Trampolim para o generalato

Vários comandantes do Quartel de Itu alcançaram os mais altos postos do Exército

Quando o Exército Brasileiro avalia a carreira e o mérito de oficiais para promover novos generais, ter comandado uma unidade do porte do 2º Grupo de Artilharia de Campanha Leve (2º GAC L) – Regimento Deodoro, em Itu/SP, é requisito obrigatório. Essa prerrogativa não garante, entretanto, que todo comandante do Quartel de Itu será promovido a general no decorrer da carreira.
Entre os mais de 50 militares que chefiaram o Regimento Deodoro em um século, um grupo seleto alcançou o generalato. Ainda assim, a tradição e importância da unidade militar de Itu são elementos que muitas vezes impulsionam a carreira de oficiais que sonham em alcançar os mais altos postos do Exército Brasileiro.
“O comando de um regimento da envergadura do Regimento Deodoro, com toda a carga histórica que ele tem, atrelada também à carga histórica da cidade, dá um relevo todo especial à carreira”, salienta o general Paulo José Abreu de Andrade, que comandou o Quartel de Itu no início da década de 90.
O Regimento Deodoro é uma das unidades mais almejadas também graças a sua localização geográfica privilegiada, qualidade do material humano, estrutura e condições de trabalho. “É uma unidade de bastante visibilidade”, frisa o coronel Erb Lyra Leal, que deixou o comando do Quartel de Itu em janeiro deste ano. “Eu diria que é um celeiro de oficiais generais”, enaltece o general João Tranquillo Beraldo, que foi comandante em Itu no fim dos anos 90.

Antigas referências
Registros antigos apontam que o coronel Pedro Frederico Leão de Souza, que comandou o 4º Regimento de Artilharia Montada (4º RAM) de Itu em 1921 e 1922, alcançou o generalato ao prosseguir a carreira. Da mesma forma, o coronel Heitor Pires de Carvalho e Albuquerque, que comandou o 4º RAM de 1933 a 1936, também se tornou general após deixar Itu.
No início da década de 40, o coronel Octávio Saldanha Mazza comandou por apenas seis meses o Quartel de Itu e saiu para trabalhar na abertura da Escola Preparatória de Cadetes de São Paulo. Em sua carreira ascendente, Mazza alcançou o generalato e se destacou nos anos 50 ao chefiar o Comando Militar do Sul, em Porto Alegre/RS, e ser ministro-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas no governo do Presidente Juscelino Kubitschek (PSD), de 1956 a 1958.
Ainda na década de 40, o 4º RAM teve um comandante que se destacou antes de chegar a Itu. Seu nome era Henrique Ricardo Holl, que nos anos 20 integrou o movimento tenentista e participou ativamente da Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 1922, e da Revolta Paulista de 1924. Após sua fuga para o Paraná, Holl integrou a famosa Coluna Prestes.
De 1940 a 1942, Holl foi adido militar na Alemanha antes do rompimento das relações do Brasil com aquele país, devido à Segunda Guerra Mundial. Holl comandou o Quartel de Itu de 1943 a 1945, quando passou à reserva como general-de-brigada.

Heróis de guerra
Na década de 50, três heróis da Segunda Guerra Mundial comandaram o Quartel de Itu. O primeiro deles foi o coronel José de Souza Carvalho, de 1949 a 1951, promovido a general-de-brigada quatro anos depois. Carvalho integrou a Força Expedicionária Brasileira (FEB) em sua campanha na Itália em 1944 e 1945.
Na campanha da FEB na Itália, Carvalho comandou o 2º Grupo de Artilharia, enquanto o 1º grupo homônimo tinha a liderança do tenente-coronel Waldemar Levy Cardoso. Ambos foram protagonistas nas famosas batalhas de Monte Castelo, Castelnuovo e Montese, combatendo os nazistas em solo italiano.
Considerado um dos grandes nomes da história do Exército Brasileiro, Levy Cardoso comandou o 2º Regimento de Obuses 105 (2º RO 105) em Itu de 1953 a 1954, ano em que foi promovido a general-de-brigada. Em 1966, após brilhante carreira, passou para a reserva no posto de marechal, tendo sido o último a ocupar esse posto no Brasil. Faleceu no Rio de Janeiro em 2009, aos 108 anos. Participou das Revoluções de 24 e 30 e da Intentona Comunista de 1935.
O 1º grupo de artilharia da FEB liderado por Levy Cardoso na Itália tinha como um de seus membros o oficial de tiro Araken de Oliveira, que viria a comandar o Quartel de Itu em 1956 e 1957. Araken foi promovido a general-de-brigada em 1964, no início do Regime Militar. A exemplo do marechal Levy Cardoso, Araken também chegou a ser presidente da Petrobras nos tempos de ditadura.
Ainda na década de 50, o coronel João de Deus Pessoa Leal comandou o 2º RO 105 em Itu de 1952 a 1953 e tornou-se general posteriormente.

