Miguelzinho e as tramas políticas

Artista viveu numa época de florescimento cultural

Miguel Archanjo Benicio de Alsumpção Dultra, o Miguelzinho Dutra, cultor de todas as artes, foi um artista liberal e republicano plenamente conectado com sua época. Se não houve atividade artística a que se alheasse – ele estava em todas elas, revelando uma agilidade mental e uma habilidade manual que somente aos privilegiados é dado ostentar – também não se descuidou do mundo das ideias e práticas políticas. Nosso “Michelangelo caipira”, como o chamava o jornalista Hélio Damante de “O Estado de São Paulo”, viveu em Itu/SP em tempos de florescimento artístico e efervescência cultural e política.

Itu teve forte presença em momentos políticos decisivos – Painel de azulejos de Antonio Luiz Gagni/Acervo Museu Republicano Convenção de Itu/MP

Durante sua meninice e adolescência Itu fora palco de encontros intelectuais de variadas áreas e tendências, o que certamente criava nos moradores um clima de curiosidade e intensa busca de informações. Os botânicos Karl Friederich Philipp von Martius, Ludwig Riedel e Auguste de Saint-Hilaire, os zoólogos Johann Baptiste von Spix e Johann Natterer, os médicos Georg Heinrich von Langsdorff e Carlos Engler, o astrônomo Nestor Rubtsov, o pintor Aimé-Adrien Taunay e o desenhista Hercule Florence foram alguns integrantes notáveis do rol de pensadores que transitou por Itu no desempenho de missões culturais e científicas.

Encontros políticos

Do ano do nascimento de Miguelzinho Dutra até o último ano de sua moradia em Itu mantiveram laços com a cidade, por nascimento, residência, educação, casamento, ou por atividade econômica e política, líderes nacionais notáveis como Diogo Antonio Feijó (1784 – 1843), Nicolau Vergueiro (1778-1859), Francisco de Paula Sousa (1791-1854), José da Costa Carvalho (1796-1860), Rafael Tobias de Aguiar (1795-1857) e Francisco Álvares Machado de Vasconcelos (1791-1846).

Este último fez encomendas ao artista ituano e a ele dedicou elogios e recomendações. Político e um dos chefões do Partido Liberal notabilizara-se antes como um dos primeiros cirurgiões do País a tratar de catarata. Ele mesmo fabricava os instrumentos cirúrgicos em seu laboratório dotado de equipamentos de Física, Química e respeitável biblioteca.

“Fazenda de Antonio M. Teixeira na Venda Grande” sinaliza posicionamento liberal de Miguelzinho Dutra durante a Revolução de 1842 – Acervo Museu Republicano Convenção de Itu/MP

O desenhista e pesquisador Hercules Florence (1804-1879), que esteve na casa de Álvares Machado e tornou-se seu genro, conta em diário que ele recitava Camões, Francisco Manuel de Melo, Bocage (Manuel Maria Barbosa Du Bocage), Dante, Petrarca e Torquato Tasso.

Com esse terreno fértil, não causa espanto a forte presença da vila de Itu em alguns instantes verdadeiramente decisivos na vida política da Província de São Paulo: 1821, quando jurou a carta constitucional em elaboração sem esperar precedentes; em 1822, quando ergueu sua voz contra os “bernardistas”, liderando outras vilas nessa direção; em 1824, quando a Câmara liderada por Diogo Antônio Feijó, exemplo quase isolado em todo o Império, apôs reservas ao projeto de Constituição que seria outorgado à Nação. Na fase que se segue à Independência esse “grupo ituano” teve papel essencial nos episódios que envolveram o combate ao absolutismo, a abdicação de D. Pedro I, a criação das Sociedades dos Defensores da Independência e Liberdade Nacional, a edição do Ato Adicional, a criação da Regência Una, o adiantamento da Maioridade de Pedro II e a Revolução Liberal de 1842.

Cientistas, artistas e políticos, como o botânico Von Martius (acima), o senador Vergueiro e o conselheiro Paula Souza, exerceram influência na formação de Miguelzinho Dutra – Atelier Iconographia / Atelier Iconographia / Acervo Museu Paulista/USP

Artista engajado
Tomado por espírito irrequieto e criativo, Miguelzinho Dutra não atravessaria impunemente esse ambiente. Certamente acompanhou de perto o burburinho e decisões emanadas da Câmara de Vereadores ou participou dos encontros promovidos pelos “Padres do Patrocínio”, grupo que se reunia para discutir teologia, moral, filosofia e política.

