São Pedro não tem culpa

Falta de água em Itu se deve a péssimas administrações ao longo da história

Durante séculos os governantes de Itu/SP se beneficiaram da religiosidade do povo para esconderem, sob a cortina de fumaça da credulidade, sua incapacidade administrativa e seu descaso quanto à utilização planejada dos recursos hídricos para abastecer regularmente a cidade. Os registros históricos de falta d’água remontam a mais de 200 anos atrás, assim como a disposição da comunidade para clamar aos céus por socorro, nas famosas procissões para pedir chuva.

O cronista ituano Francisco Nardy Filho evidenciou, em seus escritos, os apuros da população já em 1800, quando a cidade crescia e a escassez de água se tornava um problema recorrente, sempre relacionado à pluviosidade. Em 1877, segundo o escritor, uma seca pôs os criadores de animais e as donas de casa em polvorosa, visto que não havia água para abastecer os bebedouros nem lugares onde lavar as roupas. E no último ano do século 19 a falta de água em Itu ganhava as páginas da imprensa nacional, como ocorreu em 4 de dezembro de 1900, no jornal O Estado de São Paulo.

Nesses momentos difíceis, a poucos ocorria cobrar soluções das autoridades, pois a existência de água para uso público, na visão estreita da época, era dependente da chuva, considerada uma benção de Deus. Como, segundo a tradição católica, São Pedro é o “porteiro do céu”, a ele eram lançados os brados em tempos de escassez.

O mito ao redor de São Pedro decorre da interpretação do seguinte trecho bíblico: “E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.” (Mateus 16, 18-19).

Eram muito comuns, no entanto, as orações aos santos e santas de devoção de cada comunidade. Os fiéis faziam peregrinações a capelas e cruzeiros longínquos para que Deus se compadecesse de seu sacrifício e mandasse a tão desejada chuva.

No paroquiato do padre Miguel Corrêa Pacheco (1856 a 1892), quando flagelados por prolongada seca, os ituanos recorriam a Nossa Senhora do Monte Serrat. Percorriam cerca de oito quilômetros em romaria até Salto, então bairro de Itu (hoje município), onde ficava o altar dedicado à santa, e depois retornavam a Itu carregando sua imagem.

O jornal ituano A Federação registrou que, em 1927, após uma estiagem de 13 meses, os sitiantes desesperados recorreram ao monsenhor José Maria Monteiro para que fizesse uma prece. O religioso convocou o povo para uma romaria de penitência. O séquito a uma imagem de São Roque, integrado por centenas de fiéis, saiu às 4 h da madrugada da Igreja de Santa Rita e seguiu até o Bairro Varejão rezando o Rosário. Naquele bairro foi celebrada uma missa e depois a procissão retornou à Igreja de Santa Rita, no centro de Itu. A notícia de A Federação, reproduzida em 1994 pelo jornal O Democrata, do município de São Roque/SP, dá conta de que os fiéis terminaram sua peregrinação sob uma forte chuva que durou várias horas.

No Bairro do Jacuhú

Antigos ituanos, como o casal Teresa e Ignácio Francischinelli, se lembram de outra procissão do gênero, realizada no Bairro Rural do Jacuhú desde 1935, por iniciativa dos casais Angelo Bragagnolo e Mariana Francischinelli Bragagnolo e Fortunato Bragagnolo (Gigio) e Raquel Francischinelli Bragagnolo, com a participação de muitas outras famílias descendentes de italianos que residiam nos sítios da região, como Daldon, Morelli, Thomaz, Candiani, Móz, Salvador, Bonassa, Tavernaro e Trettel.

Lucinda, filha de Mariana, lembra que quando tinha 9 anos, por causa de uma grande estiagem que há meses assolava a região, sua mãe fez promessa de levar a imagem de Nossa Senhora Aparecida até a capela do Sagrado Coração de Jesus, que ficava a seis quilômetros da Fazenda Nossa Senhora da Conceição, que pertencia a sua família. A promessa completa consistia em levar a imagem de Nossa Senhora Aparecida e trazer para a fazenda a de Nossa Senhora Auxiliadora que estava na capela e, depois, levá-la de volta. Lucinda conta que quando estavam chegando a sua casa caiu um pé d’água daqueles. Depois disso, a promessa virou tradição e, todos os anos, quando a procissão chegava à fazenda, mãe e sua tia serviam café, pão e bolo aos participantes.

