Redutos do cururu

Desafios cantados ao som da viola é tradição na região do Médio Tietê

De origem antiga, o cururu é uma manifestação cultural que sobreviveu ao tempo. O músico, pesquisador e professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), Ivan Vilela, explica que as melodias e danças indígenas como o cururu e o cateretê foram aproveitadas pelo padre José de Anchieta, quando o jesuíta chegou a terras brasileiras em 1553 para capitanear o processo de catequese dos índios na região Sudeste do Brasil. Essas manifestações foram apropriadas, posteriormente, pelos bandeirantes e tropeiros; e o cururu, como uma forma de desafio, tornou-se marcante na região banhada pelo rio Tietê entre os municípios de Bom Jesus de Pirapora/SP a Barra Bonita/SP, o chamado Médio Tietê.

Ivan Vilela fala sobre as origens do cururu – Marcos Santos/USP Imagens

O pesquisador relata que a região de maior expressão do cururu é a do Médio Tietê, mas cita a existência dessa manifestação cultural nas cidades paulistas de Santa Bárbara D’Oeste, Americana, Hortolândia e Nova Odessa. Analisa que, nesse caso, esses municípios são como uma extensão do Médio Tietê. Fala que em Cuiabá/MT, o cururu está presente, mas além de ser tocado e cantado, também é dançado.

O cururu é um desafio cantado ao som de violas pelos canturiões (cantadores). Em 1910 foi levado como espetáculo ao público, pela primeira vez, por Cornélio Pires. Pode ser definido como um canto de repente, improvisado, mas suas rimas obedecem às carreiras (por exemplo, carreira do “A”, que pede rimas no verbo “ar”; do “Sagrado”, com rimas em “ado”). Os temas do cururu podem ser sociais, políticos, religiosos, entre outros.

Livro conta a história dos cururueiros paulistas – Reprodução

Os grandes nomes do cururu sempre viveram no interior paulista como Nhô Serra, que popularizou a imagem do cantador e difundiu a tradição; Pedro Chiquito, considerado o mais eclético dos cururueiros; Parafuso, conhecido como caçoísta (sarrista), imortalizado por Tião Carreiro & Pardinho com a música Negrinho Parafuso; e o tieteense Zico Moreira, conhecido como o maior poeta do gênero. De acordo com Vilela, os cururueiros mais afamados são os de Piracicaba/SP, mas cita ainda Narciso Correa, de Sorocaba/SP; Cido Garoto, natural de Ibitinga/SP e que se mudou para Sorocaba/SP; e Andinho Soares, um roqueiro de Votorantim, com visual moderno que se destaca entre os caipiras.

O jornalista Sérgio Henrique Santa Rosa, que é mestre em Comunicação Midiática pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e autor do livro “Prosa de cantador: a história e as histórias dos cururueiros paulistas”, observa que o cururu sobrevive principalmente nas periferias das cidades da região do Médio Tietê, mas exclusivamente como diversão, entretenimento. “Desde a década de 1940, com a intensificação do êxodo rural, o discurso do cururu tornou-se cada vez mais secular, adotando temas como política, história do Brasil e atualidades, em detrimento do conteúdo religioso, que está na origem da manifestação. A parte cômica da cantoria também veio se tornando mais rude, mais agressiva”.

Afirma que, atualmente, os gracejos praticamente dominam os versos dos canturiões. Diz que o bom cururueiro passou a ser o que “xinga mais” e, portanto, faz a plateia rir. “Tolera-se, inclusive, expressões de baixo calão, algo que no passado era rigorosamente proibido”.

Apresentações de cururu encantam e divertem frequentadores do Armazém do Limoeiro – Tucano

Comenta ainda que o “lugar do cururu”, hoje, é o bar da periferia ou a festa folclórica promovida pelo Poder Público e não mais as festas religiosas e pousos do Divino nas pequenas propriedades rurais. “Perdeu-se muito da poesia, da religiosidade, da valorização da vida no campo. Toda essa mudança mostra como o cururu é um indicativo das transformações sociais pelas quais passa o homem do interior, com raízes na cultura caipira”, avalia o jornalista.

Armazém do Limoeiro
O cururu é uma das atrações do Armazém do Limoeiro, em Itu/SP, desde que o local foi reinaugurado, em 2002, com foco no turismo rural. Dentro da Fazenda Limoeiro da Concórdia, o velho armazém, construído em 1901, é uma atração não só por sua arquitetura, mas por conservar as características típicas desses antigos estabelecimentos comerciais que eram comuns na zona rural. Logo após a reinauguração, o proprietário Clemente Nunes decidiu promover ali apresentações de música ao vivo. Mas, isso implicava na escolha do ritmo que combinasse com Armazém.

Nenê do Cururu é o canturião nas apresentações do Armazém do Limoeiro – Tucano

Cantores e violeiros da região que tocavam música sertaneja passaram a se apresentar até que Nunes conheceu o Nenê do Cururu e os violeiros que, além do repente, cantam e tocam música de raiz. Ficou definido que aquele era o estilo que mais combinava com o local, pois resgatava os costumes da vida do caipira.

