Pioneirismo telefônico

O telefone, o fonógrafo e o microfone chegaram a São Paulo em 1878

O primeiro anúncio de venda de telefone em São Paulo apareceu na página 3 da edição de 18 de agosto de 1878 do jornal A Província de São Paulo, hoje o jornal O Estado de São Paulo. O equipamento era oferecido por Leon Rodde, que se apresentava aos paulistas como único agente de Alexander Graham Bell e também como introdutor dos “tímpanos elétricos” e do telefone na América do Sul. Rodde era sócio da loja “O Grande Mágico”, na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, especializada em aparelhos elétricos e novidades, na qual em 1877 instalara a linha telefônica pioneira do País.

Alexander Graham Bell inaugura a linha telefônica Nova Iorque-Chicago em 18 de outubro de 1892 – UTI – International Telecommunications Union

Tempos depois montou a firma Léon Rodde & Comp. para comerciar aparelhos elétricos na Rua do Rosário nº 132, casa que, em 1889, recebeu do presidente do Conselho de Ministros Afonso Celso de Assis Figueiredo, o Visconde de Ouro Preto, a encomenda da luxuosa iluminação do cenário da última grande festa do império brasileiro, o Baile da Ilha Fiscal.
No anúncio ao mercado paulistano, Rodde dizia-se honrado “de participar ao respeitável e ilustrado público desta capital, que desejando sempre tornar-se útil a todas as pessoas que se interessam pelo progresso das ciências e artes, que acaba de chegar da Corte trazendo consigo os recentes resultados das lucubrações científicas do século XIX, como sejam o Telephono, o Phonógrafo, o Microfone e o Despertador vocal, aparelhos estes que a popularidade que tem adquirido em todo o mundo basta para a sua garantia”.

O anunciante julgava desnecessários “pomposos anúncios”, e limitava-se apenas a oferecer aos interessados os aparelhos que podiam ser instalados nas casas particulares, hotéis, colégios e fazendas e que podiam ser examinados na casa de nº 87 da Rua São Bento, aliás, endereço de Jules Martin, litógrafo e empreendedor. Martin também foi pioneiro numa porção de coisas. Publicou o primeiro Mapa da Província de São Paulo, instalou o primeiro motor a gás da capital, introduziu a zincogravura e, em 1877, apresentou à Intendência Municipal o projeto do Viaduto do Chá.

Primeiras linhas telefônicas

Nos Estados Unidos, um ano depois da apresentação do invento de Alexander Graham Bell na Exposição Internacional de Filadélfia de 1876 surgiu em Boston, Massachusetts, a Bell Telephone Company, primeira empresa telefônica do mundo. A empresa, organizada em 1877, teve como idealizador e principal investidor o financista Gardiner Greene Hubbard, sogro de Graham Bell, que também teve participação na criação da England Telephone and Telegraph Company. Essas empresas se reuniriam em 1879 para dar origem à National Bell Telephone Company, com sede em Boston, e a International Bell Telephone Company, sediada em Bruxelas, Bélgica.

Primeiro anúncio de telefone em São Paulo – A Província de São Paulo, 18-08-1878

Um ano depois a National se fundiria a outras companhias para formar a American Bell Telephone Company, também com sede em Boston. A American Telephone and Telegraph Company (AT&T) seria formada em 1885 como subsidiária da então controladora da American Bell Telephone Company, tendo o privilégio de construir e operar a rede pioneira de longa distância entre Nova Iorque e Filadélfia, concluída no final desse mesmo ano. Em 18 de outubro de 1892 a AT&T, contando com a presença de Graham Bell, inaugurou a linha conectando telefonicamente Nova Iorque e Chicago.

No Brasil, as primeiras linhas telefônicas foram implantadas na Corte no mesmo ano da criação Bell Telephone Company, por iniciativa do imperador D. Pedro II. Quando começou a expansão para outras localidades, o jornal A Província de São Paulo comentou a novidade: “uma das mais maravilhosas aplicações da eletricidade, a da transmissão dos sons pelo telefone, ultimamente descoberta nos Estados Unidos, que já não é conhecida nesta capital somente pelos minuciosos artigos que sobre ela tem publicado a imprensa da Europa inteira. Vimos ontem no escritório da Western & Brazilian Telegraph Company um desses curiosos instrumentos…” (página 3 da edição de 1º de dezembro de 1877).

