Quartel de Itu completou cem anos

Do precário regimento com 29 homens ao moderno grupo de artilharia leve

Ainda eram os primeiros dias de janeiro de 1918 e o tenente coronel Raphael Clemente Telles Pires, comandante do então 7º Regimento de Artilharia Montada (7º RAM), em Itu/SP, já expedia os primeiros boletins internos. Os documentos davam conta da chegada de animais e da apresentação de novos militares que, no dia 20 de janeiro daquele ano, comporiam o efetivo de 29 homens que participaram da instalação oficial do aquartelamento, no conjunto arquitetônico antes ocupado pelo Colégio São Luís. Aquela incipiente unidade militar deu lugar ao atual 2º Grupo de Artilharia de Campanha Leve, o Quartel de Itu, que completa cem anos.
No início do século 20, o Colégio São Luís transferiu sua escola para São Paulo, mas os padres jesuítas se preocuparam com o destino do patrimônio. O imóvel foi oferecido para o Exército Brasileiro, que o comprou por 850 contos de réis. Na visão do coronel Erb Lyra Leal, ex-comandante da unidade, a escolha de Itu deveu-se a sua localização geográfica estratégica, cercada por importantes rodovias, que possibilitam o deslocamento rápido para várias direções. Devido às dimensões continentais do Brasil, a preocupação era preservar a capilaridade do Exército, ou seja, a sua presença nos mais diversos pontos do País.

Artilharia Montada
As primeiras denominações do Quartel de Itu – 7º Regimento de Artilharia Montada e, um ano mais tarde, 4º Regimento de Artilharia Montada (4º RAM) – chamam a atenção pela expressão “artilharia montada”. Ainda não havia indústria automobilística no Brasil e os veículos mais utilizados para curtas distâncias eram os de tração animal. Desse modo, a Artilharia se dividia em: Artilharia a Pé, que acompanhava as tropas de Infantaria; Artilharia a Cavalo, que era mais rápida e acompanhava as tropas de Cavalaria; e a Artilharia Montada, que tinha parte de seu efetivo montado a cavalo (das raças bretão postier e percheron) e os armamentos transportados em lombo de burros.

Depois da Primeira Guerra Mundial houve a introdução dos meios mecanizados e blindados e, com a Segunda Guerra Mundial, o emprego bélico do cavalo foi praticamente extinto. Assim, a evolução dos transportes, das armas e do planejamento da campanha, levou, em 1948, ao primeiro marco transformador na história da unidade, que se traduziu em nova denominação: 2º Regimento de Obuses 105 (2º RO 105).

Nos tempos do 4º RAM, o cearense José Ximenes, pai do ituano José Leocádio Ximenes, serviu na unidade. Incorporado ao Exército aos 15 anos, esteve em operações militares em Santana do Livramento/RS, durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Depois foi transferido para Jundiaí/SP e, finalmente, para Itu, onde ficou de 1934 a 1938. Leocádio conta que, apesar da dureza do trabalho, seu pai era um soldado pouco afeito aos armamentos e treinamentos pesados.

José Ximenes conviveu com o canhão Krupp 75 mm, de produção alemã, que, assim como em vários exércitos europeus, era utilizado no Brasil dos anos 30 e 40. Suas principais características eram a leveza, a rapidez de disparo e a facilidade de deslocamento. O modelo 1908, utilizado pelo 4º RAM, tinha o calibre de 75 mm, pesava 1.356 quilos e era transportado por seis animais.

4º RAM na Segunda Guerra
Em setembro de 1942, quando o Brasil confirmou sua participação na Segunda Guerra Mundial ao lado dos Aliados (Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética e China), o 4º RAM deslocou-se para a cidade de Recife/PE, com o efetivo de guerra do seu 2º Grupo. Em seguida, foi para Maceió/AL. Alguns militares do 2º Grupo do 4º RAM embarcaram para a Itália, integrando a Força Expedicionária Brasileira.

O tenente reformado Santin Spinoso, aos 99 anos de idade, é o único ituano ex-combatente da Segunda Guerra ainda vivo. Ingressou no exército em 1941, aos 23 anos, como soldado. O primeiro trabalho para o qual foi designado foi a limpeza das baias dos cavalos. No mesmo ano, prestou dois concursos internos e foi promovido, primeiro a cabo e, depois, a 3° sargento, passando a ocupar o cargo de bibliotecário.

Em 1942, ele e vários companheiros foram destacados para defender a Costa Norte do Brasil das ameaças alemãs, junto à 7ª Divisão de Infantaria e da Artilharia Montada. Sua missão era defender os portos de Recife e Maceió e vigiar o restante do litoral, com particular atenção em Porto de Pedras, em Cururipe/AL. Depois que a guerra acabou, retornou a Itu e foi reintegrado ao 4º RAM.