Até 1962, a manifestação religiosa ainda se parecia bastante com a original: no dia 10 de outubro, o cortejo saía da capela do Sagrado Coração de Jesus e ia até a Fazenda Nossa Senhora da Conceição, com um andor para cada santa. Atualmente a tradição é preservada, mas a procissão já é “motorizada” e vai até a capela de Santo Antonio, numa propriedade da família Francischinelli, no Bairro do Carvalho, onde é rezado o Terço.

Outras procissões

Nos anos de 1940, em frente ao atual estádio municipal “Dr. Novelli Júnior”, havia uma grande cruz de madeira para a qual, nos meses de estiagem, acorriam dezenas de moradores da Vila Nova para rezar e molhar a base do cruzeiro com água, num singelo pedido de chuva. No início da década de 1950, a cruz foi retirada e os fiéis tiveram que ir rezar em outra freguesia.

Essa mesma prática acontece no Morro da Cruz desde o ano de 1929, quando uma estiagem de oito meses castigou Itu. Três moradores das imediações (Bairro Piraí Acima) – Elias de Rosso (Fazenda Barreiro), Antonio Martini (Sítio Martini) e Alfredo Vanini (Fazenda Paulista) – tomaram a iniciativa: lavraram a machado duas toras de saguaragi de 30 cm de diâmetro e edificaram uma cruz de 3×4 m. A partir disso, seguindo pelas estradas do Pinheirinho e Pau D’Alho, moradores de sítios e fazendas da redondeza passaram a realizar procissões até o topo onde ficava o cruzeiro, num percurso de cerca de um quilômetro, após a encruzilhada, no km 10 dessa antiga estrada que é conhecida também como estrada Imperial e da Servidão.

Em 1944, um incêndio na mata destruiu parcialmente a cruz, que foi imediatamente substituída por outra de eucalipto, mas ela também foi danificada, desta vez por vândalos. Os fiéis optaram, então, por encomendar uma peça em ferro fundido, que permanece até hoje no local. Em 1996, um grupo de fiéis realizou obras de infraestrutura, como a construção de piso de concreto, capela, altar e bancos. Atualmente, missas e orações levam centenas de pessoas em ônibus e carros ao Morro da Cruz em duas datas anuais: 3 de maio (Invenção da Santa Cruz) e 14 de setembro (Exaltação da Santa Cruz).

Além disso, muitos crédulos ainda mantêm o hábito de se dirigir até lá para molhar o pé do cruzeiro quando a chuva custa a chegar, conforme conta Arcílio Bellon, um dos responsáveis por manter viva essa tradição, ao lado de Élcio Elias de Rosso (Nim), Paulo Perina, Alfredo Vanini Neto, Luiz Sório e Juvenal Massela, entre outros.

Aguadeiros

Enquanto a população rezava, os empreendedores vislumbravam um bom negócio: vender água. Há registros históricos da existência de aguadeiros em Itu desde o final do século 19, quando eles abasteciam seus barris de madeira em poços ou minas d’água e percorriam a cidade em carroças para vender o líquido de casa em casa.

Em meados do século 20, nem mesmo o respeitável médico Graciano Geribello desprezou a possibilidade de atuar nesse comércio. Ele era proprietário da Chácara Geribello, depois denominada Vila Agar em homenagem a sua esposa. A propriedade também foi conhecida como Rancho Alegre. Dovildo Leonardi, que foi seu funcionário, se lembra que ali havia uma excelente mina da qual se colhia água em garrafas e garrafões para ser vendida na cidade. Atualmente a área é ocupada pelo Condomínio Theodora.

Na mesma região havia outras fontes famosas, como a da Chácara Portela, cuja água era engarrafada e comercializada por Tristão de Souza Costa sob o nome Água Santa Elisa. Havia outra nascente, conhecida como Água do Matão, que ficava localizada na Fazenda Vassoural. No Bairro Brasil, próximo à Fecularia São José, existia a conhecida Poça do Alceu.

Os aguadeiros foram comuns em muitas cidades brasileiras até a chegada da água canalizada. O surpreendente é que em Itu muitos deles sobrevivem até os dias atuais. Estão, porém, revestidos de modernidades como a observação da legislação de vigilância sanitária, controle de qualidade por um Químico responsável e atendimento rápido, a qualquer hora do dia ou da noite.