Antiga estação da Estrada de Ferro Paulista, em Campinas, de onde foi feita a primeira ligação interurbana do Brasil – Tucano

A partir do protótipo de Graham Bell, o aparelho começou sua evolução. Um equipamento mais leve e fácil de manejar passou a conviver entre os paulistanos, trazido pelo engenheiro norte-americano Morris Kohn, profissional conhecido no Rio de Janeiro/RJ pela instalação de uma linha de bondes e por ser sócio de Leon Rodde. “Este prodigioso instrumento recebeu dele em colaboração com a casa do Sr. Rodde, no Rio, notáveis melhoramentos. […] Hoje às 10 horas da manhã, no Grande Hotel, o Sr. Morris Kohn propõe-se a fazer uma experiência pública. Diz ele que pretende fazer com o seu telefone uma experiência maior e mais notável entre esta capital e algumas cidades a que estejamos ligados por um fio telegráfico, sendo talvez Sorocaba a cidade escolhida”, publicava o jornal A Província de São Paulo no noticiário da página 2 da edição de 28 de julho 1878.

Campinas/SP, cidade escolhida para a experiência, em agosto do mesmo ano assistiu a primeira ligação interurbana em território brasileiro quando Morris Kohn conectou a Estação da Estrada de Ferro Paulista daquela cidade à Estação da São Paulo Railway (Estação Inglesa), em São Paulo. No Brasil, a economia cafeeira dava suporte ao desenvolvimento da telefonia. Os produtores de café precisavam de um meio de comunicação eficiente, pois tinham suas residências no interior do Estado e realizavam negócios com as cidades de São Paulo, Santos e principalmente com o Rio de Janeiro. Mas, fica evidente nessa época a vinculação das redes de telefones com a rede telegráfica do Estado de São Paulo, pois as linhas eram conectadas aos fios da Estrada de Ferro.

No interior paulista

As primeiras concessões para a exploração de linhas telefônicas no Brasil foram feitas por decreto, pelo imperador D. Pedro II, primeiramente com vistas ao Rio de Janeiro, mas a novidade logo se espalhou para o resto do País e, nessa primeira fase de sua trajetória, o serviço telefônico passou alternadamente de empresas privadas para o governo. Campinas foi a primeira cidade paulista a ser atendida pela telefonia pública. A Empresa Telefônica Campineira, de Rodde & Companhia, teve a concessão homologada em 31 de março de 1884 pela Câmara Municipal e não demorou a instalar seus postes e fios pelas ruas. A novidade assustou a população, temerosa de choques elétricos. Por meio do jornal Gazeta de Campinas a empresa tranquilizou a população, divulgando matéria sobre os benefícios da nova tecnologia e esclarecendo que “Não há inconveniente nem perigo ao estenderem-se os fios sobre os prédios. Nada de medo e deixem que se estenda o grande melhoramento”.

Mulheres operando equipamentos numa central telefônica no Rio de Janeiro, na década de 1940 – Acervo Museu das Telecomunicações/ Oi Futuro

Das diversas empresas que surgiram nesse período, deve ser ressaltada a Companhia Réde Telephonica Bragantina (CRTB), que surgiu em 1896 em Bragança Paulista/SP, porque desempenhou papel fundamental na história da telefonia do País e que talvez tenha sido a maior companhia a operar em território brasileiro naquela época.

A expansão da CRTB permitiu que, em 1908, a empresa se instalasse em prédio próprio, projetado pelo arquiteto Henrique Mondelli e executado em cimento armado, sendo o primeiro edifício a usar essa técnica construtiva em Bragança Paulista. No pavimento térreo funcionava a sala de espera, as cabinas para as conversações, o escritório da empresa, a oficina e o dormitório do chefe da estação. O primeiro andar era ocupado pela residência do gerente e no segundo andar estava instalado o comutador fornecido pela empresa Kellogg, com capacidade para 200 circuitos metálicos.

Instalação de linha telefônica em 1929 – Acervo Museu das Telecomunicações/ Oi Futuro

A CRTB chegou a servir mais de cem cidades do Estado de São Paulo e várias outras no sul dos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro, conectando todas as linhas com as cidades de São Paulo, Santos e outros centros importantes. Entre as cidades paulistas estava Itu, onde a CRTB instalou linhas no início do século 20. Na lista de assinantes publicada na edição de 10 de janeiro de 1912 do jornal A Cidade de Itu apareciam 64 clientes, entre residências, hotéis, armazéns, lojas, fábricas e fazendas. Nesse mesmo ano, a Bragantina vendeu mais da metade de suas ações para a inglesa Telephone Development Company, que escolheu como superintendente Eduard Johnson, homem ligado a Western Electric Company, braço fabril da AT&T e agente de compra para empresas do grupo Bell System.

Em 1916 a CRTB foi adquirida pela Rio de Janeiro and São Paulo Telephone Company, braço de telefonia do grupo canadense Brazilian Traction Light and Power (Ligth), que operava também os serviços de eletricidade, gás e bondes em grande parte do Sudeste.

Para se ter ideia da importância da Bragantina, em 1920 ela detinha 32.089 linhas de um total de 65.367 linhas da “Rio de Janeiro and São Paulo”.

Jonas Soares de Souza



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