Perigo ruminante

Animais expelem gases que prejudicam o meio ambiente

No início deste ano, dados de uma pesquisa financiada pelo Instituto Internacional de Pesquisas em Pecuária e pela Organização Comunitária de Pesquisas Científicas e Industriais demonstraram que a criação de gado, em todo o mundo, têm grande impacto no meio ambiente. Bovinos criados com propósitos alimentares são responsáveis por mais de três quartos da emissão total de gases que provocam o efeito estufa (elevação da temperatura do planeta) entre os animais da pecuária.

Pesquisa comparou emissões de gases no mundo geradas por criações de gado bovino, animais ruminantes de pequeno porte, porcos e aves – Tucano

Após analisar 28 regiões da Terra, comparar emissões no mundo geradas por criações de gado bovino, animais ruminantes de pequeno porte, porcos e aves, o estudo mostra que a Europa e as Américas são os epicentros das emissões por gado de gases prejudiciais à camada de ozônio.

Segundo os estudiosos foram coletados dados sobre alimentação de todas as culturas pecuárias abordadas pela pesquisa sobre o quão eficientemente os animais estavam produzindo leite, ovos e carne, e o volume de gases pró-efeito estufa emitidos por eles. “Temos observado muitas pesquisas focadas nos desafios referentes a isso em nível mundial, mas se os problemas são mundiais, as soluções se mostram praticamente locais e muito específicas a cada situação”, destacou o cientista e autor da pesquisa, Mario Herrero, durante entrevista concedida à emissora de TV britânica BBC.

Gás metano emitido por animais é prejudicial ao meio ambiente – Tucano

E completou: “Nosso objetivo é fornecer dados necessários para que haja um debate sobre o papel da pecuária em nossas dietas e em nosso meio ambiente e para que possamos buscar as soluções para esses desafios”.

Metano

Esse alerta já tinha sido dado por cientistas colombianos. De acordo com eles, o gado bovino é o segundo maior emissor de gases de efeito estufa depois das atividades humanas. Diante dessa constatação, sugeriram dietas especiais que podem colaborar com a redução do metano produzido pelo gado bovino.

Uma das indicações dos especialistas é a utilização de forragens mais jovens, uma vez que o pasto mais tenro produz menor quantidade de gases por unidade de alimento consumido ou fermentado. Dietas baseadas na leguminosa forrageira Lotus tenuis (cornichão Larranaga), por exemplo, produzem 30% menos gás metano.

Estudiosos coletaram dados sobre alimentação das culturas pecuárias – Tucano

Outra estratégia visando à redução das emissões de metano é a incorporação de diferentes tipos de óleos na alimentação dos ruminantes, segundo estudos. Os cientistas sugerem ainda a implementação de sistemas silvipastoris, que supõe incluir arbustos na dieta dos animais, o que aumenta a qualidade de digestão.

O professor da Universidad Nacional de Colombia, Roberto García, alerta que os sistemas de pastoreio atuais degradaram os solos e devem ser mudados, aproveitando o que a natureza oferece a fim de se conseguir um equilíbrio nos ecossistemas. “Devemos evitar as pradarias onde só há pasto e promover o desenvolvimento de outro tipo de vegetação”, comenta García.

Biodigestor

No Brasil há importantes criadores de gado de corte, vacas leiteiras, porcos, cabras, ovelhas e frangos. Animais confinados em grande quantidade podem ocasionar significativa produção de gás poluente. Para reduzir o impacto desse tipo de poluição, alguns produtores passaram a canalizar os dejetos dos animais para esterqueiras de alvenaria e a utilizar o biodigestor, equipamento que trata os dejetos.

Com o uso do biodigestor é evitada a contaminação do solo e das águas e se consegue reduzir a emissão de gases nocivos na atmosfera. O biodigestor é um reservatório coberto com lona plástica. O tanque que recebe os dejetos tem paredes revestidas com concreto e lona.

O Brasil conta com importantes criadores de animais como granjas de aves de corte – Tucano

O tamanho e profundidade desse aparato variam de acordo com o lugar e volume de dejetos de cada criação. No tanque, o material se desloca lentamente até sair do outro lado. Durante o percurso, que leva aproximadamente 30 dias, acontece o tratamento dos dejetos, os tornando menos poluentes. Trata-se de um processo biológico em que toda a matéria orgânica não digerida pelos animais é decomposta pelas bactérias no biodigestor, que vão se alimentando e produzindo o biogás.

Como o biogás é inflamável, pode ser aproveitado como combustível na propriedade para movimentar motores, gerar energia elétrica e aquecer granjas ou casas nos meses de frio, por exemplo. Com a queima do gás, há também uma vantagem ecológica, pois ocorre a destruição do metano. Outro benefício para o meio ambiente é que, ao passar pelo tratamento, o dejeto fica mais suave, com carga orgânica mais baixa.

O biodigestor também é utilizado por empresário da pecuária suína de Itu. Olinto Rodrigues de Arruda investiu em tecnologia e no manejo adequado em propriedades que possui em sociedade com seu primo, Roberto Cano Arruda.

Empresários adotaram o uso de biodigestores – Tucano

Com os investimentos, os empresários obtiveram ganhos ambientais e econômicos. Os dejetos dos porcos são conduzidos por canalização até tanques fechados onde fermentam naturalmente, sem contato com o meio ambiente. Desse processo de metabolização resultam resíduos sólidos e líquidos que são usados como fertilizantes para lavouras e pastagens, além do biogás, cuja composição contém metano. Embora nocivo ao meio ambiente, o metano, aprisionado, pode gerar energia em substituição à eletricidade, ao óleo diesel e ao GLP. Dessa forma, a geração de energia resultante desses investimentos garante parte das necessidades da granja.

O gás excedente é queimado em incineradores especiais que emitem gás carbono, menos poluente que o metano.

Um mercado diferente

Um mercado que objetiva a criação de projetos de redução da emissão dos gases que aceleram o processo de aquecimento do planeta surgiu, nos anos 2000, e foi denominado mercado de créditos de carbono. Seu surgimento se deu a partir do Protocolo de Quioto, um acordo internacional que estabeleceu que os países desenvolvidos teriam que reduzir, entre 2008 e 2012, suas emissões de Gases de Efeito Estufa 5,2%, em média, em relação aos níveis medidos em 1990.

Esse Protocolo foi o responsável pela criação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que prevê a redução certificada das emissões. Ao promover a redução da emissão de gases poluentes e ao conquistar essa certificação, adquire-se o direito a créditos de carbono que podem ser comercializados com os países que têm metas a cumprir.

Em 2011, na Conferência do Clima (COP 17), as metas de Quioto foram atualizadas e ampliadas para cortes de 25% a 40% nas emissões, em 2020, sobre os níveis de 1990 para os países desenvolvidos.

Angélica Estrada



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