A mais antiga empresa de Itu que atua nesse ramo é a Rizzi Transporte de Água, fundada em 1968, por Nelson Rizzi, e atualmente administrada por seu filho Wilson Benedito Rizzi. Ela capta água potável em cinco poços profundos de sua propriedade, a armazena e entrega em caminhões ou carretas pipa, com capacidades que variam de 6 mil a 35 mil litros. A empresa possui reservatórios com capacidade para 2.600 m³ e fornece água para condomínios, piscinas e indústrias. Suas bases estão no Jardim Santana e nos Bairros São Luiz e Melissa.

Ao longo de sua história a Rizzi Transporte de Água auxiliou o Corpo de Bombeiros em incêndios e o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) nos períodos de estiagem, como hoje ainda faz com a empresa Águas de Itu. A Água Vita e a Cristal Água também têm seus negócios voltados ao fornecimento de água no município.

À luz da ciência

Na atualidade as procissões são raras, mas prevalece em muitas rodas de conversa o velho discurso justificador de que falta água em Itu é porque a cidade tem baixos índices pluviométricos. Cabe à ciência sepultar essa falácia.

Na primeira e até o momento única pesquisa acadêmica sobre o tema, o geógrafo ituano Murilo Rogério Rodrigues desmistificou a pluviosidade como causadora da escassez de recursos hídricos. Ele analisou as chuvas ocorridas ao longo de 30 anos (de 1967 a 1997), mês a mês, em Itu e mais 15 cidades da região.

De fato, existe uma região denominada “área de sombra de chuvas”, que fica no limite entre dois compartimentos geomorfológicos: o Planalto Atlântico e a Depressão Periférica. “As nuvens carregadas que vêm do Oceano Atlântico chovem na capital paulista e, quando chegam nessa região, estão secas, pois ainda não houve evaporação suficiente para chover de novo”, explica Rodrigues.

A grande “novidade”, porém, é que Itu não é a única cidade existente nessa área e sua pluviosidade não é diferente da registrada em Salto, Sorocaba, Campinas e outros municípios próximos, nos quais o abastecimento de água vai “muito bem, obrigado”.

As verdadeiras causas da escassez de água em Itu são a acomodação política e a falta de investimentos adequados no setor ao longo de séculos. Rodrigues analisa que existiram obras de saneamento, mas foram muito distanciadas umas das outras, de modo que a demanda sempre cresceu mais rápido do que a oferta de água.

Exemplo disso era a existência, à época da pesquisa (2006), de redes e filtros de água obsoletos e mais de 5 mil hidrômetros avariados. Esses e outros detalhes ocasionavam perdas de 55% da água tratada, sendo 43% relativos a perdas físicas, ou seja, em vazamentos no sistema ou em procedimentos operacionais como lavagem de filtros. Isso significa que quase metade do volume captado e tratado era literalmente jogada fora. Os outros 12% referiam-se a perdas não-físicas, também conhecidas como perdas de faturamento, decorrentes de hidrômetros com defeito.

A empresa Águas de Itu, concessionária que assumiu os serviços de abastecimento em outubro de 2007, afirma que investimentos vêm sendo feitos para solucionar esse problema, mas não esconde que as perdas ainda são de 40%. O gestor operacional da companhia, Mário Márcio Gonçalves de Paula, tem como meta reduzi-las a 25%. Se isso for alcançado, será grande avanço, considerando-se que na maior parte do Brasil sequer existe medição e conhecimento técnico sobre as perdas. No entanto, se comparado com países como Singapura, Holanda e Japão, onde as perdas ficam na casa de 10%, percebe-se que ainda poderá ser melhor.

Captar mais

Mesmo diante de tantas evidências sobre o problema, as ações governamentais ao longo dos últimos anos, seguiram na direção de novas captações em mananciais disponíveis ou em poços profundos. O atual prefeito Herculano Passos Jr., em sua primeira campanha eleitoral, em 2004, anunciava a intenção de utilizar as águas do ribeirão da Mombaça, que fica na divisa com os municípios de São Roque/SP e Araçariguama/SP. Agora, depois de estudos técnicos, volta seus esforços numa tarefa ainda maior: a construção de uma barragem no ribeirão Piraí em consórcio com os municípios paulistas de Salto e Indaiatuba. A concessionária Águas de Itu também trabalha nesse sentido: pretende, ainda neste ano, captar água do ribeirão Pirajibu, que fica no limite com Sorocaba/SP.

