Preservação de um marco referencial

Cupins ameaçam a estrutura do conjunto arquitetônico do Quartel de Itu

O conjunto arquitetônico do 2º GAC L (2º Grupo de Artilharia de Campanha Leve), Regimento Deodoro, carinhosamente chamado pela população de Quartel de Itu, é um dos marcos referenciais do município ituano, e a sua preservação deve ser do interesse de toda a população. Na conceituação elaborada pelo arquiteto e urbanista Leonardo Tossiaki Oba, ex-professor da Universidade Federal do Paraná, marcos referenciais urbanos são os lugares, monumentos e conjuntos arquitetônicos que têm significado social, político, cultural, psicológico e histórico para a grande maioria dos seus habitantes. Eles são portadores de sentidos que, além do aspecto meramente físico e visual, contribuem na construção da identidade da cidade e desempenham papel importante no processo de sua apropriação coletiva.
O conceito do urbanista Tossiaki pode perfeitamente ser aplicado ao Quartel de Itu, um dos mais belos marcos referenciais da cidade. Legalmente, o conjunto arquitetônico está preservado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo). De acordo com o artigo 4º da Resolução SC – 85, de 06 de novembro de 2003, o antigo Colégio São Luís está enquadrado no Grau de Proteção 1 (GP-1), aplicável às edificações de alto interesse histórico, arquitetônico e ambiental. Nesse caso, a Resolução determina que a preservação das edificações seja integral e que nas intervenções para sua preservação e restauração sejam aplicados métodos científicos.

Intervenções de restauro
O tombamento pelos órgãos de preservação garante a salvaguarda do bem cultural. Entretanto, a sua conservação exige atenção vigilante e intervenções constantes. Na década de 1980 surgiram fissuras nas pinturas do teto de estuque da Sala do Comandante (antiga Sala de Visitas do Colégio São Luís), e na imagem do Anjo Custódio (ou Anjo da Guarda, uma das designações atribuídas a São Miguel Arcanjo), localizada no corredor que dava acesso ao refeitório dos alunos do Colégio São Luís (e hoje dá acesso ao refeitório dos militares), obras atribuídas ao jesuíta italiano irmão João Maria Alberani (1830-1913). As fissuras foram detectadas pelo olhar atento da professora e artista plástica Maria Célia Brunello Bombana, que relatou o fato ao então comandante, na ocasião, coronel Francisco Roberto de Albuquerque, às autoridades municipais e aos órgãos de preservação.
Estudiosa da obra de Alberani, Maria Célia insistiu na divulgação da importância da preservação daquelas pinturas e da necessidade urgente de intervenções para a sua conservação. Ela ressaltava que Alberani tinha explorado a técnica desenvolvida pelo padre jesuíta Andrea Pozzo (1642-1709), autor de um sistema de perspectiva ilusionista em que as linhas focais começam nos cantos de cada peça e se encontram em um único ponto de fuga, centralizado, dando à pintura aparência tridimensional, semelhante ao trompe-l’oeil (expressão em língua francesa que significa “engana o olho”), técnica muito usada no barroco, mas conhecida desde a Antiguidade.
Do alerta inicial de Maria Célia resultou o restauro da imagem do Anjo Custódio e das pinturas do teto e paredes da sala do comandante, realizado em 1985 pelo restaurador José de Anchieta Cardoso, renomado especialista em afrescos.

Problemas estruturais
Hoje, externamente o conjunto está impecável, aparentemente. A constante manutenção e repintura das fachadas externas não denunciam a série de problemas estruturais que afeta os edifícios mais antigos do conjunto. Porém, dada a gravidade da situação, alguns setores do segundo pavimento do corpo do edifício alinhado à Praça Duque de Caxias já foram interditados. As paredes estão se afastando na parte superior, distanciando-se uma da outra e tábuas do assoalho estão se soltando, relatou preocupado o coronel Erb Lyra Leal, pouco antes de passar o comando do 2º GAC L ao tenente coronel Ricardo Alves Pereira, no dia 20 de janeiro deste ano.
O mesmo problema já se manifestara anteriormente no corpo do edifício que tem porta de entrada voltada para a Praça Duque de Caxias. Na ocasião, foram realizadas intervenções para a consolidação dos alicerces e implantados tirantes estruturais de ferro para estabilizar as paredes portantes do pavimento superior.
Agora o problema se agravou. A movimentação de parte das tábuas do assoalho dos pavimentos superiores é perceptível ao se caminhar pelo salão, e as trincas são visíveis no teto de estuque da sala do comandante, localizada imediatamente sob parte do Salão Nobre. Nesse estuque e nas paredes da sala estão as pinturas atribuídas ao religioso irmão Alberani, autor também de outras obras no complexo de prédios.