Regime Militar
Comandante do Quartel de Itu em 1958 e 1959, o coronel Ivanhoé Gonçalves Martins alcançou o generalato no decorrer da carreira e ganhou projeção com o Regime Militar (1964-1985), quando chegou a ser secretário de segurança pública do Estado de São Paulo e governador do Amapá pela Arena de 1967 a 1972.
Já o coronel Benedito Maia Pinto de Almeida dirigiu o 2º RO 105 de Itu de 1963 a 1965. Foi adido militar no Equador, promovido a general-de-brigada em 1969 e a general-de-divisão em 1975 e comandou a 1ª Região Militar, no Rio de Janeiro, em 1977. Na década de 80, foi promovido a general-de-exército.
De 1969 a 1971, o coronel Leônidas Pires Gonçalves comandou o Quartel de Itu. Promovido a general na sequência, chefiou o Comando Militar da Amazônia e, ao final da ditadura, foi nomeado pelo Presidente Tancredo Neves (PMDB), como ministro do Exército, cargo que ocupou de 1985 a 1990 no governo do Presidente José Sarney (PMDB), que assumiu o cargo após a morte de Tancredo.
A passagem do coronel Romero Lepesqueur Sobrinho pela unidade militar de Itu aconteceu de 1973 a 1975. Após isso, assumiu o posto de general e chefiou o Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro. Já nos anos 90, foi nomeado presidente da Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa) pelo Presidente Itamar Franco (PMDB), com a missão de conduzir o processo de privatização da antiga estatal.

Generais vivos
Comandante do 2º GAC AP (2º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado) em Itu entre 1984 e 1986, o coronel Francisco Roberto de Albuquerque chefiou a Comissão do Exército Brasileiro em Washington (EUA) e, ao assumir o posto de general-de-brigada, comandou a 11ª Brigada de Infantaria Blindada, em Campinas/SP.
O auge ainda estava por vir: Albuquerque chefiou o Comando Militar do Sudeste e, já como general-de-exército, foi nomeado comandante do Exército Brasileiro pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cargo que exerceu de 2003 a 2007. Hoje na reserva, Albuquerque adotou Itu para viver com sua família.
De 1990 a 1992, o coronel Paulo José Abreu de Andrade comandou o 2º GAC AP e, após deixar a unidade, tornou-se subcomandante da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende/RJ. Promovido a general-de-brigada, exerceu o posto em unidade militar sediada em Curitiba/PR, onde passou para a reserva e vive atualmente.
Entre 1994 e 1997, o coronel Reinaldo Cayres Minati comandou o Quartel de Itu, onde iniciou sua carreira na década de 70, tendo retornado na década seguinte como capitão e major. Ao deixar o comando em Itu, Minati foi adido militar em Portugal e, após alcançar o generalato, comandou a Aman e foi assessor especial do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Atualmente está na reserva.
De 1997 a 1999, o comando do 2º GAC AP coube ao coronel João Tranquillo Beraldo, que também já havia passado por Itu no início da carreira, na década de 70. Após comandar em Itu, foi observador militar da Organização das Nações Unidas (ONU) no Timor Leste e, ao se tornar general, comandou a 14ª Brigada de Infantaria Motorizada em Florianópolis/SC. Na reserva desde 2008, Beraldo vive em sua cidade natal, Araras/SP, onde nos últimos anos exerceu o cargo de secretário municipal de segurança pública.
Assim como Minati e Beraldo, o tenente coronel Edson Diehl Ripoli foi outro comandante do Regimento Deodoro com passagens anteriores pela corporação. Diehl comandou o Quartel de Itu de 2005 a 2007. Na sequência, assessorou o gabinete do comandante do Exército e a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, foi conselheiro militar da ONU na África e desenvolveu estudos na Espanha. Promovido a general-de-brigada em 2015, comandou a Artilharia Divisionária da 1ª Divisão de Exército e atualmente é o 1º subchefe do Estado-Maior do Exército, em Brasília/DF.
De 2007 a 2010, o coronel Carlos Sérgio Câmara Saú comandou o Quartel de Itu, unidade que serviu também nos anos 80, início de sua carreira. Saú se tornou general-de-brigada em 2014 e chefiou o Centro de Operações do Comando Militar do Oeste, em Campo Grande/MS. Desde 2016, comanda a 11ª Brigada de Infantaria Leve, em Campinas.