Enquanto isso, os mananciais existentes – tanto nas barragens como a montante delas – nem sempre recebem os cuidados necessários e sofrem com o constante assoreamento, reduzindo a oferta de água em épocas de estiagem. Exemplo desse problema está num dos afluentes do ribeirão Itaim Guaçu, cujas nascentes estão tomadas por areia e vegetação aquática. “A legislação nos proíbe de limpar o córrego”, afirma Célio Francischinelli, um dos proprietários do Sítio Santo Antônio, localizado no Bairro do Jacuhú. Na propriedade existem quatro nascentes, todas assoreadas.

Segundo os relatórios de outorgas do Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), atualmente Itu utiliza os seguintes mananciais: ribeirão Pirapitingui (250 litros/segundo), ribeirão Itaim (115 l/s), córrego Braiaiá (260 l/s), ribeirão Varejão (90 l/s), córrego dos Gomes (45 l/s) e córrego São José (130 l/s). Há ainda 40 poços profundos de uso público que juntos, possibilitam a captação de mais 170 l/s. Isso significa que Itu tem à disposição 1.060 litros de água por segundo.

O volume captado seria mais que o suficiente para uma população de cerca de 160 mil habitantes, numa média altíssima de 572 litros/habitante/dia. Consideradas as perdas divulgadas pela Águas de Itu, a cidade joga fora mais de 36 milhões de litros de águas todos os dias, o suficiente para encher 14 piscinas olímpicas.

E tem mais: o ituano ainda se dá ao luxo de gastar o triplo da água que deveria, pois seu consumo fica numa média de 343 litros por dia, quando o recomendado pela Organização das Nações Unidas é 110 litros/habitante/dia. Esses números evidenciam o que defende o geógrafo Rodrigues: Itu não precisa de novos mananciais, mas de uma gestão eficiente dos recursos hídricos.

O prefeito Herculano não se preocupa com isso. Aposta todas as fichas na Águas de Itu e dá o problema de falta de água como um assunto do passado. “A escassez de água existia em Itu. Com a concessão que fizemos, resolvemos esse problema”, disse.

Recursos extras

Antigos moradores ituanos lembram com saudade de locais como os bebedouros para animais na saída para Cabreúva, próximo ao Quartel, num local então denominado Bairro da Marinhinha (hoje Bairro Chafariz) e o que ficava no Largo do Mercado, atrás da Igreja de Santa Rita. Há quem se lembre da antiga bica do Asilo Nossa Senhora da Candelária, próxima à Fábrica São Pedro.

A população ituana também recorria às torneiras de água de empresas como Brinquedos Mimo, Singer, Colchões Apollo e Schincariol. Ainda hoje muitos moradores da cidade bebem água da fonte da Vila Santa Terezinha, conhecida como bica da Santa Terezinha.

Ribeirão Mombaça

Na gestão do prefeito Leonel Salvador – PSDB – (1997 a 2000) foi levantada pela primeira vez a possibilidade de captar água do ribeirão Mombaça, que nasce no município de São Roque/SP e também recebe o nome de Guaçu. O ribeirão está localizado entre os municípios de Itu e Araçariguama/SP. Arcilio Sergio Bragagnolo, então diretor de Meio Ambiente, acompanhou os estudos realizados à época pelo engenheiro e sanitarista Werner Zulauf, um dos ambientalistas mais respeitados no Brasil, falecido em 2003.

As análises, segundo Arcilio, demonstravam que o volume seria suficiente para abastecer Itu por um século e, o melhor, suas águas poderiam chegar às estações de tratamento por gravidade, sem necessidade de bombeamento. Entusiasmado, ele buscou apoio na iniciativa privada para a execução das obras, mas seus esforços foram freados por decisões políticas. “Apareceram empecilhos de todos os lados: de políticos, de ambientalistas de carteirinha, etc”, afirma.

Arcilio acredita que os prefeitos desistiram da captação de água do Mombaça porque isso resolveria o problema da falta de água em Itu e lançaria por terra o grande mote para concretizar a já planejada concessão do Saae.

Rose Ferrari



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