878, num gramado em frente ao então Palácio Isabel (hoje Palácio Guanabara), residência da princesa Isabel, no Rio de Janeiro. Em seu dia de folga, os marinheiros britânicos do navio Criméia realizaram o jogo, autorizado e assistido pela princesa. Ao final, os marujos levaram a bola embora.

Evolução

O primeiro clube a fazer parte da história do futebol profissional de Itu foi o Clube Atlético Ituano (C.A.I.), o “Marechal de Ferro”, fundado em 15 de agosto de 1953, oriundo do Esporte Clube Oficinas Gazzola, que surgiu nos anos 40. A cor rubro-negra de seu uniforme teve influência flamenguista. O professor José de Araujo Dias conta que o torcedor do Flamengo, tenente José de Souza Carvalho, que veio servir no quartel de Itu, trouxe um jogo de camisas com as cores do clube carioca. Em 1938, Itu participou dos Jogos Abertos do Interior em Sorocaba/SP e usou esse uniforme emprestado pelo oficial. Posteriormente a Comissão de Esportes de Itu adotou as cores e também o C.A.I. Até hoje o uniforme rubro-negro é usado pelo Ituano F.C. Por coincidência, o C.A.I. começou a treinar no campo do Regimento Deodoro, onde funcionou o Colégio São Luís. Tito Rodrigues foi o primeiro técnico e contou com craques como Mão de Onça, Ireno e Tati; Jacob, Mário e Nim; Carneiro, Rubini, Ioiô, Mikei e Fortaleza. O clube conquistou o bicampeonato da Terceira Divisão 1954/1955. O técnico já era Marcos Pavlovski, popular Lapa. Derrotado pelas dívidas, o C.A.I. encerrou sua trajetória em 1968.

Mascote

Em 24 de maio de 1947, funcionários da Estrada de Ferro Sorocabana fundaram a Associação Atlética Sorocabana. Seu primeiro time foi chamado de Ferroviário Futebol Clube. O clube participava de campeonatos amadores da cidade e, em 1956, se profissionalizou, conquistando o título de vice-campeão da Terceira Divisão Estadual na década 60. A rivalidade entre a Sorocabana e o C.A.I. fez surgir o galo, mascote usada ainda hoje pelo Ituano F.C. Em 1956, Lico Neto, presidente do C.A.I., propôs disputa de melhor de três partidas entre os times. Combinou com o presidente adversário, Arlindo Ferreira Castilho, que o vencedor receberia o troféu Cidade de Itu e se tornaria o “Galo da Comarca”. A Sorocabana venceu dois jogos e o galo virou a sua mascote.

Na senda

Seguindo os dois times profissionais da cidade, entre os anos 60 e 80, outros também disputaram a Terceira Divisão. Foi fundado em 1963, o Esporte Clube Produtos Cachoeira. Tinha como técnico Arnaldo de Paula Lima (Xexa) e usava uniforme igual ao da Seleção Brasileira. Treinava e jogava no Estádio Dr. Álvaro de Souza Lima, campo da Sorocabana. Em 1970, surgiu o Real Esportivo Ituano (REI), o qual foi presidido por Lázaro José Piunti e o técnico era Chiquito Pezzodipane. Sua existência foi breve. Em 1986, o Estrela F.C. foi o último time de Itu a participar da Terceira Divisão. O clube era presidido por Carlinhos Ferrari. Ao enfrentar crise financeira, em 1989, foi transferido para Porto Feliz/SP onde encerrou as atividades.

Galo

Em 1966, a A.A. Sorocabana deixou de existir. Nesse ano passou a se chamar Ferroviário Atlético Ituano (FAI) e a disputar somente competições locais. O novo clube amador manteve as três cores da A.A. Sorocabana, mas logo também parou. Em 1977, um grupo de esportistas, liderado por Vicente Elias Schanoski e José Cláudio Carneiro, decidiu reativar o futebol profissional na cidade. Faziam parte desse grupo Eládio B. do Prado, Salvador Carpi, Cláudio Ravelli, José D. de Souza, Itanaí I. da Silva, Luiz A. Pires, Vicente Pavani, Ademar Clemente, entre outros.

Como Itu não possuía o número de habitantes exigido pela Federação Paulista de Futebol para disputar a Segunda Divisão do Estado, Schanoski recorda que o presidente da entidade, comendador Alfredo Metidieri, resolveu recriar a Terceira Divisão no Estado. Cerca de 40 equipes voltaram a disputar a competição. Clubes da região como Saltense, Primavera, XI de Agosto de Tatuí, Comercial de Tietê, Rio Pedrense, Capivariano, Angatuba, Derac de Itapetininga e Guarani Saltense foram beneficiados com a medida do comendador sorocabano Metidieri.

O FAI contou apenas com atletas amadores de Itu para defendê-lo na competição. Pelé Sabiá, Giba, Valdemar Borges, os irmãos Chiquinho e Zé Mauro, Bilo, Toninho Fragnani, Ditinho Venâncio, Zé Cláudio, Lorena, entre outros, fizeram parte do time e o primeiro técnico foi Geraldo Luiz Sturem Vecchi que, no ano seguinte, foi substituído por Sérgio Alexandre Fioravanti. Em 1982, o clube foi beneficiado pela Federação Paulista de Futebol e teve acesso livre à Segunda Divisão.

Voos do Galo

Em 16 de dezembro de 1989, o FAI conquistou o título da Divisão Especial ao vencer a A.A. Ponte Preta por 2 a 0 – gols de Amaral e Romeu – e subiu para a Divisão Principal do Campeonato Paulista. O presidente era José Domingos Francischinelli (Rosan) e o técnico José de Souza Teixeira. No mesmo ano passou a se chamar Ituano F. C.

Rebaixado em 1994, retornou a divisão principal em 27 de julho de 1997 (vice-campeão) sob o comando do empresário Oliveira Júnior que, em 1999, o transformou em Ituano Sociedade de Futebol Ltda. Nesse ano conquistou o título internacional – Simpione Cup – na Suíça. Érika Sheila A. Minelli foi a primeira mulher a presidir o Galo tempos depois. Em 2000, caiu outra vez para Série A-2 e subiu no outro ano. Tornou-se campeão paulista em 12 de maio de 2002, sob o comando de Ademir Fonseca, no ano em que Federação Paulista de Futebol comemorou seu centenário, feito alcançado somente por dois outros clubes do interior: Inter de Limeira (1986) e Bragantino (1990). No ano em que o galo foi campeão paulista, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Portuguesa de Desportos, Ponte Preta, Guarani, Etti-Jundiaí (Paulista de Jundiaí) e São Caetano não disputaram a competição, pois optaram em participar do torneio Rio-São Paulo. Ainda em 2002 foi vice-campeão do Super Paulistão. Depois de conquistar o título da Série C do Campeonato Brasileiro em 2003, o clube voltou a conviver com os altos e baixos. Sob a administração do empresário J. Hawilla, em 2009, foi rebaixado para Série D do Campeonato Brasileiro.

O pentacampeão da Copa do Mundo de 2002, Juninho Paulista, revelado pelo clube no início da década de 90, é seu novo gestor, atleta e ainda usa a faixa de capitão. O atual presidente é Flávio Antunes. A esperança é que o Galo Ituano volte a voar alto na terra onde os jesuítas deram o pontapé inicial do futebol no Brasil.

João José “Tucano” da Silva



Leia outras matérias

Um passeio pela história
Utu-Guaçu
Barroco em Itu
Itu e a consolidação da República