Laudo técnico
Os arquitetos Alberto Magno Arruda e José Saia, especialistas em restauração da empresa Arruda Associados, Arquitetura, Urbanismo e Engenharia Ltda. também fizeram prospecções nos edifícios e elaboraram um projeto de intervenção no conjunto arquitetônico. Mais recentemente, com a colaboração do engenheiro Jorge Luiz Vernaglia, especialista em patrimônio arquitetônico, e de Álvaro Stella, ex-secretário municipal da cultura, o comandante Eber do 2º GAC L solicitou um laudo à VEC – Projetos e Gestão Ltda, no mês de agosto de 2016. O laudo, assinado pelo experiente biólogo Eder Flávio Rede, constata o comprometimento do barroteamento do piso do salão nobre, severamente atacado por cupins-de-madeira-seca.
O ataque deteriorou peças de sustentação do piso, fazendo com que as tábuas do assoalho se desprendam dos barrotes. O laudo conclui que o madeiramento estrutural da edificação necessita de urgente intervenção, pois sua degradação poderá acarretar a perda de capacidade de suporte da estrutura, com o consequente colapso do conjunto.
Foram encontrados, ainda, sinais da presença de cupins subterrâneos em peças de madeira do salão sobre. A presença desses insetos deve ser considerada como preocupante, afirma o laudo, pois, ao contrário dos cupins-de-madeira-seca, são extremamente vorazes e os efeitos deletérios de seu ataque podem provocar danos severos às estruturas de madeira.
O biólogo recomenda que seja feito um programa amplo visando a total eliminação dos insetos, lembrando a possibilidade de haver outros focos fora da edificação, que podem voltar a infestar o madeiramento se não forem erradicados. “Como a degradação biológica da madeira é um processo contínuo, caso não sejam tomadas medidas para estabilizarem a condição ora apresentada e mitigarem os fatores que favorecem esta deterioração, é certo que o quadro ora apresentado tende a piorar, e consequentemente, os custos necessários para uma recuperação aumentarão em proporções exponenciais”.
O programa recomendado pelo biólogo e pela VEC para preservar o Quartel de Itu continua à espera do momento oportuno de subir à pauta de alguma instituição pública ou privada sensível à necessidade de investimentos no patrimônio cultural da Nação.

Jonas Soares de Souza

01 – Brasão da Companhia de Jesus. Depois de cem anos, o símbolo dos jesuítas permanece até hoje em estandarte de metal sobre o sino do antigo Colégio Luís – Tucano, 2018

02 – Pintura do Anjo Custódio, obra do irmão João Maria Alberani – Tucano, 2018

03 – Irmão João Maria Alberani – Álbum de Anselmo Alberani /Luigi Vecchi, 1910

04 – Sala de visitas do Colégio São Luís, atual sala do comandante, 1903 – Acervo do Colégio São Luís

05 – Trincas no estuque da sala do comandante – Eder Flávio Rede, 2016

06 – Inspeção no assoalho por câmera de vídeo – Eder Flávio Rede, 2016

07 – Barrote atacado por cupim – Eder Flávio Rede, 2016

08 – Detalhe de técnica construtiva de uma das paredes do prédio – Eder Flávio Rede, 2016

09 – Tenente Airton mostra trincas no piso do pavimento térreo – Tucano, 2018

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Museu do Quartel
Criado em 20 de janeiro de 1971 e reformulado em 1998, o Museu do Quartel reúne em seu acervo fotografias, objetos, documentos manuscritos e impressos sobre o conjunto arquitetônico e a história da unidade militar. Nele encontram-se diversos tipos de canhões, metralhadoras, materiais e artefatos como troféus da década de 1930, uniformes militares do início do século 20 e equipamentos utilizados pelos soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial. Destacam-se o boletim de inauguração da unidade, um canhão francês Schneider 75 C/18, 6 mod. 1919 e um canhão alemão Krupp 75 C/28 – mod. 1908.
O museu está instalado em uma das salas ao lado do pátio interno e em dependências da Torre do Relógio. Para a comemoração do centenário foi montada uma exposição fotográfica que conduz o visitante na história dos edifícios e da unidade militar. O trajeto da mostra interliga essas áreas com o grande corredor do edifício principal. A visitação ao Espaço Cultural Domingos Fernandes (Museu do Quartel, Igreja São Luís e exposição fotográfica) está franqueada ao público aos sábados, domingos e feriados. (JSS)



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