Antonio Rafael Júnior

Foto 11 (sem legenda, fechando a matéria)

01 – Na comemoração do centenário do Regimento Deodoro, o coronel Erb Lyra Leal saúda ex-comandantes do Quartel de Itu, alguns deles generais do Exército Brasileiro – Antonio Rafael Júnior

02 – Coronel Erb Lyra Leal presta homenagem ao general da reserva Paulo José Abreu de Andrade, que comandou o Quartel de Itu no início da década de 90 – Antonio Rafael Júnior

03 – Em 2008, o marechal Waldemar Levy Cardoso recebeu os cumprimentos do então comandante, coronel Carlos Sérgio Câmara Saú. Levy Cardoso foi um herói de guerra e comandou o Quartel de Itu na década de 50 – Coleção Regimento Deodoro

04 – Após comandar o Quartel de Itu de 1969 a 1971, o general Leônidas Pires Gonçalves fez visita histórica a Itu como ministro do Exército na década de 80 – Coleção Regimento Deodoro

05 – General Francisco Roberto de Albuquerque, que comandou a unidade de 1984 a 1986, fez visita histórica ao Regimento Deodoro em 2003. Na foto, ele aparece ao lado do então prefeito Lázaro José Piunti (PSDB) – Coleção Regimento Deodoro

06 – Comandante do Regimento Deodoro de 1994 a 1997, o coronel Reinaldo Cayres Minati recebeu o título de cidadania ituana em sua passagem por Itu. Na foto, Minati ao lado do então vereador Abílio Savi (PDS) – Coleção Regimento Deodoro

07 – General Edson Diehl Ripoli atualmente é o 1º subchefe do Estado-Maior do Exército Brasileiro. O militar teve três passagens por Itu, a última como comandante do Regimento Deodoro, de 2005 a 2007 – Coleção Edson Diehl Ripoli

08 – Comandante da 11ª Brigada de Infantaria Leve, o general Carlos Sérgio Câmara Saú (à dir.) orienta soldados do Regimento Deodoro durante treinamento. Saú comandou o Quartel de Itu de 2007 a 2010 – Coleção Regimento Deodoro

09 – Conflitos em trincheiras no Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, tiveram a participação de soldados do Quartel de Itu – Arquivo revista Campo&Cidade

10 – Ao final da Segunda Guerra Mundial, a cidade de Itu preparou recepção calorosa aos soldados da Força Expedicionária Brasileira – Arquivo revista Campo&Cidade

Box 01
Moreira, um general ituano
Embora não tenha comandado o Regimento Deodoro, a figura de Antônio Joaquim Soares Moreira é muito reverenciada dentro da corporação por ter sido o militar natural de Itu/SP que alcançou o mais alto posto dentro do Exército Brasileiro.
Moreira ingressou no Exército em 1945, graduando-se três anos depois na Aman. Voltou a Itu na sequência, onde serviu no 2º RO 105 como capitão. E foi justamente em 1948 que ele conheceu sua esposa Myriam Levy Cardoso, filha do coronel Waldemar Levy Cardoso, que comandaria a unidade de Itu cinco anos mais tarde.
Em sua carreira, Moreira chefiou o gabinete do Presidente General Emilio Garrastazu Médici, em Brasília/DF, e foi adido militar no Irã. Promovido general em 1981, chefiou a 14ª Brigada de Infantaria Motorizada em Florianópolis/SC, comandou a 1ª Região Militar, no Rio de Janeiro, foi chefe do Estado-Maior do Exército, além de ministro e presidente do Superior Tribunal Militar. (ARJ)

Foto box 01 – Em visita a sua terra natal em 1998, o general Antônio Joaquim Soares Moreira (à dir.), então presidente do Superior Tribunal Militar, recebe homenagem do Regimento Deodoro – Coleção Regimento Deodoro

