Juljan Dieter Czapski

Médico pioneiro em medicina de grupo incursionou nos campos da arte e do meio ambiente

“Programas de desenvolvimento sustentável só serão realidade se tiverem a participação de todos os grupos de interesse e uma maior responsabilização no que diz respeito a questões ambientais e sociais”, comentou Juljan Czapski com o historiador Alberto Vieira, presidente do CEHA (Centro de Estudos da Madeira). Vieira estava no Brasil a convite de instituições universitárias para conferências nos eventos comemorativos aos “500 anos do Descobrimento”, e encontrara-se com Juljan, no Museu Republicano Convenção de Itu/MP, em abril de 2000.

Juljan Czapski e Alice Brill nos anos de 1990 – Coleção Silvia Czapski

Em sua fala Vieira abordara os fenômenos de mobilidade humana, econômica, comercial e ecológica provocados pela cultura da cana-de-açúcar, “planta que escravizou o homem, esgotou o solo, devorou florestas e dessedentou os cursos de água”. Juljan, revelando-se conhecedor do assunto, leu na sessão de perguntas que se seguiu à conferência um trecho anotado do livro “Geografia da Fome” escrito pelo médico, geógrafo e ativista brasileiro Josué de Castro: “Já afirmou alguém, com muita razão, que o cultivo da cana-de-açúcar se processa em regime de autofagia: a cana devorando tudo em torno de si, engolindo terras e mais terras, dissolvendo o húmus do solo, aniquilando as pequenas culturas indefesas e o próprio capital humano, do qual a sua cultura tira toda a vida”.

Capa do livro “O Cavaleiro da saúde” – Novo Século Editora

Na conversa que correu solta depois do cafezinho, Juljan convidou Alberto Vieira para ver terras de Itu que há dois séculos foram cobertas de cana-de-açúcar e depois conhecer sua “menina dos olhos” – a Fazenda São Miguel e os projetos da Aipa (Associação Ituana de Proteção Ambiental), no Bairro Varejão-Taquaral.

Educação ambiental

Muito antes de o assunto sustentabilidade tornar-se uma prioridade planetária Juljan Czapski já havia despertado para questões de preservação do meio-ambiente e desenvolvimento sustentável. Em fevereiro de 1986 fundou a Associação Ituana de Proteção Ambiental, em Itu/SP, voltada especialmente à educação ambiental e recomposição da flora com árvores nativas. A Aipa também desenvolveria campanhas de hortas escolares sem agrotóxicos e dedicaria atenção à ausência de cuidados com a saúde ambiental, estudos e respectivos relatórios de impacto ambiental na implantação dos conjuntos habitacionais do Bairro Cidade Nova. Os projetos contaram com apoio de empresas locais, Unibanco Ecologia, União Europeia e Lateinamerika Zentrum.

Casa da família Czapski em São Paulo foi projetada pelo arquiteto Vilanova Artigas – Coleção Silvia Czapski

A trajetória do médico, humanista e ativista ambiental é contada no livro “O Cavaleiro da Saúde”, de Silvia Czapski e André Medici, publicado em 2011 pela Novo Século Editora. O livro, a ser degustado como romance, traz a história surpreendente de Juljan Czapski, idealizador da primeira empresa brasileira de medicina de grupo, pioneiro na criação dos planos de saúde no País e que também incursionou nos campos da arte e do meio ambiente.

Fugindo do holocausto

A vida no campo marcou indelevelmente a infância de Juljan Dieter Czapski, que nasceu em 1925 na Fazenda Obra, província de Poznan, Polônia. Seus pais, Fryderick Czapski e Ilza Dyrenfurth, Ilza Dyrenfurth criavam gado leiteiro holandês e cavalos de raça e plantavam centeio, trigo, batata e beterraba para a produção de álcool. Em 1939, Fryderick, membro da Câmara de Comércio Polono-Latino-Americana e técnico em Agropecuária, foi convocado pelo Ministério das Relações Exteriores para vistoriar uma colônia de imigrantes poloneses estabelecida no Paraná. Em setembro desse mesmo ano o exército de Adolf Hitler invadiu a Polônia. Fryderick não encontraria mais Juljan em Obra.

Documento de visto para o Cazaquistão (então União Soviética) para participar de Assembleia da Organização Mundial da Saúde e bottom do evento – Coleção Silvia Czapski

Fugindo da perseguição alemã na Segunda Guerra Mundial a família Czapski aportou no Brasil em 1941 e Julian foi morar inicialmente em uma fazenda de café em Rolândia, Paraná. Depois de algum tempo juntou-se aos Czapski, instalados na capital paulista. Em 1949, Juljan ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e, naquele mesmo ano, casou-se com Alice Brill, artista plástica e fotógrafa de renome internacional.