Em três abril de 1947, recebeu a Medalha de Guerra, como integrante da Força Expedicionária Brasileira e ascendeu ao posto de 1º sargento em 1948. Como sequela dos violentos estampidos aos quais foi exposto durante os treinamentos, Santin perdeu gradativamente a audição. Aposentou-se em 1956 como 2° tenente.

2º RO 105
Em 1946, o 4º RAM passou por uma modernização do seu material bélico e recebeu novo armamento: o obuseiro M101, utilizado pelo Exército dos Estados Unidos em todas as frentes durante a Segunda Guerra Mundial. Esse obuseiro, com calibre 105 mm, possui o alcance de 11 km e alta precisão. Pesa cerca de dois toneladas e é semelhante a um canhão, com a diferença que o canhão objetiva alvos visíveis e o obuseiro tem sua trajetória calculada matematicamente para que um tiro de trajetória curva atinja o alvo.

O capitão reformado José Carlos Teixeira iniciou sua vida militar em 1957, como soldado do 2º RO 105. Ainda no primeiro ano fez os cursos de cabo e de sargento. Em 1959 já era 3º sargento e seguiu estudando: fez, no Rio de Janeiro, Curso de Comunicações e, na sequência, passou a servir em São Paulo, na então 7ª Companhia de Guarda

Em 1965, casado com Teresa Maria e com um filho bebê, Teixeira integrou a missão brasileira junto à ONU (Organização das Nações Unidas), destinada a pacificar o canal de Suez, na época alvo de disputa entre Israel e Egito. “Foi difícil deixar minha mulher sozinha durante um ano, mas muito importante para a minha carreira”. Depois disso passou ainda por Jundiaí/SP, Itu e Brasília/DF. Entre 1979 e 1981 morou com a família em Tel Aviv, em Israel, onde trabalhou como auxiliar do Adido Militar brasileiro naquele país. Quando retornou, serviu em Recife, em Brasília novamente e retornou a Itu perto de se aposentar. Em 1991 entrou para a reserva com a patente de capitão.

Relações Públicas de Itu
O capitão reformado Octávio Cintra, hoje com 93 anos, também esteve no 2º RO 105. Originário da cidade de Sacramento/MG, ingressou no Exército em 1942, aos 18 anos, como soldado e fez carreira militar, por meio dos inúmeros cursos que lhe valeram promoções. Entre 1962 e 1963 serviu em Pirassununga/SP, já como tenente. Depois retornou a Itu, onde atuou, por cerca de 15 anos, como Relações Públicas na unidade. Sua intimidade com Itu era tão grande que, sempre que mudava o comando do quartel, Cintra se incumbia de apresentar a cidade ao novo comandante. Entrou para a reserva em 1978, mas não deixou de trabalhar por Itu. Foi um dos fundadores da Assomeba (Associação Pró-Melhoramento dos Bairros Leste), em 1967; ajudou a criar diversas associações de moradores de Itu e integrou o Conselho Coordenador das Sociedades Amigos de Bairros, Vilas e Cidades do Estado de São Paulo. Cintra foi também um dos fundadores do Rotary Club Itu-Convenção em 1977, sendo atualmente o único deles vivo. Atuou ainda na Saci (Sociedade Amigos da Cidade de Itu) e no jornal A Federação.

2º GAC AP
Em 1972, o Quartel de Itu recebeu o obuseiro autopropulsado l05mm, M108, uma viatura blindada sobre lagartas (tanque de guerra), que pesava cerca de 21 toneladas. Naquela ocasião Itu passou a utilizar esses equipamentos porque a brigada à qual era subordinada era uma brigada blindada, a 11ª Brigada de Infantaria Blindada, com sede em Campinas/SP. Tendo em vista essas novas características, em 1977, o Quartel de Itu ganhou, então, a denominação de 2º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado (2º GAC AP) e passou a contar com o reforço da 11ª Bateria de Artilharia Antiaérea.

O tenente Waldir Michelone esteve no 2º GAC AP entre 1975 e 1979, período em que serviu como oficial temporário (R2), formado pelo Centro de Preparação de Oficiais da Reserva. “Quando chegaram os doze blindados M108, o quartel tinha uma estrutura imensa, próxima de mil homens”, lembra. E com a chegada da Antiaérea, o tenente foi designado para o comando de linha de fogo da Bateria, formada por 160 soldados e os famosos Bofors 40 mm, os canhões automáticos antiaéreos de origem sueca.

Como a Antiaérea era uma novidade em Itu, sua operação exigiu treinamento e adaptação intensivos, tanto do efetivo como do comando. Esse esforço em vencer os desafios e estar preparada para proteger pontos críticos, sensíveis a ataques aéreos, criou na equipe certa aura de superioridade. Integrar a Bateria passou a ser motivo de orgulho para os soldados.