Box 02
Conflitos em 1924 e 1932
O 4º RAM viveu dias tensos em julho de 1924. Após a eclosão da Revolta Paulista, em que os tenentistas se rebelaram contra o governo do Presidente Arthur Bernardes, um grupo de oficiais revoltosos do Quartel de Itu prendeu o comandante, coronel Francisco Escobar de Araújo, e saiu às ruas para tomar a cidade, prendendo o prefeito Sérvulo Correa Pacheco e Silva e ocupando pontos estratégicos. Em seguida, parte deles partiu para São Paulo para se juntar ao comando tenentista, que semanas mais tarde teria que fugir da capital devido ao poderio das tropas do governo.
Já na Revolução Constitucionalista de 1932, o 4º RAM, sob o comando do tenente coronel Manoel Severiano Ferreira Marques, enviou mais de 350 soldados, equipamentos, munição e armas para o Vale do Paraíba. A corporação sofreu duras baixas, com 8 mortos e 32 feridos só nos primeiros 30 dias de conflito. Entre as baixas, o 1º tenente Sylvio Fleming, que morreu em 21 de agosto após ser ferido na linha de frente, no município de Silveiras/SP. O militar dá nome a uma das rua centrais em Itu. (ARJ)

Box 03
Segunda Guerra e Regime Militar
Na Segunda Guerra Mundial, oficiais do 4º RAM atuaram na defesa da Costa brasileira e também no front. Em setembro de 1942, 309 soldados do Quartel de Itu/SP integraram a Força Expedicionária Brasileira e embarcaram depois para a Itália para lutar contra os nazistas. Por sua vez, 287 oficiais de Itu foram para Maceió/AL com a missão de defender o litoral de um eventual ataque estrangeiro.
Em 1964, o Quartel de Itu foi a primeira unidade da 2ª Região Militar a se deslocar para São Paulo e apoiar o movimento militar que depôs o Presidente João Goulart (PTB). A seguir, o comandante de Itu, coronel Benedito Maia Pinto de Almeida, conduziu seus oficiais para Resende, onde se apresentaram ao comandante da Aman, general Emilio Garrastazu Médici.
Durante o Regime Militar, o Quartel de Itu realizou um trabalho de inteligência para o Exército Brasileiro, segundo o qual recebia e encaminhava presos políticos para a cidade de São Paulo. (ARJ)

Box 04
Comandante revolucionário
Comandante do 4º RAM na época da Revolução Constitucionalista de 1932, o tenente coronel Manoel Severiano Ferreira Marques não tem seu nome incluído na galeria oficial de ex-comandantes do Quartel de Itu/SP. O Regimento Deodoro confirma que Marques chefiou a unidade militar naquele período, mas não se sabe o real motivo de sua exclusão da relação histórica de ex-comandantes.
Ainda que não haja posição oficial a respeito, há rumores de que Marques não faça parte do quadro oficial por ter sido revolucionário, pois aderiu à causa Constitucionalista, liderada pelos paulistas contra o governo do Presidente Getúlio Vargas. Tanto é que o Diário Oficial da União de 30 de julho de 1932 publicou ofício em que o então ministro do Exército, general Augusto Inácio do Espírito Santo Cardoso, convocava dezenas de oficiais a se apresentarem ao Exército Brasileiro no prazo de oito dias, entre os quais figurava o nome do comandante do Quartel de Itu. Segundo o ofício, quem não se apresentasse seria considerado desertor. No fim daquele ano, inclusive, alguns oficiais foram deportados para Portugal, retornando depois ao Brasil graças à anistia. (ARJ)

Fotos Box 04 A e Box 04 B – Comandante do Quartel de Itu na época da Revolução de 1932, o tenente-coronel Manoel Severiano Ferreira Marques aparece ao centro nesta foto histórica, em que o soldado Pedro de Souza Guimarães é o primeiro à esquerda e o tenente José Gregório do Nascimento é o penúltimo, da esquerda para a direita. Esta foto foi encontrada pela reportagem na coleção de Carlos Guimarães, filho de Pedro de Souza Guimarães, tendo relevância histórica porque nem o Regimento Deodoro possui, em seus arquivos, imagem do comandante Manoel Severiano Ferreira Marques. No detalhe, documento de identificação do soldado Pedro de Souza Guimarães com a assinatura do referido comandante Severiano, em 1931 – Fotos: Coleção Carlos Guimarães



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