Estudante tardio, mas dedicado e brilhante, formou-se médico em 1954. Depois vieram o doutorado, a especialização em Administração Hospitalar e a pós-graduação em Saúde Pública. Trabalhou como residente no Hospital das Clínicas sob a supervisão do professor Ulhoa Cintra e, como o pagamento era pouco, complementava seu salário como médico na Ultragaz – pioneira na introdução do gás de cozinha no Brasil e empresa que se perfilava à nova estrutura moderna de benefícios de saúde.

Juljan e funcionários em frente a Policlínica Central – Coleção Silvia Czapski

A partir de então, começou a formular e desenvolver o conceito dos Planos de Saúde e Medicina de Grupo. Implantou a ideia em sua própria empresa, a Policlínica Central, e seu primeiro cliente foi a Volkswagen do Brasil. O sucesso da iniciativa fomentou o surgimento das empresas de saúde privada que se conhece hoje e também a própria Abramge (Associação Brasileira de Medicina de Grupo). Juljan Czapski, nas palavras do médico, professor e cientista Adib Jatene, foi “uma das lideranças mais atuantes na formulação e na execução de medidas que resultaram em nosso sistema de saúde atual”. Juljan Czapski morreu em São Paulo em 12 de janeiro de 2010.

Proteção do cerrado

A Fazenda São Miguel em Itu foi comprada em 1960. Como forma de aproximar-se dos proprietários rurais, no ano seguinte, Juljan filiou-se ao sindicato rural, à associação e à cooperativa agrícola do município. Nos anos de 1980 a fazenda tornou-e sede da Aipa, e ali eram promovidas ações junto à comunidade para tratar de questões de educação ambiental e desenvolvimento sustentável. Juljan investia recursos próprios para pôr em prática as ideias nascidas na Aipa e gerar soluções que só 20 anos depois estariam no seio das preocupações coletivas.

Juljan com visitas no Viveiro de Mudas da Aipa – Coleção Silvia Czapski

Aconselhado por Ladislau Deutsch, diretor do Simba Safari na capital e amigo da família Czapski, foi criado um nicho de mata nativa para manter exemplares das espécies do cerrado ituano, em risco de extinção. Juljan também fez gestões para envolver a vizinhança num projeto de longo prazo de preservação da fauna e flora e idealizou a criação de uma área de proteção ambiental municipal inédita. Com apoio do engenheiro florestal Rinaldo Orlandi, desenhou uma área com três níveis de proteção. No centro, um raro remanescente de cerrado, então utilizado para treino de tiro pelo Exército. No entorno, um cinturão protetor com menos restrições de uso. Da iniciativa surgiu a Área de Proteção Ambiental Bairros Varejão-Taquaral, criada por decreto do então prefeito Lázaro Piunti (MDB) e depois consolidada por Lei Municipal.

Soluções viáveis

Juljan colaborou com a ativista Beatriz Pionti, fundadora de um pioneiro Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Condema), presidindo a câmara técnica do colegiado. Para o diagnóstico da fauna e flora na região, em 1987, envolveu os jovens biólogos da Sociedade de Preservação da Vida Selvagem (SPVS), criada em Curitiba/PR.

Juljan divulgou a experiência ituana em eventos nacionais e internacionais e foi um dos idealizadores do Ecointerior, primeiro encontro de ambientalistas do interior paulista, realizado em Piracicaba/SP, em 15 de setembro de 1989, com patrocínio do Serviço Social do Comércio (Sesc) e suporte logístico da Prefeitura Municipal de Piracicaba/SP e da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep).

Juljan com alunos em evento da Aipa – Alan Dubner

Na abertura do evento ele sintetizou seus princípios: “sou de firme convicção que defesa do meio ambiente não pode ter cor política. Todos os partidos devem lutar por este ideal. Pouco adianta sermos polícia, eternos denunciantes, eternos contra. Temos de ser sempre a favor de um projeto, apresentar soluções viáveis de demonstrar a viabilidade de nossas propostas”.

Por decisão de Juljan, a Aipa se alistou no Fórum das ONGS e Movimentos Sociais da Eco92, realizada no Rio de Janeiro, tornando-a conhecida internacionalmente. Em 1997 a Aipa recebeu do Ministério da Educação a indicação como uma das cinco melhores do País no campo e o programa das hortas escolares sem agrotóxicos e ganhou destaque no vídeo de abertura na teleconferência nacional de educação ambiental, retransmitido pela TV Escola para um público de mais de um milhão de espectadores.

Jonas Soares de Souza



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