A aceitação por parte do público foi imediata, o cururu do Armazém do Limoreiro ficou cada vez mais conhecido na região e tem encantado quem presencia as apresentações que acontecem aos sábados, das 13h às 17h, e aos domingos, das 10h às 17h. Os violeiros também participam da missa dominical, às 8h30, na Capela de São Francisco de Paula, que fica no interior da Fazenda. Ao final da missa, fazem uma reflexão sobre o evangelho do dia em forma de cururu.

Violeiro Natálio Pedroso acompanha Nenê do Cururu e também declama durante as apresentações – Tucano

De acordo com a publicitária responsável pela área de marketing e eventos do Armazém do Limoeiro, Rebeca Nunes Steiner, a média de público nessas apresentações é de 150 a 200 pessoas. O público é formado por clientes que frequentam o local, sendo que a maioria é oriunda de Itu e das cidades da região, em especial, Itupeva, Jundiaí, Cabreúva, Salto, Indaiatuba, Campinas, Sorocaba e São Paulo. Observa que, curiosamente, o público ituano sempre foi minoria, começando a crescer apenas nos últimos meses.

Canturiões

Quem canta e encanta os frequentadores do Armazém do Limoeiro é o Grupo Raízes de Itu, cujo canturião é o Nenê do Cururu. Ele e seus companheiros Toninho Cunha, Natálio Pedroso, José Ruiz Honorato e Vicente José de Oliveira propagam essa manifestação cultural.

Sebastião Roque se apresentando com D. Tudinha – Coleção Mirian Ortiz/Prosa de Cantador

Desde 1975, inspirado por Sebastião Roque Ortiz, Nenê é cantador de cururu. “O Sebastião Roque se apresentava no auditório da Rádio Convenção, na Rua Floriano Peixoto, nos anos 60. Pelo que sei foi o Sebastião que trouxe o cururu para Itu. O João Davi, de Sorocaba, o Pedro Chiquito, de Piracicaba, e o Zico Moreira, de Tietê/SP, se apresentavam com ele”, relata.

Um dos livretos escritos e publicados por Sebastião Roque – Coleção Paulo Fraletti/Prosa de Cantador

Sebastião Roque é tido como o cururueiro que mais viajou pelo sertão do Médio Tietê, se apresentando em festas, circos e vendendo livretos com as poesias que compunha. Quando se mudou para Itu, trabalhou como feitor da turma do martelinho da Prefeitura. Seu genro, Almiro de Paulo Filho, o Ico do Violão, fala que já em Itu, certo dia, começou a cantar “Vingança do destino”, uma música que aprendera quando morava no Paraná, e isso chamou a atenção do vizinho dos fundos, Sebastião Roque, que o convidou para ir até sua casa. Quando chegou à casa do futuro sogro, viu o livrinho com a música que nem sabia que era de autoria dele. Durante algum tempo, Ico do Violão acompanhou o sogro nas apresentações.

Ainda segundo as lembranças de Nenê do Cururu, os mais antigos cururueiros nascidos em Itu são Antonio Costa, Antonio Cunha, Juvenal Ribeiro – o Gavião, acompanhados pelo tieteense José Ventura. Mas, antes disso, bem próximo a Itu, no km 12 da Rodovia Marechal Rondon, mais precisamente no Bairro Socorro, o cururu já era cantado nos anos 50. Por duas vezes, Zico Garcia e Armando Bortoletto fizeram festas de cururu nas proximidades da venda de Manoel Alves de Souza. Ali se reuniam cururueiros de várias cidades, principalmente, de Piracicaba. Parafuso, Pedro Chiquito, Zico Moreira e Nhô Serra estão entre os cantadores que se apresentaram nessas festas.

Catalogação

Desde a infância, o professor de História e pesquisador Carlos Carvalho Cavalheiro acompanha a história do cururu. Em 2000, produziu um CD com grupos folclóricos de Sorocaba e região, intitulado “Cantadores”, no qual foi gravada uma faixa com cururu. “Entre 2002 e 2003 tive a honra de acompanhar Cido Garoto por todos os cantos do Médio Tietê em busca de cantadores e violeiros de cururu”, conta o professor. Segundo ele, o resultado foi o livro “Cururu – Retratos de uma tradição”, de Cido Garoto, que se constitui na maior catalogação até hoje feita sobre esse universo.

Da esq. para a dir. Horário Neto, Zico Moreira, Toninho Paes, Jonata Neto, Narciso Correa – Coleção Horácio Neto/Prosa de Cantador

Dos grandes nomes do cururu, que conheceu entre 2002 e 2003, em Sorocaba e região, cita os nomes de Zico Moreira, João Davi, Sílvio Paes, Dito Silva; em Piracicaba, Pedro Chiquito, Nhô Serra, Horácio, Jonata Neto, Parafuso e outros; em Porto Feliz, Tide Marciano, Medeirinho, Santo de Souza, Toninho Cunha, João Carlota e Jairo das Neves. Entre os canturiões de Itu, menciona Nenê do Cururu e Célio Carminhoto.

Angélica Estrada



Leia outras matérias

Talentos “prata da casa”
Grandeza da viola em Itu
Editorial
Grandes nomes da música de raiz