Entre os anos de 1977 e 1979, Michelone integrou ainda o Pelopes (Pelotão de Operações Especiais), um grupo de elite, formado por vinte homens, designado para missões especiais. Em 1979, concluiu seu período no Exército e ingressou, por concurso, no Serviço Público Federal, no qual se aposentou recentemente.

2º GAC L
Em 1º de março de 2005, fruto da reestruturação da Força Terrestre, o 2º GAC AP sofreu nova mudança no seu material de dotação. O Regimento Deodoro recebeu os modernos e versáteis obuseiros Oto Melara M56, de 105mm, em substituição aos obuseiros M108 AP, e foi renomeado como 2º Grupo de Artilharia de Campanha Leve (2º GAC L).

O Oto Melara M56 105mm é um obuseiro leve (pesa 1.480 kg), de origem italiana, que foi projetado para satisfazer a exigência de versatilidade, pois pode ser montado e desmontado em minutos, rebocado por viaturas, transportado por helicópteros e até lançado por paraquedas.

Com esses recursos e um efetivo de 600 homens, o Quartel de Itu segue cumprindo as tarefas de: apoio de fogo à 11ª Brigada de Infantaria Leve, garantia da lei e da ordem por ordem expressa da Presidência da República e em operações de apoio a outros órgãos governamentais. Além de manter-se preparado para missões de paz e operações especiais em nível nacional e internacional.

Rose Ferrari

01 – Antes dos veículos motorizados, os muares transportavam materiais e canhões. Foto de 1930 – Coleção Regimento Deodoro

02 – Militares do 4º RAM ao lado do canhão Krupp (1938) – Coleção Regimento Deodoro

03 – José Ximenes no 4º RAM, é o terceiro na fila da frente, da dir. p/ esq. – Coleção José Leocádio Ximenes

04 – Santin Spinoso (1º à dir.) no navio de retorno ao Rio de Janeiro, para depois chegar de trem a Itu, em 1945 – Coleção Santin Spinoso

05 – 2º Regimento de Obuses 105 em 1950 – Coleção Regimento Deodoro

06 – José Carlos Teixeira com a boina azul da ONU, em 1965, durante a missão de paz em Suez – Coleção José Carlos Teixeira

07 – Octávio Cintra, hoje capitão reformado, no início de sua vida militar, nos anos de 1940 – Coleção Octávio Cintra

08 – O Quartel Itu recebeu, em 1972, doze obuseiros autopropulsados 105mm – M108 – Coleção Regimento Deodoro

09 – Linha de fogo da 11ª Bateria de Artilharia Antiaérea em 1977. Na foto, o tenente Waldir Michelone está de óculos escuros – Coleção Waldir Michelole

10 – Os versáteis obuseiros Oto Melara M56 podem ser desmontados e transportados – Coleção Regimento Deodoro

Box 01
Regimento Deodoro
Em 1948, o 2º RO 105 recebeu a denominação histórica de Regimento Deodoro, por solicitação da comunidade ituana ao então presidente da República Eurico Gaspar Dutra (PSD). O nome homenageia o marechal Manuel Deodoro da Fonseca, proclamador da República e, consequentemente, à cidade de Itu, berço dos pensamentos republicanos. (RF)

Foto box 01 – Inauguração do Pátio do Regimento Deodoro, em 24 de maio de 1948. Sob o portal, o então comandante coronel Euclides Sarmento (ao microfone) e o prefeito de Itu, naquela época, Waldomiro Corrêa de Camargo, a sua esquerda – Coleção Família Correa de Camargo

Box 02
Guardião da memória
O sargento reformado Lineo Henrique da Costa começou sua carreira militar no Exército em 1967, ainda no 2º RO 105. Apesar de se lembrar dos penosos exercícios, confessa que esteve, durante toda a vida militar, designado para funções administrativas, especialmente na área de Relações Públicas. O fotógrafo do Regimento era o sargento Mateus Pereira Jr. Em 1985, porém, Mateus foi transferido para Juiz de Fora/MG. “Ele jogou uma máquina fotográfica no meu peito e falou: – Se vira!”. No começo Lineo não sabia fotografar, mas tomou gosto pelo ofício e, ao longo do tempo, registrou inúmeros momentos da história da unidade. Mesmo depois de passar para a reserva, em 1994, continua exercendo voluntariamente essa função. “A fotografia é o instrumento para preservar aquilo que realmente tem valor: as memórias”.
Lineo adquiriu um scanner de negativos e está organizando todo o acervo disponível. Além de fotos feitas por ele mesmo, coleciona imagens enviadas pelos participantes do grupo “Lembranças do Quartel de Itu”, que criou no Facebook para essa finalidade. O grupo já possui mais de 4 mil membros. “Enquanto eu viver, continuo contando a história do Quartel de Itu”. (RF)

Foto box 02 – Lineo da Costa ao lado do busto do marechal Emílio Luís Mallet, patrono da Artilharia, no Quartel de Itu – Tucano



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Fontes consultadas
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