Sociólogo caipira

Mesmo famoso o ituano Octavio Ianni não esqueceu sua cidade e seus costumes

Entre os anos de 1830 e 1850, o cultivo do açúcar aos pouco foi substituída em todo País pelo café. Em Itu não foi diferente: aos poucos as grandes fazendas do município se renderam à cafeicultura. Com a abolição da escravidão, os barões do café se viram obrigados a procurar uma nova mão-de-obra, pois os negros já não podiam mais ser escravizados.

Aos poucos o País passou a receber imigrantes vindos principalmente da Itália. Itu foi destino de muitas dessas famílias, entre elas estava a família Ianni, que presenteou a cidade com um dos mais admirados sociólogos do País: Octavio Ianni.

Trajetória de sucesso

Ianni nasceu em Itu em 13 de outubro de 1926. Viveu boa parte de sua infância no antigo Bairro do Matadouro (hoje Vila Padre Bento). Lá, o pequeno italianinho de Itu (apelido pelo qual era tratado pelas elites da cidade e que muito o desagradava) teve uma infância tranqüila.

Em 1934, ainda criança, Octavio perdeu o pai, Andrea Ianni. Pouco mais tarde, em 1939, morreu também sua mãe, Anna Maria Guariglia Ianni. Por essa razão o irmão mais velho de Octavio e também seu tutor legal, Constantino Ianni, o levou para morar em sua casa.

Em Itu, Octavio teve uma adolescência tranqüila. Segundo Cordélia Silva Galvão Ianni, esposa de Constantino, ele era uma pessoa muito calma, quieta, pouco se abria e sempre estava disposto a ajudar nos afazeres da casa.

Com 22 anos, outro acontecimento abalou sua vida. Era uma tradição entre os irmãos comparecerem anualmente à festa de Salto. Naquele ano, durante a volta a Itu o carro se envolveu em um acidente e Octavio perdeu dois irmãos, Atílio e Arthur.

Após o acidente, Octavio mudou-se para Osasco/SP e passou a morar com seu outro irmão, Antônio Ianni. Na mesma época, ingressou na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Além de cursar as aulas de Ciências Sociais, Octavio, com a ajuda de seus irmãos, montou naquele município uma tipografia e passou a dividir seu tempo entre os estudos e o pequeno empreendimento.

Durante sua estada em Osasco, Octavio, sempre que podia, visitava amigos e parentes em Itu. Na cidade conheceu Eline Maria Zoiner, com quem se casou antes mesmo de se formar na faculdade e com quem teve duas filhas.

Após sua formatura Octavio decidiu fechar a tipografia dedicando-se integralmente à vida acadêmica. Conquistou a vaga de assistente de um dos maiores sociólogos do País, Florestan Fernandes. Na mesma época, conheceu o ex-Presidente da República Fernando Henrique Cardoso. Os dois discípulos de Florestan deram continuidade às pesquisas do mestre sobre o negro no Brasil, focando as condições de vida dos negros e o tratamento que é lhes dado pela sociedade.

Mais tarde, por questões não muito bem esclarecidas, Octavio Ianni e Fernando Henrique romperam a amizade. Segundo relatos de amigos, Octavio não concordava com a visão política de Fernando. Octavio Ianni acreditava que a vida intelectual não poderia ser misturada com a vida política. Para ele, dedicar-se a intelectualidade era algo mais importante.

Apesar de sua fama e trabalho reconhecido internacionalmente, Octavio Ianni jamais abandonou sua cidade natal. Durante muitos anos manteve uma residência, que ficava localizada na Rua Santa Rita, onde passava as férias com a família.

Sempre que ia a Itu, Octavio Ianni fazia questão de visitar toda a família. Sua sobrinha Ana Maria conta que ele sempre realizava uma via sacra pela cidade, passando pela casa de cada irmão.

Octavio Ianni faleceu no dia 4 de Abril de 2004, vítima de um câncer. O sociólogo foi enterrado em Itu no jazigo da família. Uma perda enorme para Itu e para a Sociologia não só do Brasil, mas de todo o mundo.

Ana Flavia Gimenes



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