Ali se distinguiam Diogo Feijó, o orador franciscano frei Inácio de Santa Justina e o padre Antonio Joaquim de Melo, futuro Bispo de São Paulo e criador do Seminário da capital.

Não por acaso, aos 18 anos de idade Miguelzinho Dutra esculpiu a efígie do médico, jornalista e político liberal João Batista Líbero Badaró (1798-1830), assassinado em São Paulo nos embates contra o absolutismo. Uma década depois o artista manifestou profunda admiração a Júlio Frank (1808-1841), professor de História e Filosofia no Curso Anexo da Academia de Direito do Largo de São Francisco e criador da Burschenschaft Paulista, mais conhecida como a “Bucha”, uma sociedade secreta e filantrópica marcada por forte influência liberal, abolicionista e republicana. Morto em 1841, Miguelzinho Dutra desenhou seu túmulo, erigido em estilo neoclássico no pátio interno da Faculdade de Direito, do Largo de São Francisco.

Túmulo de Júlio Frank em aquarela de Miguelzinho Dutra – Acervo Museu Republicano Convenção de Itu/MP

Júlio Frank, alemão de nascimento e protestante, morreu vitimado por uma pneumonia e não pôde ser enterrado nos cemitérios existentes na cidade, que pertenciam à Igreja Católica. O fato sensibilizou amigos e alunos que conseguiram sepultá-lo em um dos pátios da faculdade e ainda levantaram recursos para execução do seu túmulo. Miguelzinho foi um dos colaboradores.

Revolução Liberal

Em 1842 a vila de Itu alcançou a condição de cidade. Nesse mesmo ano eclodiu em Sorocaba/SP a Revolução Liberal que contou com a adesão de Itu e se alastrou pelas vilas e cidades paulistas e mineiras, movimento que visava à retomada das conquistas liberais alcançadas no Ato Adicional de 1834.

Rafael Tobias de Aguiar, um dos mais destacados chefes liberais da primeira metade do século 19, liderou a Revolução Liberal em São Paulo junto com o padre Diogo Antônio Feijó. Sorocaba foi declarada capital provisória da Província e Tobias de Aguiar, seu presidente interino. Formando a chamada Coluna Libertadora, de 1.500 homens, tentou invadir São Paulo e depor o presidente da Província José da Costa Carvalho, o Barão de Monte Alegre.

“Vista tomada do Quartel General” é outra obra de motivação política – Acervo Museu Republicano Convenção de Itu/MP

Miguelzinho não titubeou e se posicionou ao lado dos liberais. Tempos depois desenhou alguns cenários das batalhas como a “Vista tomada do quartel general” e “Fazenda de Antonio M. Teixeira na Venda Grande”. A Batalha da Venda Grande, ocorrida no município de Campinas/SP em 7 de junho de 1842, travada entre revoltosos liberais e conservadores, foi vencida pelas forças imperiais e seu resultado encaminhou o conflito ao seu final.

Entre 1846 e 1847 Miguelzinho Dutra esculpiu a efígie do imperador D. Pedro II, desenhou quatro arcos celebrativos da visita do imperador a Itu e executou a aquarela “Iluminação do Quartel em São Paulo por ocasião da chegada do imperador” e a gravura “Vista do Ipiranga”, inspirada no local da proclamação da independência em 1847.

Artista republicano
Na década de 1860, no longo processo de passagem dos liberais para o campo das ideias republicanas, Miguelzinho Dutra participou ativamente do movimento em Piracicaba/SP, ao lado dos irmãos Prudente José de Morais Barros e Manuel de Morais Barros. Em 1871 assinou com mais treze correligionários o manifesto redigido por Manuel de Morais Barros, publicado no jornal A República, do Rio de Janeiro/RJ, apoiando o Manifesto Republicano de 3 de dezembro de 1870.

Prudente de Moraes, líder dos republicanos de Piracicaba – A. Prates, 1910/Coleção Atelier Iconographia

“Tão estreitamente ligado aos republicanos de Piracicaba, por que Miguelzinho Dutra não teria ido à Convenção de Itu?”, perguntava o historiador e jornalista Mário Neme em texto de apoio à Exposição de História Comemorativa do IV Centenário de São Paulo. Em 1954, Mário Neme era membro da equipe dirigida pelo professor e historiador Jaime Cortesão, encarregada da organização daquela exposição no Parque do Ibirapuera e responsável pela seleção do conjunto de aquarelas de Miguelzinho Dutra apresentado no evento. Mesmo depois de vasculhar documentos e jornais da época, o piracicabano Mário Neme não solucionou sua curiosidade e a questão persiste à espera de novas pesquisas.

Jonas Soares de Souza



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