O drama do lendário rio Tietê

O mais paulista dos rios não pode resolver o problema da falta de água

Pesquisadores acreditam que ele tenha entre 10 e 15 milhões de anos e seu nome vem do tupi, que significa “água boa”. Mas, dependendo do lugar do Estado de São Paulo onde se esteja, o rio Tietê está longe de fazer jus ao seu nome e deixa no passado as pescarias, os passeios e as regatas que eram realizadas em suas águas limpas. Restaram dessa época apenas lembranças.

Neste local em Salesópolis nasce o rio Tietê – Prefeitura de Salesópolis

O Tietê nasce na cidade de Salesópolis/SP, na Serra do Mar, a pouco mais de mil metros de altitude. Com aproximadamente 1.110 quilômetros de extensão, corta praticamente todo o Estado, banhando 62 municípios. Contrariando o curso habitual dos rios, corre na direção contrária ao mar, resultado do relevo acidentado da serra. Apesar de nascer a 22 quilômetros do Oceano Atlântico, suas águas precisam percorrer 3,5 mil quilômetros até chegar ao mar, encontrando antes os rios Paraná e da Prata.

Essa característica fez dele um elemento essencial para o desbravamento do interior do Estado nos séculos 16 e 17. Os índios já o utilizavam e, registra a história, os jesuítas navegavam entre os rios Tietê, Tamanduateí e Pinheiros para chegar aos lugares mais distantes de São Paulo, na época uma jovem cidade. Os bandeirantes, por sua vez, fizeram dele uma opção de caminho para atravessar o Estado, alcançando as regiões Centro-oeste e Sul do Brasil.

O rio Tietê atravessa todo o Estado de São Paulo e foi essencial para o desbravamento do interior do Brasil – Coleção Tarso M. Marraccini

No início do século 17 a navegação fluvial foi intensificada pela descoberta das minas de ouro em Cuiabá/MS. Expedições partiam do porto de Araritaguaba, hoje Porto Feliz/SP, em busca de riquezas e aprisionamento de índios as quais recebiam o nome de “monções”. Batelões (canoas) eram abastecidos com armas, sal, aguardente, azeite e até escravos e ligavam as capitanias de São Paulo e Mato Grosso.

Belo e divertido

O tempo passou, a cidade cresceu e o curso do Tietê recebeu modificações, especialmente em São Paulo, para adequar-se ao desenvolvimento urbano da cidade. Mas sua importância não era apenas econômica. Um depoimento do advogado, professor e político José Bonifácio Andrada e Silva, documentado e datado de 1839, diz que a beleza do rio estimulava os habitantes e os passeios em suas margens.

No final do século 19 ocorria a extração de barro do rio, para a fabricação de tijolos que eram utilizados na construção de casas e prédios. Os tijolos eram produzidos e armazenados na própria margem do Tietê.

No passado o rio Tietê foi piscoso e atraía muitos pescadores – Luiz Francisco F. Ferraz

No início do século 20 ele era um dos locais de lazer preferido dos paulistanos. Nos anos 20, competições de natação e esportes aquáticos, além da pesca, faziam parte da vida da cidade. Clubes de regatas, como o Esperia e o Tietê, foram fundados as suas margens, respectivamente, em 1888 e 1907.

Quem escolhia a margem do rio para se divertir também encontrava restaurantes, como o Bella Venezia, e recreios para piqueniques. Na década de 40 era possível ver lavadeiras nas margens do rio Tietê. Nos municípios paulistas a jusante, como Santana de Parnaíba, Bom Jesus de Pirapora, Cabreúva, Itu, Salto e Porto Feliz, a pesca e o lazer foram práticas comuns até a década de 60. Ele foi um rio piscoso. E não é história de pescador.

Morte e vida

Mas o período de alegria não duraria. No início do século 20 São Paulo possuía aproximadamente 108 indústrias, sendo 70 estrangeiras e 38 brasileiras. Entre 1906 e 1929 estabeleceram-se nos Bairros do Brás, Pari, Barra Funda, Água Branca e Lapa várias indústrias. No censo industrial de 1920 a cidade já era apontada com o primeiro centro fabril do País. Em 1930, aproximadamente 150 empresas já jogavam detritos no rio.

Vista da Marginal do Tietê, em São Paulo/SP, na época em que a cidade começava expandir e o rio a sofrer degradação – Reprodução/www.tudoditudo.com

O processo de industrialização e de expansão urbana desordenada, ocorrido entre as décadas de 40 e 70, além do crescimento populacional – a cidade passou de 2 para 6 milhões de habitantes entre 1940 e 1960 – tornaram-se os grandes vilões na vida do rio.

Hoje, o esgoto doméstico é o maior desafio, já que as empresas passaram a ser fiscalizadas com maior rigor pelos órgãos governamentais, diminuindo a emissão de poluentes. Além disso, 36% dos dejetos encontrados em suas águas têm origem no lixo que a população joga nas ruas.

Atualmente o esgoto e o lixo doméstico são os maiores vilões do rio Tietê – Tucano

Esse material desce com a correnteza e acaba represado, por exemplo, em Salto. Há desde embalagens plásticas até sofás, passando por aparelhos eletrônicos e roupas. No mês de julho, aproveitando que a estiagem baixou o nível do rio, um trabalho de remoção realizado pela Prefeitura de Salto retirou do Tietê 18 toneladas de entulho.

Depois de passar por Salto, prosseguindo seu curso, na cidade de Conchas/SP o rio começa a ganhar vida. Com mais oxigênio na água, voltam a surgir peixes, plantas e algas. Um de seus afluentes naquela região, o rio Capivari, “injeta” água de melhor qualidade no já cansado e sufocado rio Tietê, colaborando com o início da sua recuperação.

