O preço da sede

O sequestro da água, um cenário assustador

“Há dinheiro na sede”, diz uma manchete do New York Times. O CEO da Nestlé, fornecedora de água engarrafada, concorda e completa: “É importante dar à água um valor de mercado, por isso estamos todos conscientes de que ela tem um preço”. Mas para aqueles que não têm acesso a água potável, isto é, para um quinto da população do mundo, o preço é a sede.

José Lutzenberger ficaria estarrecido com o cenário que a advogada e pesquisadora Karen L. Piper nos apresenta em seu recente livro “O preço da sede”, cenário em que a sede é política e a seca é uma oportunidade de negócio, e no qual o recurso natural mais precioso do mundo cada vez mais é controlado por empresas multinacionais como Thames Water, American Water, Suez Environment e Veolia Water (Vivendi Environment). Juntas elas operam em mais de setenta países.

Karen Piper desenha um quadro angustiante, de um mundo fora de equilíbrio, ao denunciar a imensa e crescente distância entre os que têm e os que não têm água. Piper analisa casos de privatização como o do Chile, primeiro país a privatizar 100% de suas reservas de água; de Nova Deli, onde as águas sagradas do Ganges estão sendo desviadas para uma estação de tratamento de água privada, fomentando a agitação; e do Iraque, cuja privatização dos recursos hídricos desestabiliza ainda mais uma região já instável.

No caso do Chile, opiniões divergentes de Piper vêem o sistema de abastecimento de água e coleta como um dos mais avançados na América do Sul. O país, dizem, consegue levar água encanada a quase 100% da população e trata 70% do esgoto antes de retorná-lo à natureza. “Optamos por privatizar o sistema e com isso conseguimos garantir os investimentos para ampliar o acesso à população”, explicou Jorge Ducci, representante do governo chileno no seminário “Financiando Serviços de Água e Esgotos no Cone Sul: Desafios, Opções e Limites”, realizado na cidade de Salvador/BA em 2004. Jorge Ducci foi professor na Universidad Católica de Chile e na Cornell University, e atualmente é Economista Senior da Divisão de Água e Saneamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Jonas Soares de Souza



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