Quando chega a Barra Bonita/SP, a 300 quilômetros da capital, a imagem de um rio morto é coisa que ficou para trás. A qualidade da água ainda não é tida como ideal, mas como recebe tratamento, já é usada para abastecer algumas cidades. Desse ponto até chegar a sua foz, na bacia do rio Paraná, são 600 quilômetros de curso com uma poluição parcialmente controlada.

A tentativa de despoluição

As ações para despoluição do rio Tietê têm mais de 20 anos e já consumiram recursos financeiros vultosos. Só entre 2009 e 2016, na atual fase do programa, serão investidos dois bilhões de dólares. Desde o início do programa, em 1992, já se foram outros bilhões.

Aproveitando a estiagem, a Prefeitura de Salto realizou a maior retirada de entulhos da história do rio Tietê – Prefeitura de Salto

Apesar de todos os investimentos, um relatório da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) apontou que não houve melhora na qualidade da água no ano de 2013. Um monitoramento feito em 23 pontos, espalhados em 1.100 quilômetros de extensão, mostra que em 11 deles, principalmente na área do Alto Tietê, onde está a Grande São Paulo, a qualidade da água é ruim ou péssima.

O canal que fica sob a Ponte Pênsil, em Salto, ficou irreconhecível depois da limpeza – Divulgação/Prefeitura de Salto

O programa de despoluição é feito pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e está dividido em fases. A primeira foi concluída em 1998 e a segunda aconteceu de 2000 a 2008. Estamos na terceira etapa, iniciada em 2011 e prevista para terminar em 2016. No início do ano passado, a concessionária divulgou que a meta é despoluir o rio até 2025, na quarta etapa do projeto.

O programa de despoluição do rio Tietê foi iniciado em 1992, mas ainda permanece muito poluído, principalmente no trecho perto da capital – Coleção Tarso M. Marraccini

Mas todo esforço pode ser em vão se não houver uma política de saneamento básico com resultados. Além disso, a conscientização social de que o rio não é um depósito de lixo também é essencial para que se chegue a um bom resultado, sem contar o controle de favelas e loteamentos clandestinos que despejam milhares de litros de esgoto no leito do Tietê.

É possível despoluir

Com 346 quilômetros de extensão, o rio Tâmisa banha a região Sul do Reino Unido, passando pelas cidades de Londres e Oxford, para desaguar no Mar do Norte. Ingleses e turistas hoje se encantam com sua beleza, mas o Tâmisa também passou por um período de contaminação. Suas águas deixaram de ser potável por volta de 1610.

Em 1858 as sessões do Parlamento inglês, que fica às margens do rio, foram suspensas em decorrência do mau cheiro que ele exalava. O Tâmisa passou a ser chamado de o “Grande Fedor”. Em 1878 o navio a vapor Princess Alice, que navegava na região Leste de Londres, foi a pique e seus 600 passageiros morreram. A principal causa da tragédia não foi o naufrágio, mas a contaminação a que foram expostas as pessoas enquanto nadavam para alcançar a margem.

O rio Tâmisa, no Reino Unido, é exemplo de que a despoluição é possível – Reprodução/Khan Tran/www.khamtran.com

A água despejada pelas indústrias e o esgoto doméstico, resultante dos recém-criados vasos sanitários, eram despejados diretamente no rio. A contaminação constante e crescente elevou os níveis de poluição a tal ponto que o Tâmisa foi declarado biologicamente morto em 1957.

No início dos anos 60 o governo decidiu agir e iniciou a construção das primeiras estações de tratamento de esgoto da cidade. Além disso, uma legislação ambiental rígida obrigou as fábricas a eliminar o despejo de poluentes e o problema das enchentes foi resolvido com a construção da Barragem do Tâmisa.

Em 1974 os londrinos perceberam que o trabalho estava dando resultado quando um salmão foi encontrado no rio, após uma ausência de quase 150 anos. A vida voltava ao Tâmisa e hoje existem nele mais de cem espécies de peixes. Pássaros, como o martim-pescador, e mamíferos, como a lontra, também são vistos com frequência e as competições esportivas também voltaram a ocorrer em suas águas.

Ainda existem problemas com a vazão de esgoto e poluentes e especialistas apontam que há muito por se fazer. Mas o Tâmisa é uma resposta à vida, resultado de comprometimento, consciência e sustentabilidade.

Eles também venceram a poluição

Além do Tâmisa, outros rios pelo mundo venceram a poluição e caminham para a recuperação. O rio Cheong Gye Cheon é considerado por urbanistas e ecologistas uma referência em humanização das cidades. Localizado na Coréia do Sul, a prefeitura da cidade de Seul desenvolveu um projeto orçado em 380 milhões de dólares para recuperá-lo. As obras começaram em 2003 e hoje o rio está livre da poluição e repleto de parques lineares, frequentados pela população.

Outro exemplo é o Reno, um rio com pouco mais de 1,2 mil quilômetros de extensão que atravessa a Europa de Sul a Norte, passando, por exemplo, pela Suíça, Áustria, Alemanha e França. Iniciada em 1989, sua recuperação teve investimento de mais de 15 bilhões de dólares, utilizados na construção de estações de tratamento e de monitoramento.

Os moradores de Paris, na França, também se orgulham da recuperação do Sena.

Degradado pela poluição industrial e pelo esgoto doméstico, a reversão também aconteceu com a construção de estações de tratamento, iniciada em 1996. Hoje o rio tem diversas espécies de peixes, atividades esportivas e de lazer e faz parte do cartão-postal da “cidade luz”.

Cristiane Guimarães



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